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Terça, 28 de novembro de 2006, 12h43

Do bispo e seu homem delicado

Paulo Scott

Personalidades não correspondem exatamente a estrelas, embora quando se trata de mídia não há, para nenhum lado, o que transcorra vagamente incólume, sem mínimos de politicagem.

Dia desses, na casa de amigos, sentei por uns minutos à frente da televisão e acompanhei perplexo o desempenho da Regina Duarte nesta novela das oito (ou nove) que eu sinceramente não guardei o nome. Ela não tem culpa da surrealidade que a ampara; é uma estrela absoluta da televisão brasileira, seu sorriso tem uma segurança perturbadora (minha digressão se estenderia por horas sobre o magnetismo e as conseqüências trágicas daquele sorriso). Tem os arremates cênicos da mocinha e o tipo de beleza que se cultua como oásis num país pobre e escuro como o nosso.

Magníficas como as estrelas, contudo minadas com algo diverso do imediato pueril, vêm as personalidades; sua notoriedade exige mais critério e sensibilidade.

Penso que ambas requerem tempo, ambas têm direito a homenagens.

Nada mais do que isso é o álbum Por que se mete, porra?: delicadezas de Paulo César Peréio. São Paulo: Editora do Bispo: 2006.

O álbum é bem ao gosto ansioso dos modernos: tipo de arquitetura-fetiche, tijolinho bom de folhear, ousadia à rojo magazine, essas coisas. Mas imagino que muita gente que admira a biografia do sujeito (sem o afogo da moda) também se satisfaça 100% com a oportunidade, embora fugaz e platônica, de se intrometer na intimidade dessa figura ímpar na cena artística nacional (não canso de dizer: a presença do Peréio deixava os filmes da década de 70 menos chatos e pedantes do que de fato eram).

Há belas fotos, à altura do mito (sem pieguice; só as fotos já valeriam a aquisição). Há algumas cartas e bilhetes que até fazem lembrar o significado da palavra romantismo - mostram o deslavado em geral das coisas, todas embrulhadas pela cor forte dos dilaceramentos.

Isso (duvido que me escape o clichê): Peréio é um cara sem medo de se arrebentar, é dos que contrastam indelevelmente sendo palhaço de verdade, arriscado, anti-pacato, anti-medíocre, é o que se entrega, entra nas portas e as deixa abertas aos demais. Minha amiga Bruna Beber (poeta carioca, 22 anos) diz que a falta de noção do Peréio a educou; e eu, sinceramente, não acho uma declaração dessas pouco.

No álbum (já tardiamente esclareço: livro pra mim é outra coisa) se encontra também a ousadia da Editora do Bispo que, a exemplo de outra editora que admiro, a Micra Editora Finaflor, vem produzindo edições fantásticas. Além de revelar novos autores e artistas, sem concessões às facilidades de escolha, na contramão do egoísmo e narcisismo contemporâneos, que nos enchem de cálculos, estratégias, guias de felicidade, patrocinadores mandando mostrar e ocultar, emburrecer.

Viva Peréio, essa figura em malabarismo, espuma longe do sabonete das estrelas.

Paulo Scott, escritor e professor universitário, criou os projetos PóQUET: ruído & literatura e Na TáBUA, combinando, a partir da literatura, outras mídias.


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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