Tabajara Ruas
Onde se narram as nefastas conseqüências da derrota do Negrinho na carreira.
A Baronesa está colocando uma bandeja com café e bolachas numa mesa. O Barão está dobrado sobre a mesa. A porta se abre, aparece André.
O Barão pressente sua presença, se incorpora e olha para ele.
- Eu teria ganho essa corrida, pai.
Ficam se olhando. André sai e bate a porta.
- Não quero café, não quero remédio, não quero nada - só quero ficar só.
A Baronesa sai, silenciosa. Só então percebemos que a Avó está no fundo da sala, sentada numa cadeira, apoiada na bengala. Ela se levanta. Atrás dela, na parede, está o imponente retrato a óleo do falecido irmão do Barão.
- Hoje sonhei com o Francisco.
Caminha com dificuldade até a porta.
- Esse filho, sim, tinha caráter.
2
Numa duna alta, á sombra de um figueira que cresceu relutantemente na areia, reunião de Netto com os lanceiros. São quatro: Caldeira, Lança, Tomás e Simão, jovem de 20 anos.
- Eu quero sair com vida desta empreitada. Para isso, precisamos confiar uns nos outros. Quem trair um, trai a todos.
- Um compromisso... E que garantia vosmecê dá?
- A garantia vocês já tem.
- E qual é?
- Minha vida.
Os dois se encaram intensamente, muito de perto.
- Pra mim, tá bom.
3
Porta do escritório do Barão se abre. O Barão sai para o corredor. Seu rosto sofreu uma sutil transformação. Há algo de mau nele.
Porta do quarto de André se abre. André espia. Vê o Barão avançando pelo corredor. André o segue.
O Barão irrompe na varanda. O menino negro olha para ele com medo e se afasta. Verônica observa o Barão com um mau pressentimento.
4
Capincho está sentado numa cerca, rodeado pelas crianças, atentas.
- A Teiniaguá era uma bruxa muito velha, mas quando queria podia se transformar numa moça muito linda.
Vejam só que artes ela possuía. Pois não é que um dia encontrou o sacristão no caminho e disse para ele: tudo que tu quiser... ouro... jóias... terras... escravos...
- Capincho! Me traz aqui o Negrinho!
As crianças protestam. Capincho se ergue com o rosto fechado.
- Eu já volto e termino o causo.
5
Caldeira cuida dos cavalos num bosque arborizado, onde a luz ainda atravessa em grandes fachos. Lança e Tomás, que estão com ele, se afastam rastejando. Carregam lança, faca e garrucha.
Espada e Simão fazem o mesmo por outro lado.
6
O Negrinho está sendo amarrado no palanque no meio do pátio, com as mãos para cima, por Capincho e Cara Cortada.
O Barão e André observam.
7
Longe, no horizonte da lagoa Mirim, o Posto Militar é uma paliçada de madeira no alto duma duna, um lugar desolado e infinito. Patas de cavalo surgem no quadro.
Netto apanha duas pistolas e as coloca sobre a sela, por baixo do pala.
8
O Barão olha o Negrinho nos olhos, amarrado ao palanque. Capincho, Cara Cortada e André estão junto a eles.
- Tu me desobedeceu.
- Obedeci, sim sinhô, Barão.
- Não conduziu o baio como eu mandei.
- Conduzi, sim sinhô!
- Não discute comigo, Negrinho.
9
No alto da torre, Catarino monta guarda, enquanto dedilha a guitarra. Vê um cavaleiro se aproximando. Apanha o binóculo.
- Lá vem aquele paisano outra vez.
O Sargento desabotoa o coldre. Índio Torres, estaqueado e envolto na horrível pele, observa. Recabarren está amarrado ao palanque em que estava o Índio.
O Cabo se aproxima e fica ao lado do Sargento.
- O que será que ele quer agora?
Netto avança muito lentamente.
10
- Eu não te ensinei que discutir com teu senhor é pecado?
O Barão tira o chicote do pescoço e o estende para Capincho.
- Trinta chibatadas.
- Por piedade, Barão, não me surre, não me surre!
Capincho estende o chicote para Cara Cortada. Eles se encaram, Cara sorri. Toma espaço, experimenta o chicote no ar duas ou três vezes, respira fundo. Então recua, firma os pés e dá a primeira chibatada no Negrinho.
- Uma!
Próximo capítulo: onde se conta o resgate de índio Torres e a comemoração que se segue
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» Sobre as Cartas do domador
Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 7
» Capítulo 8
» Capítulo 9
» Capítulo 11