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Sexta, 1 de dezembro de 2006, 09h50 Atualizada às 19h48

Exclusivo: Multiestatal cuidará de Gasoduto do Sul

Bob Fernandes

Direto da Venezuela - Rafael Ramirez, o homem que cuida do petróleo na Venezuela, conversa com Terra Magazine. Nessa entrevista Ramirez aposta que o Gasoduto do Sul, obra orçada em US$ 20 bilhões, vai sair do papel e se tornar realidade:

- É claro que é factível. O gasoduto é a ponta de lança para concretizar o projeto de integração mais importante da região.

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» Leia também a entrevista de outro ministro venezuelano, o de Interior e Justiça

O presidente da PDVSA e ministro da Energia e Petróleo relata a Terra Magazine:

- Será criada uma empresa multiestatal (do Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Uruguai e Paraguai) para manejar o gasoduto.

Diz Ramirez que avançam também os trabalhos para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco:

- O investimento, em partes iguais de Petrobras e PDVSA, é estimado em mais de US$ 5 bilhões.

Ontem, em entrevista coletiva, o presidente Hugo Chávez disse que irá propor à Assembléia Nacional um projeto para permitir a reeleição indefinida (ou seja, perpétua).

O poderoso homem do petróleo venezuelano não esconde a dimensão do projeto de Chávez, que neste domingo, 3, disputa um novo mandato de 6 anos:

- A Venezuela aposta na integração sul-americana no econômico, social e no político.

Na Venezuela, país de 26 milhões de habitantes em que até o início do século XXI não se pagava impostos como pessoa física, se não é tudo, o petróleo é quase tudo. Com a exportação, responde por cerca de 80% dos ganhos do país e sua exploração representa mais de 60% da arrecadação do Estado, com uma produção de 3 milhões de barris/dia.

Rafael Ramirez Carreño, engenheiro mecânico graduado na Universidade dos Andes em 1989 e com mestrado em Energética pela Universidade Central da Venezuela, é quem está no comando dos que pensam e administram essa máquina de extrair petrodólares.

Máquina com um poder extraordinário. A Venezuela não apenas segue entre os 4 maiores produtores do mundo, como também sua filial nos EUA, a Citgo, possui mais de 15 mil postos de gasolina na Costa Leste, além de refinarias em território norte-americano.

Nos Estados Unidos, Ramirez trabalhou no desenvolvimento do Projeto de Adequação da Refinaria de Cardón e, na França, para o Projeto de Gás Natural Líquido da Nigéria.

Em julho de 2002, Rafael Ramirez foi nomeado ministro das Minas e Energia, organismo transmutado em Ministério de Energia e Petróleo em janeiro de 2005. Dois meses antes, o presidente Hugo Chávez já o havia nomeado presidente da petroleira venezuelana, a PDVSA.

Leia a entrevista:

Terra Magazine - O anunciado gasoduto entre Venezuela e Brasil é factível, será construído mesmo, ou é apenas uma utopia?
Rafael Ramirez - É claro que é factível. O mais importante para que o projeto do Grande Gasoduto do Sul seja uma realidade no próximo decênio é que exista consenso político e que conte com a aprovação dos governos da Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Venezuela; isso já aconteceu em julho passado. Este projeto se constitui, como disse o presidente Hugo Chávez, na coluna vertebral para a integração latino-americana e para que se consiga superar os grandes problemas que nos afetam.

Qual é o roteiro?
Para materializá-lo, em uma primeira etapa o Grande Gasoduto do Sul sairá desde a Península de Paria, na Venezuela, atravessando todo o norte do Brasil até chegar à cidade de Fortaleza. Porém, logo se estenderá por todos os países integrantes do Mercosul. Nós contamos com as maiores reservas de gás da região, um importante recurso energético que pomos à disposição para o desenvolvimento de nossos países. Estamos olhando para o Sul.

Em que ponto, em que pé, estão as negociações?
A Comissão Permanente de Engenharia e Coordenação, integrada pelos 6 países, está avançando em aspectos técnicos como definição de mercado, traçado, e cronograma de construção. Agora estamos trabalhando com a Petrobras sua participação no Projeto Marechal Sucre, numa área da costa noroeste da Venezuela, de onde se prevê extrair o gás que impulsionará o Grande Gasoduto do Sul.

Quais são os principais envolvidos no acordo para o gasoduto?
O Grande Gasoduto do Sul é a ponta de lança para concretizar o projeto de integração mais importante da região. E por isso ele não é excludente. Até o momento, o consenso político permitiu a incorporação dos 5 países do Mercosul e mais a Bolívia como membro associado, através de um memorando de adesão. Estamos falando de 250 milhões de pessoas que terão um recurso energético que permitirá o progresso e seu bem-estar. Nós não podemos ser grandes se tivermos a miséria ao lado.

Qual é o montante de investimentos para que o gasoduto se torne uma realidade?
À diferença de outros projetos energéticos que satisfazem interesses meramente econômicos, o Grande Gasoduto do Sul será uma obra extraordinária que, além de ser rentável, se construirá com a finalidade de assegurar os meios para uma efetiva integração regional. O fato é que estamos utilizando o gás natural como caminho para o desenvolvimento sustentado a longo prazo. Até esse momento nós estimamos o investimento global, para a construção do gasoduto, em US$ 20 bilhões.

Que empresas participarão da distribuição?
O acordo político nos permitiu avançar no estabelecimento de um tratado para manejar o gasoduto. Para isso se constituirá uma empresa multiestatal com representação de todas as nações participantes e suas empresas, como Enarsa (Energia Argentina SA), Petrobras, YPFB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos), A PDVSA, da Venezuela, Petropar e Ancap. Já fizemos a parte mais difícil, e agora o técnico e o comercial continuarão a avançar.

A situação criada na Bolívia, com decisões do presidente Evo Morales que afetaram interesses brasileiros, não levou a um clima de desconfiança?
As negociações entre Brasil e Bolívia são assuntos que os dois países estão resolvendo. A Venezuela aposta na integração sul-americana nos campos econômico, social, e no político.

Com quem joga a Venezuela nesse embate? Fica com a posição e os interesses do Brasil ou da Bolívia?
A Venezuela não joga com nenhum país; como te disse, só apostamos na união de países irmãos apoiados por esquemas de complementariedade, irmandade e reciprocidade.

Como está a refinaria de Pernambuco? Quanto custará e quem são os investidores?
Há poucos dias os presidentes Lula e Hugo Chávez visitaram o campo de Carabobo II, na faixa Petrolífera do Orinoco, na Venezuela, e conheceram os resultados da quantificação e certificação que fizeram a Petrobras e a PDVSA em Carabobo I. A empresa canadense Ryder Scott certificou que há nessa área suficiente hidrocarburo para executar quatro grandes projetos de 200 mil barris diários.

E isso significa...
Esse era o primeiro passo. Contamos com a volumetria necessária para o desenvolvimento do projeto de óleo cru extrapesado, que contempla um complexo de processamento e a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O investimento estimado é de mais de US$ 5 bilhões, em partes iguais entre PDVSA e Petrobras. Ambas as empresas têm a previsão de anunciar conjuntamente uma série de acordos nesse sentido.

A presença de Hugo Chávez no Oriente Médio é geopolítica, ideológica...
A Venezuela tem como um de seus objetivos mais importantes em matéria de Política Internacional a construção de um mundo pluripolar, e suas ações, suas relações políticas e econômicas caminham nesse sentido. A partir do primeiro triunfo eleitoral alcançado pelo presidente Chávez, em dezembro de 1998, a Venezuela empreendeu uma importante ofensiva para recuperar o verdadeiro papel da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), e no esforço conjunto para resgatar o papel dessa instituição no mercado energético mundial com o objetivo de alcançar um preço justo para o barril de petróleo, concertamos políticas com os nossos aliados árabes.

Mas essa política...
...a presença da Venezuela na região não é recente; além de relações históricas, tradicionais e culturais, uma relação que começou, inclusive antes do nascimento da OPEP. Não se esqueçam que por muitos anos nosso país foi pioneiro no que diz respeito à luta por reivindicações nacionalistas, frente aos interesses das grandes transnacionais do petróleo.

A PDVSA está realmente "politizada", como acusam os adversários? E, se está, o que o país ganha com isso?
A política entrou na PDVSA pelas mãos da antiga "meritocracia", setor privilegiado que preferiu fazer o país sofrer perdas de cerca de US$ 14 bilhões (NR: greve petroleira de fins de 2002), em seu empenho por não aceitar a vontade popular materializada no respaldo ao presidente Chávez em 8 eleições.

Sim, mas a PDVSA...
A PDVSA está comprometida com os interesses soberanos da Venezuela e com o bem-estar de seus habitantes. Na empresa se conjuga o trabalho cotidiano de seus trabalhadores, gerentes, integrantes das Forças Armadas e habitantes das comunidades onde a empresa tem presença. Agora os venezuelanos não apenas participam em iniciativas levadas adiante pela PDVSA como a "Missão Ribas" - cujo propósito é educar e diplomar os que no passado não eram incluídos no sistema educativo - como também exigem respostas da empresa. Entre a PDVSA e o país está se construindo uma relação profunda como nunca houve antes.

No inverno passado, não sei se como provocação, a Venezuela deu ajuda energética - para a calefação - a comunidades pobres de um país rico, os Estados Unidos. Qual o objetivo dessa ação?
É certo que os Estados Unidos são um país catalogado como rico, porém, paradoxalmente, é também uma das nações do planeta em que a cada ano aumenta a desigualdade e cresce o número de pobres. O governo bolivariano da Venezuela mantém uma coerência entre discurso e prática em sua luta contra a exclusão. Nesse sentido, a doação de combustível para calefação a setores pobres dos EUA, isso feito através da nossa filial Citgo Petroleum Corporacion (NR: mais de 15 mil postos de gasolina e 9 refinarias em território norte-americano), é uma prova do nosso compromisso.

Mais um capítulo....
...é importante destacar que a Venezuela não tem nenhuma confrontação com o povo norte-americano. A confrontação se dá com esse governo que, em suas pretensões imperialistas de apoderar-se das fontes energéticas do mundo, tem agredido sistematicamente o nosso país, e isso está evidente sobretudo nestes últimos anos. É nosso dever, então, como país, como nação digna, defender nossa soberania e nosso principal recurso em benefício do nosso povo. Teremos todas as batalhas que tivermos que ter, ainda que nosso caminho seja a nossa cooperação e solidariedade, que, a priori, não discrimina a nenhum povo.

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