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Terça, 5 de dezembro de 2006, 09h21

Solidão a wireless

Paulo Scott

Na última edição da revista britânica The Economist tem algumas previsões de uso para telefones celulares no futuro. Sei que o tema está mais do que batido, mas a abordagem me trouxe um elemento novo.

Para além das funções de agenda, filmadora, banco de músicas e tantas outras, há prognósticos que indicam um papel de companhia ao usuário, capaz de ler e arquivar suas preferências e até aconselhá-lo. Fala-se da forma de óculos com displays na parte interna das lentes, de modo que o computador (vejam que muitos já abandonaram a idéia de telefone) se torne uma espécie de assistente, de guia, sugerindo direções a tomar ou, por exemplo, num evento qualquer, auxiliando na lembrança de nomes, dados ou assuntos (claro, supõe-se a existência de uma câmera que reconheça imagens, rostos et cetera).

Stuart Wolf, da Universidade de Virgínia, garante que em menos de 20 anos será possível mapear os impulsos elétricos dos pensamentos e as pessoas poderão interagir diretamente com suas máquinas, por meio de chips implantados no cérebro. Essa decodificação da atividade cerebral dispensaria teclados, displays, o aparelho seria uma caixa, um botão, preso à roupa ou sob a pele. A interação mental entre usuário e máquina possibilitaria a comunicação de pensamento para pensamentos, já que duas máquinas comunicando-se entre si garantiriam, na prática, o mesmo resultado da telepatia. A telefonia daria lugar à telepatia, é o que diz a matéria.

Essa proximidade desencadearia uma intimidade tal que os registros e arquivos da máquina lhe dariam status inédito, potencializado pela eventual conquista da inteligência artificial.

Imaginem a máquina recuperando preferências musicais e buscando músicas novas para a trilha sonora diária do usuário, ou conversando com outras máquinas para organizar a agenda de encontro dos seus patrões.

Daí me veio a Imagem de um aparelho conversando com seu dono, o que me levou ao grilo falante do Pinóquio (que na versão original de 1881 é esmagado pelo boneco que não tolerava intromissões no seu modo de agir, mas que depois retorna sob a forma de espírito, aconselhando-o nos momentos difíceis). Consciência? Não sei se tanto, mas, por exemplo (só exemplo), com iniciativa suficiente para alertar o usuário no caso de ele estar bebendo demais em uma festa.

Será que confiaremos tanto assim em uma máquina?

E que nome daremos a ela?

Paulo Scott, escritor e professor universitário, criou os projetos PóQUET: ruído & literatura e Na TáBUA, combinando, a partir da literatura, outras mídias.


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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