Tabajara Ruas
Onde se narra o resgate de Índio Torres e a comemoração que se segue
1
Netto a cavalo, o Sargento e o Cabo em pé, estão frente a frente. Índio Torres os observa do chão. Catarino, do alto da torre.
- Alto aí - diz o Sargento.
- Vim dar uma prosa a respeito daquele índio - diz Netto.
- Que prosa é essa?
- Quem sabe acertamos um preço.
- Esse índio não tem preço.
- Tudo tem preço.
- Por que tanto quer esse índio?
- Para cuidar dos meus cavalos. Ele não cometeu crime nenhum pelo que sei.
- Ele esfaqueou um soldado.
Simão e Espada saltam a paliçada, um em cada lado do Posto. Surpresa do Sargento e do Cabo. Netto aponta as duas pistolas para a cabeça do Sargento.
- Não resistam e ninguém morre.
Tomás e Lança aparecem do outro lado. O Sargento e o Cabo erguem as mãos.
- Aí em cima, isso mesmo, aí... Só quero levar o prisioneiro, fica calmo que ninguém vai se machucar... eu mato o Sargento antes de tu me derrubar, soldado. Fica calmo.
Catarino, na torre, ergue o fuzil, assustado. Lança joga sua lança contra ele, atingindo-o no peito. O fuzil dispara.
Catarino cai pesadamente, espetado na lança.
Bonifácia aparece entrando pelo portão. Corre pelo pátio em direção a Índio Torres. Carrega um cantil e um saco com petrechos. Começa a cortar as cordas que prendem o Índio.
2
Cara Cortada dá outra chibatada.
- Dez! Cansei. É tua vez.
Passa o chicote para Capincho, que o apanha um tanto trêmulo, pasmo.
3
Amâncio, que acordou com o disparo do fuzil, espera com a pistola apontada para a porta, apoiado sobre o corpo de Henrique.
Tomás e Lança entram no Alojamento. Os tiros explodem de lado a lado. Amâncio é atingido na testa e cai. Tomás é atingido de raspão no braço.
No lado de fora, Netto, sempre montado, comanda.
- Peguem toda munição.
Aparece Tomás, carregando vários mosquetes e clavinas. Caldeira arrebata as chaves do Sargento e se dirige até Recabarren.
Bonifácia está dando de beber a Índio Torres com o cantil. Índio ergue o tórax, dolorido. Netto se aproxima e fica observando Bonifácia ajudar o Índio. Netto e o Índio se olham. Netto dá um olhar avaliador e se afasta.
- Demoraram.
Não te faz de engraçado, índio sem-vergonha. Eu sei porque tu tá preso.
4
Capincho dá uma chicotada no Negrinho.
- Dezoito!
André conta baixinho, mas de modo que os outros possam ouvir. A Baronesa aparece numa janela para olhar.
5
Recabarren se aproxima de Netto.
- Eu sei quem vosmecê é.
Tomás e Lança dão-lhe empurrões e socos. Recabarren cai, mas se levanta e se agarra ao cavalo de Netto.
- Coronel, me leve junto.
- Deixa esse traste. Ele não vale nada.
- Coronel, por favor!
- Ele não vende comida pra os negros.
- Porque não me deixam. Mas eu respeito todo mundo de igual pra igual. Coronel, me leve junto.
6
Índio Torres, ainda sentado, mas já livre do couro de vaca. Ele mastiga pedaços de charque. Bonifácia fricciona seus braços e depois suas pernas com um linimento que tirou do saco.
- Bonifácia, tu é uma heroína, igual à Joana D´Arc dos franceses. Onde está o teu marido?
- Lá fora, vigiando. Tu tá no couro de vaca porque foi se meter com a mulher do cabo.
- O assunto com essa senhora era política.
Bonifácia joga contra ele as botas e a trouxa de roupa.
- Eu sei bem que tipo de política!
Índio Torres espicha os braços, olha ao redor e parece ser invadido pouco a pouco por grande felicidade.
7
A polêmica com Recabarren e os lanceiros continua.
- Esse traste não é igual a nós.
- Eu servi na Cisplatina. Eu sei lutar.
- Ele tem escravos. A Bonifácia é escrava dele.
- Ele nunca me tratou mal.
- Vosmecê está livre, vá para onde quiser.
- Se matei aquele homem foi por que ele me desacatou. E numa luta mano a mano. Eu trabalhei no campo, coronel. Sei cozinhar pra muita gente.
- Não queremos ele com a gente.
- Coronel Netto, por favor! Eu não tenho mais nada! Eu perdi tudo. Não tenho pra onde ir. Me leve com vosmecê.
Netto pensa e decide-se.
- Um cavalo para esse homem.
Netto conduz sua montaria para onde está Índio Torres. Espada arranca a bandeira do Império do poste. Recabarren começa a vestir as roupas de Catarino, atravessado pela lança. Netto se aproxima de Índio Torres e fica observando-o com ar divertido, enquanto ele se veste. Depois se volta para o Sargento.
- Diga ao seu comandante que quem fez isto foi um grupo de homens livres.
Índio Torres continua mastigando um pedaço de charque. Encara demoradamente o Cabo, que vai se encolhendo pouco a pouco.
- Coronel, vou le pedir um favor: solte esse homem e bote uma faca na mão dele.
- Ninguém vai tocar nos prisioneiros.
- É um favor, coronel.
- Não.
- Um favorzinho bem pequeno pra um antigo camarada.
- Não.
- Uma faca pra mim, outra pra ele.
- Não somos selvagens, sargento.
- Eu sou um selvagem. E é bom que saiba que há muito tempo não sou mais sargento.
- Eu sei, Jesus.
- E principalmente não me chame de Jesus.
- Tu continua dando trabalho, renegado idiota.
- Não te vi preocupado quando me ameaçaram com o couro de vaca.
- E por que ia me preocupar? Tu já agüentou o couro de vaca antes.
Caldeira entra a cavalo, puxando o malhado e mais dois cavalos. E se dirige a Netto, que apanha a rédea do malhado.
- Olha o que eu trouxe pra ti.
Índio Torres se aproxima, maravilhado, e acaricia o animal.
- Igualito ao Baiquara.
- É o filho dele. Achei que tu ia gostar.
- Gostei.
Pula no cavalo que sai corcoveando e dando voltas.
- Upa, upa, upa, cavalito!
Consegue dominá-lo e fica lado a lado com Netto.
- Por que se deu esse trabalho?
- Agora não te devo mais nada.
E se afasta.
8
O crepúsculo amassa com sua cor escarlate a casa do Barão quando o Capincho dá a última chicotada no Negrinho.
- Trinta - murmura André.
- Agradece ao teu senhor, Negrinho.
Pausa.
- Agradece, negro!
- Obrigado, senhor.
- Vais pastorear os trinta tordilhos que eu trouxe de Bagé. - Entendeu?
- Sim, sinhô.
- Quero ver todos reunidos até amanhã bem cedo. - Entendeu?
- Sim, sinhô.
- Na sanga do Formigueiro Grande. Se não estiverem reunidos até o clarear do dia vais levar cem chibatadas, uma por cada patacão que tu me fez perder. - Entendeu?
- Sim, sinhô.
Capincho desamarra o Negrinho. O Barão se afasta. André observando. Capincho enfia um pala no Negrinho. Cara Cortada dá um empurrão nele, que cai no chão.
- Anda, Diabo!
Negrinho se afasta cambaleando.
9
Cavalgada do grupo de lanceiros saindo do Posto, recortados contra o pôr do sol. Eles são Netto, Índio Torres, Caldeira, Recabarren, Bonifácia, Tomás, Simão, Lança e Espada. Tocam por diante os oito cavalos do posto. Lança canta.
10
O Negrinho se aproxima de um riacho, conduzindo o cavalo vagaroso. Desmonta com dificuldade, bebe e lava o rosto.
O sol está descendo no horizonte. Negrinho em pé sobre o cavalo, mão em pala, olhando ao redor.
11
Lua cheia no céu. Maria atravessa os campos a galope.
12
Grande fogo central, os lanceiros ao redor. Além dos lanceiros nossos conhecidos, há ainda dois velhos, quatro mulheres e seis crianças, entre três e dez anos, ao redor de outra fogueira.
Lança e Espada improvisam um batuque. Um puchero está sendo cozido sob a supervisão de Bonifácia. Netto está sentado com Índio Torres a um lado, Espada no outro. Recabarren está sentado só.
Bonifácia se aproxima de Netto e lhe entrega uma cumbuca com puchero e uma colher de pau. Os lanceiros estão cerimoniosos e atentos em relação a Netto.
- Então vosmecê é o famoso general Netto.
- Meu posto é de coronel.
- Coronel. E o seu exército... onde está, coronel?
- O exército republicano está acampado a três dias daqui.
Ficam sonhadores. O fogo estala. O Índio fuma, pensativo.
- Vosmecê tem família, coronel?
- Tenho, mas está longe.
- Mulher, filhos...
- Não sou casado.
- Coronel, eu preciso fazer uma pergunta.
- Faça.
- Nós não temos terra, não temos casa, não temos sequer uma cabeça de gado. Por que nos ajuda?
- Pra pegar a confiança de vocês. E assim poder escravizar vocês ainda melhor.
- Coronel, não precisa ter vergonha de ser bom.
13
Maria a cavalo na noite de lua cheia. Ela tem pressa. Saiu da casa do Barão escondida e sente que está fazendo algo terrível, que pode ter um castigo ainda mais terrível.
14
O Barão está sentado na cadeira de balanço, completamente imóvel. Ele vê através dos galhos do cinamomo a grande lua cheia no céu. Está inquieto pela surra que mandou dar no Negrinho, sabe que a Baronesa vai incomodá-lo por isso, mas estranhamente se sente aliviado, como se tivesse colocado as coisas outra vez no seu lugar certo. Agora, durante algum tempo, ninguém mais vai questionar sua autoridade.
André aparece na porta, fica olhando para o Barão, depois entra na casa.
15
Capincho e Verônica na cama. Ele puxa conversa, ela indiferente, olha para o teto, pensando com um surdo ódio como essa voz a incomoda.
- Fiquei mais atrapalhado que cego contando dinheiro quando ele me chamou...na minha vez, eu batia bem fraquinho. Eu não queria machucar o Negrinho. Tu sabe que eu gosto dele. Agora o Barão está satisfeito. E o Negrinho vai ficar bom. É só botar sal nas feridas...
- Covarde.
E vira de costas.
16
- Inda que mal pergunte, seu nome é mesmo Netto?
Bonifácia não era de dar voltas quando queria saber alguma coisa.
- Antônio. De Souza.
- Mas todos chamam o coronel de Netto - diz o Índio.
- Netto! E por quê?
- Quando o coronel era guri, montava o cavalo do avô nas carreiras em Povo Novo. O avô ficava gritando dále neto, dále neto, dále neto! Ficou conhecido por Netto.
- E como vosmecê sabe disso?
- O coronel e eu já cavalgamos junto antes.
- Desde quando?
- Desde a infância.
- Nos criamos juntos nos campos de Povo Novo.
- Então são como irmãos!
17
Maria vai cavalgando por uma planície completamente despojada de árvores enquanto o Negrinho, a menos de um quilômetro dela, num bosque de figueiras destroçado pelos ventos, vai tocando agora três cavalos que recuperou.
O Negrinho tem medo daquele bosque, o Bosque das Árvores Caídas. A paisagem é fantasmagórica, produto dos vendavais que sopram no inverno e arrancam os gigantes de raízes curtas, cravadas na terra úmida.
18
Aumenta o batuque no acampamento.
- Aqui neste quilombo, coronel, somos um grupo de três famílias e mais quatro camaradas que se uniram a nós. Outros vão vir. Não queremos mais ser escravos. Queremos plantar. Criar gado. Ter casa para morar. Eu não nasci escravo. E também eu me lembro da minha infância, no outro lado do mundo. E também eu me lembro da minha família e do meu país. Me lembro de uma praia branca, comprida, onde brincava com meus irmãos...
- Meus irmãos falavam de um monstro branco que gostava de devorar carne negra. Meus pais diziam que era mentira, que o monstro não existia... mas um dia o monstro chegou num navio cheio de velas. Incendiou a aldeia, matou toda minha família, me acorrentou e me jogou no porão do navio...
- Cresci nas minas de ouro das Gerais... O ouro secou e me trouxeram para cá, para cuidar de gado... Aprendi a andar a cavalo... a atirar de boleadeira... e descobri que estes campos neutrais não tem fim... Isto tudo é Terra de Ninguém... aqui ninguém me pega vivo.
- Eu também vi minha mãe ser morta quando era uma criança e também vi minha casa arder até virar cinza. Botaram a culpa nos castelhanos, o que talvez fosse verdade, e eu acabei entrando na guerra contra eles e cheguei a virar sargento do exército do imperador.
- E o teu pai?
- Não conheci meu pai. Dizem que era um padre espanhol. Eu não sou branco... nem índio...
- Então tu pode escolher.
- Posso escolher. Quero agradecer ao meu camarada Netto e aos meus amigos lanceiros me tirarem daquela arapuca, mas eu parei de guerrear. Vou voltar para minha aldeia, vou procurar o meu povo.
Surpresa nos rostos de Netto, Caldeira, Bonifácia e demais.
- Tu não tem mais aldeia, Índio, há muito tempo.
- Essa guerra de vosmecê, coronel, não me interessa.
Maria chega a galope, assustando a todos.
Próximo capítulo: onde conta a engenhosa e cruel traição de André contra o Negrinho e as dúvidas de Índio Torres
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» Sobre as Cartas do domador
Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 7
» Capítulo 8
» Capítulo 9
» Capítulo 10
» Capítulo 12