Terra Magazine

› Terra Magazine › Mundo

Sábado, 2 de dezembro de 2006, 16h45 Atualizada às 19h47

Empresários deixam a Venezuela; comida é estocada

Bob Fernandes
Enviado especial à Venezuela

Altos executivos de multinacionais deixaram o país nas últimas 72 horas. Por temor ao "depois". Nos supermercados, por temor ao "depois", filas, para estoque de mantimentos, até o início da madrugada. O Ministério da Defesa comunica que tudo está sob controle. Os jornais alardeiam, "tudo pronto". Nas ruas de Caracas, outdoors, milhares de galhardetes nos postes, e um estranho silêncio. Amanhã, domingo, Hugo Chávez e Manuel Rosales batalharão junto a 16 milhões de eleitores pelo controle da Venezuela.

Leia também:
» Chávez diz que vencerá e dedica vitória a Fidel
» Eleições na Venezuela confrontam dois projetos sociais
» Multiestatal cuidará de Gasoduto do Sul
» "Se necessário, regularemos atuação da mídia", diz ministro do Interior
» Opine aqui sobre as eleições na Venezuela

Executivos de companhias como a Colgate ou de empresas de tecnologia temem o que se discute em qualquer ponto a Leste de Caracas, onde reside quem tem. As possibilidades são duas, vitória de Chávez ou de Rosales, mas os cenários para o "depois" são três: Se Chávez vence com folga, admite-se que terá sido uma eleição "limpa". Ainda que, a se manter a tradição, a vitória não será reconhecida.

Se Chávez vence no "olho mecânico", como prevê parte da imprensa neste sábado, o impasse estará dado. Se Rosales vence, se terá, crê boa parte da Venezuela, o confronto; sua vitória não seria reconhecida, muito menos assimilada.

A "Operação Êxodo", verificada no aeroporto de Maiquetia nos últimos dias, tem precedentes.

Agosto, 13, 2004, Palácio presidencial Miraflores, uma da manhã. Tênis branco, camisa vermelha, a cor do "bolivarianismo", e calça jeans, Hugo Chávez abre uma porta lateral em seu gabinete. Saem os primeiros números das urnas. No referendo sobre sua permanência ou não no cargo, a vitória é dele. O presidente, sob aplausos, entra na "Sala de Crise".

Giordanni, ministro do Planejamento, aproxima-se do presidente e informa:

- Vinte e oito jatinhos com "esquálidos" - apelido dado por Chávez e os seus à oposição - já levantaram vôo de Maiquetia agora à noite, em direção a Miami.

"Sala de Crise". Lá, ao redor de uma mesa ovalada, estão alguns dos principais homens de Chávez, além de Giordanni. José Vicente Rangel, o vice-presidente da República, Jesse Chacón, o ministro das Comunicações, Rafael Ramirez, o presidente da poderosa petroleira PDVSA... Mapas das 22 províncias estão colados nas paredes, alfinetes assinalam posições. Oito televisores estão ligados.

Ali está, diante de uma tela de computador, um jovem nerd. Ele é o chefe dos hackers. Chávez, acusado pela oposição de tramar uma "trampa" - roubar a eleição - por sua vez teme ser roubado. Cantv, a empresa multinacional que totaliza os votos, foge ao seu controle. O presidente não confia na Cantv e, para tanto, o hacker-chefe.

O engenheiro eletrônico escalado para a missão chefia uma operação gigantesca no país de 26 milhões de habitantes: em cada urna há um informante sobre números da votação, e o governo faz uma totalização à parte.

A Cantv, agora, é novamente assunto nos circulos bem informados. Carlos Slim, o bilionário mexicano dono da Telmex, segunda fortuna da América Latina, comprou 28,5% da empresa.

Slim, em uma só operação, além da Cantv, comprou ativos em Porto Rico e República Dominicana, todas as três praças até então sob comando da norte-americana Verizon.

Na Venezuela, Slim comprou neste ano os 28,5% da Cantv, a maior empresa de telecomunicações do país, que tem mais de 90% das linhas fixas e 80% da banda larga, além de mais de 40% dos celulares.

O dono da Telmex adquiriu um pedaço da empresa por US$ 676 milhões, mas o movimento ainda está sujeito à regulação por parte do governo.

Na vizinha Colômbia, já aliado à Cantv, Slim tentou abocanhar a estatal Telecom, mas fracassou.

Parênteses.

Slim tenta ultimar agora uma megaoperação junto à Brasil Telecom. Para tanto, tem contado, certamente entre outros, com um operador: Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity.

Nessa operação, Dantas tem o auxílio de duas estrelas do cenário verde-amarelo. Uma, o ex-brocker Naji Nahas. Outra, o ex-ministro Chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu.

Pano rápido. Voltemos à Venezuela e sua eleição.

Nas manchetes, uma radiografia de um país dividido. Para quem acompanhou a recém finda eleição no Brasil, uma informação: a Venezuela é um país muito mais, radicalmente, dividido.

Às manchetes:

El Nacional, um dos principais jornais diários:

"Tudo Pronto para as eleições mais vigiadas do país".

Noticiero Digital, o mais acionado site de opinião da Venezuela:

"Tudo pronto. Onde está Fidel?"

Union Radio, das maiores redes de rádio do país, citando Diaz, chefe do Conselho Nacional Eleitoral (CNE):

"Votar cedo, sem medo. E o voto é secreto".

Últimas Noticias, o mais popular diário da Venezuela:

"1.410 Observadores" (NR: para impedir fraudes nas eleições).

El Universal, o mais tradicional diário:

"97% das urnas instaladas no país".

No site da campanha de Rosales:

"Rosales exorta governo e Conselho Nacional Eleitoral a respeitar as normas eleitorais."

No radicalíssimo site Aporrea, uma frase de Chávez, que os inspira e move:

"Não ganhamos nada. Vamos todos votar, que ninguém fique em casa. Nossa luta é contra o diabo". (NR: Bush, imperialistas etc.)

Terra Magazine

 

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela