Terra Magazine

 

Terça, 28 de novembro de 2006, 07h55

A outra origem de Janaína

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

De onde vem o belo nome "Janaína" que, graças a Leila Diniz e sua famosa gravidez, tornou-se tão comum em meninas brasileiras desde os anos 70? Claro que é um dos nomes dados no Brasil a Iemanjá. E que essa orixá, assim como o seu nome mais tradicional, é certamente de origem ioruba: o nome Yemoja é uma contração de Yeye mo oja, "mãe dos peixes".

Mas "Janaína" não se explica com a mesma facilidade. O dicionário Houaiss registra a valente tentativa da museóloga e folclorista Olga Cacciatore, de explicar esse nome como composição ioruba: iya "mãe" + naa "que" + iyin "honra", mas isso está longe de ser ponto pacífico. A muitos ouvidos, o nome soa indígena, talvez tupi - nos gibis de Maurício de Souza, por exemplo, é nome de uma indiazinha. Mas isso faz ainda menos sentido.

Por surpreendente que pareça, a origem do nome pode ser mesmo portuguesa, nada mais, nada menos - uma modificação ou diminutivo do português "jana", que dá nome, por exemplo, a Ribeira de Janas, que é um distrito de Lisboa e a Janas, vilarejo próximo de Sintra, na Estremadura. Mas o que é uma jana?

Ora, em Portugal e na região espanhola de León, janas são uma espécie de fadas dos rios, semelhantes a sereias, que como suas similares e variantes em muitas outras tradições, tanto podem cativar os homens pela sua beleza e lhes causar a perdição como se deixar seduzir e terem um triste fim. No passado, a palavra também foi usada como sinônimo de bruxa e de fada.

No noroeste da Espanha, nas Astúrias e na Galiza (onde o "x" geralmente corresponde ao "j" português), são chamadas xanas. São descritas como belas mulheres loiras e de olhos azuis, que vivem nos rios das montanhas, fontes e grutas e passam a maior parte do tempo a se pentear com pentes de ouro. São bondosas como os que as ajudam, mas rancorosas e vingativas com os que invadem seus domínios.

Os nomes de xácia ou sácia são também conhecidos na Galiza. Segundo uma lenda da Ribeira Sacra, curso d´água perto de Monforte de Lemos, um pescador encontrou uma xácia, bela e formosíssima e esta lhe disse que, se a batizasse, ela se desencantaria e se casaria com ele. O casamento realizou-se, mas a xácia acabou por aborrecer-se, abandonou o marido e voltou às profundidades do rio, onde seus parentes a despedaçaram por ter-se feito cristã.

Uma variante do nome - ljanas - é dado no vale de Aras, leste da Cantábria (outra região do norte da Espanha) a um ser um tanto diferente: duendes femininas travessas e glutonas, que andam nuas, têm um peito enorme que jogam sobre o ombro direito e entram nas casas para roubar comida e nos apiários para roubar mel. Uma lenda conta que o cura de San Pantaleón quis acabar com elas ateando fogo às grutas onde viviam e elas se vingaram incendiando o povoado, a começar pela casa do vigário.

Meio confundidas com anjos, as janas viram também anjanas na Cantábria, onde uma variante da lenda assegura que são enviadas por Deus para realizar boas obras e que, depois de 400 anos, vão-se embora para não mais voltar. As anjanas foram celebrizadas pelo escritor espanhol Manuel Llano em Mitos y Leyendas de Cantabria, onde são descritas como tendo a aparência de mulheres jovens e belas, de pequena estatura, olhar amoroso e voz doce. Vestem uma túnica branca com uma capa azul, costumam usar coroas de flores e carregam uma varinha mágica que brilha com uma cor diferente a cada dia da semana, indicando as diferentes magias que podem realizar nesses dias. Lutam com seus inimigos, os ojáncanos ou ojancos (literalmente, "olhões"), ciclopes peludos que são os bichos-papões da Cantábria.

Vivem nos riachos, fontes e mananciais, conversam com as águas e os pássaros, passeiam pelos bosques, ajudam animais feridos e árvores partidas. Às vezes, também ajudam amantes, pessoas perdidas na floresta e sofredores em geral. A seguinte parlenda da Cantábria serve para pedir proteção às anjanas e encontrar objetos e animais perdidos:

Anjanuca, anjanuca,
güena y floría,
lucero de alegría,
¿ónde está la mi vacuna?

Esta outra serve para encontrar o caminho que se perdeu:

Anjana blanca,
ten piedad de mi.
Guiame por la oscuridad y la niebla.
Líbrame de los peligros y de los malos pensamientos

Na festa da primavera, se reúnem à meia-noite para dançar nas brenhas e espalhar pétalas de flores que dão sorte a quem as encontrar. Disfarçadas de velhas, as anjanas também testam a caridade do povo e distribuem presentes e castigos segundo seu mérito.

Na Sardenha, também se fala de janas - ou ianas, nas grafias sarda e italiana. As labirínticas sepulturas cavadas nas rochas pelos povos pré-historicos que viveram na ilha antes da conquista romana são conhecidas no folclore local como domus de ianas, ou seja, casas de janas.

Ora, o nome "Jana" é uma corruptela de Diana, a deusa romana da caça e das florestas, assimilada às deusas gregas Ártemis, Hécate e Selene. Seu culto nasceu às margens do lago Nemi, perto de Roma. Ali, seu sacerdote permanecia no posto, com o título de Rex Nemorensis, até ser morto pelo próximo pretendente, usualmente um escravo fugido, que viesse a colher um "ramo dourado" no bosque sagrado. Uma tentativa de explicar esse costume é o fio condutor de um dos mais belos e ambiciosos (mas não dos mais rigorosos) tratados de mitologia já escritos, O Ramo de Ouro, de Sir James George Frazer.

Nos últimos séculos da antiguidade romana, seu culto popular entre escravos e camponeses pobres em áreas remotas, permaneceu como um dos mais resistentes à erradicação pelo cristianismo. Foi um dos últimos a morrer, se é que chegou a desaparecer de todo.

Em História Noturna: decifrando o Sabá, o historiador Carlo Ginzburg refere-se a uma vasta série de confissões de supostas feiticeiras dos séculos X ao XIV e mesmo posteriores que, interrogadas por padres e inquisidores, afirmavam participar em êxtase de vôos noturnos na companhia de uma misteriosa divindade feminina, chamada, conforme a época ou região, de Diana, Fortuna, Richella (de "riqueza"), Abúndia (de "abundância"), Sácia (de "saciar"), Bensozia (Boa Sócia), Perchta (deusa da vegetação na Áustria e sul da Alemanha, protetora das almas dos mortos), ou Huld/Holda/Holle (sua correspondente no norte da Alemanha, protetora das crianças e das tarefas domésticas femininas). Eram sinais de um resistente culto pré-cristão da fertilidade que ele chama de "religião diânica".

Outros possíveis equivalentes, citados por outros autores, são, na Escócia, Nicceven ou Nicheven, de um termo que pode significar "divina" ou "brilhante", no país basco, a senhora Mari ou Andra Mari, a deusa-mãe basca. E na Itália, La Befana (de "Epifania"), uma fada que no folclore italiano traz presentes para as crianças na véspera da festa de Reis, como os reis magos nos países de língua espanhola (ou Papai Noel na parafernália natalina de origem nova-iorquina).

A Igreja, pelo menos, interpretava a todas como referências à deusa romana - ou então a Herodíade, a neta de Herodes, o Grande, que os Evangelhos responsabilizam pela decapitação de São João Batista. Segundo a narrativa, ela teria feito a filha Salomé dançar para o marido Herodes Antipas e seus convidados e em troca pediu a cabeça do profeta. Como a personagem bíblica se misturou com tal cortejo de divindades pagãs? Talvez a origem tenha sido um sincretismo da grega Hera com a romana Diana - Heradiana, interpretada pelos inquisidores como Herodias. Assim, a sedutora princesa judia teria se tornado filha ou companheira da deusa virgem e lésbica. De qualquer forma, segundo teria ouvido o folclorista estadunidense Charles Leland de uma informante chamada Maddalena, uma seita clandestina de feiticeiras da Toscana adorava sua deusa por uma corruptela desse nome. Aradia ou o Evangelho das Feiticeiras, publicado em 1899, tornou-se um dos textos fundadores da Wicca e do neopaganismo moderno.

Voltemos, porém, à Idade Média. Em 1390, um inquisidor milanês mencionou mulheres que haviam confessado a seu predecessor que participava regularmente do "jogo de Diana que chamam Herodíade". Na verdade, segundo as sentenças originais examinadas por Ginzburg, Sibillia e Pierina chamavam o objeto de seu culto de "Madona Oriente". Toda quinta-feira, saíam com Oriente e sua "sociedade".

Oriente as chamava "filhas" e respondia às suas perguntas, predizendo coisas futuras e ocultas. Com base nessas predições, Sibillia respondia às perguntas de muitas pessoas, dando-lhes informações e ensinamentos. Pierina aprendia as utilidades das ervas, remédios para doenças e o modo de encontrar as coisas roubadas e afastar malefícios. Via a Madona Oriente como a senhora de sua "sociedade", assim como Cristo era o senhor do mundo. Sua função era proporcionar mais bens materiais, mais colheitas, mais gado ao povo - que, aliás, venerava Cristo e os santos com o mesmo objetivo.

Às vezes, suas seguidoras matavam bois e comiam a carne destes; depois, recolhiam os ossos e os colocavam dentro das peles dos animais mortos. Então Oriente tocava as peles com a ponta de sua varinha e os bois ressuscitavam - embora não conseguissem mais trabalhar. Essa curiosa narrativa lembra o mito de Dioniso, que foi sacrificado na forma de touro pelos Titãs e devorado - exceto pelo coração, salvo por uma deusa (Atena, Réia ou Deméter) e ressuscitado por Zeus. Lembra também nosso auto do bumba-meu-boi e suas variações regionais (boi-bumbá, boi de Janeiro etc.), que também giram em torno da ressurreição de um touro. Poderão histórias como essa representar pontes entre a Grécia arcaica e o Brasil moderno?

Na Idade Média, a Igreja freqüentemente classificou como culto de Diana ou Herodíade várias aparentes sobrevivências de cultos e superstições pagãs e chamou as "bruxas" que as praticavam de "dianas". Usou a deusa romana e a princesa judia como fio condutor para orientar-se no labirinto das crença locais. Camponeses de várias partes da Europa latina deram-lhes ouvidos, identificando com Diana ou "Jana" tradições locais sobre espíritos femininos de diferentes origens, misturando e reinventando crenças e lendas. Mas nomes alternativos sobreviveram em alguns lugares - como Sácia, transformada em Xácia por dialetos locais.

Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
 

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