Atualizada às 09h39 Raphael Prado, especial para Terra Magazine
Parece que os carros são permanentes no estacionamento com som ambiente do Shopping Pátio Higienópolis. Num dos bairros mais nobres da capital paulista, encontrar vaga no meio de tantos luxuosos veículos é tarefa que demanda tempo. Lá dentro, os enfeites natalinos são de emocionar qualquer criança - pena que não são todas elas que podem entrar. A árvore de Natal deste ano é bem peculiar: o telhado de um imenso moinho, decorado com bichos de pelúcia. Papai Noel é detalhe, esquecido num canto. Ofuscado pela quantidade de luzes dos enfeites, ele está triste, conversando com uma solitária menina que até parece ser parente, tamanha a intimidade.
É nesse cenário que fica o Teatro Folha, onde peças importantes da dramaturgia brasileira já foram encenadas e que serviu de palco para as sabatinas do jornal Folha de S.Paulo com candidatos a senador, governador e presidente da República, alguns meses atrás. Hoje, ele abrigará felizes interessados na palestra do educador Gabriel Chalita. O evento é um "Ciclo Cultural" organizado pelo colégio judaico Iavne e o tema é "Educação Afetiva".
A dez minutos do início da palestra, apenas cinco pessoas - os organizadores - estavam no teatro que acomoda cerca de 200. Para passar o tempo, eles queriam tirar uma foto com o ex-secretário de Educação do governo paulista de Geraldo Alckmin. Ele falava ao celular, mas pediu um instante para o interlocutor, o guardou ainda aberto no bolso, e tirou as fotos. Depois, pegou o telefone, desculpou-se e continuou falando.
Alguém diz que, por causa do trânsito, levou 1h30 para chegar. Naquele tom de professora primária falando com os alunos, sai um: "dizem que tá tudo pa-ra-do". Algumas cadeiras atrás, um senhor também fala ao celular: "Alberto, tudo bem? É o papi". Outra colega jornalista - do Iavne News - perguntou se eu era um pai de aluno. Não. Professor? Não. Curioso? Também. Depois confessou que estava substituindo o verdadeiro responsável pelo veículo, que não pôde ir.
Com cerca de 45 minutos de atraso, o teatro já está quase lotado e a palestra vai começar. Eu, Chalita e mais cinco ou seis somos os únicos homens sem kipá. E também não cumprimentamos ninguém em ídiche quando chegamos. No início, um DVD institucional do colégio é exibido, com a introdução de uma organizadora, que ressalta o "destaque especial para as famílias que patrocinam esse evento, sem as quais ele não seria possível".
Ao som de "O Caderno", na voz de Toquinho, as salas modernas, espaçosas, informatizadas; o playground. Crianças rezando e organizando doações de objetos pessoais (até pasta e escova de dentes) para soldados israelenses. "Israel está sempre em nosso coração", diz uma delas. "A solidariedade é uma marca do Judaísmo", confirma Chalita logo no início de sua fala. Completa que "Depois desse vídeo, não precisa falar mais nada". Mesmo assim, todo mundo o ouve. "É importante preparar os alunos para a paz, a vida e a felicidade. E isso vocês fazem com excelência", conclui, na introdução.
O palestrante esclarece o tema de sua fala. Explica que "Educação Afetiva é vibrar pelo aluno, lembrar que o pai dele estava doente no dia anterior e perguntar hoje se ele melhorou". Relata o caso de uma jornalista britânica que, numa apresentação dele em Londres, questionou esse método, dizendo que ela não quer saber se os profissionais de que precisa são afetivos, mas sim se são competentes. "Deixei falar; jornalista tem essa coisa de dono da verdade, né?" Durante a palestra, ele diz que a elogiou em público, e perguntou se ela havia gostado. Depois da resposta afirmativa, concluiu: "Educação Afetiva é isso". Simples assim.
Chalita conhecia seu público, e adaptou o discurso. Os ensinamentos baseados na cultura judaica têm suas peculiaridades. Então, ele dizia que é preciso educar para o "equilíbrio". Contou casos de escolas onde já lecionou, em Alphaville, nas quais os pais não queriam que os filhos conhecessem São Paulo fora daquele mundinho. "Mas é importante que conheçam agora, para que possam perguntar as dúvidas", sugeria, com sua fala tranqüila.
E ainda descreveu experiências com alunos carentes. Falou de uma faculdade na periferia, onde dava aulas de Direito Penal. Os alunos eram do 5.º ano. Depois da primeira avaliação, ele constatou que os formandos saíam da faculdade sem saber escrever. Apesar de ter introduzido a história dizendo que era das "mais bonitas" que já passou na vida, a platéia do teatro do Shopping Higienópolis não conseguiu conter o riso da situação. Ele continuou dizendo que não saber escrever àquela altura era um absurdo. Deu um sermão na aula seguinte: "Vocês não sabem o que é uma oração coordenada, um tópico frasal". Então os alunos pediram a ele que ensinasse, e ele passou os domingos daquele ano todo, sem receber nada por isso, dando aula de gramática para os futuros bacharéis.
Entre as mães que riram, uma que estava sentada à minha frente comentou com a vizinha, num sussurro: "Eu não sei o que é tópico frasal". Sem problemas. Ela mora em Higienópolis.
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