Roberto Causo
Um dos destaques da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, o carioca Gerson Lodi-Ribeiro lança agora o seu terceiro livro, a coletânea de histórias Outros Brasis, pela Unicórnio Azul.
Nesta entrevista, ele fala sobre o lançamento do novo livro e comenta como tem sido a experiência de trabalhar como criador do universo ficcional Taikodom, jogo online da Hoplon Infotainment: "Creio que sou o primeiro brasileiro a ser (bem) remunerado em bases mensais trabalhando como escritor de FC".
Gerson Lodi-Ribeiro também recorda do projeto Pecas/Ano-Luz, pelo qual ajudou a fomentar o gênero história alternativa no Brasil, fala das publicações antigas e das que estão por vir.
Seus dois primeiros livros, Outras Histórias... e O Vampiro de Nova Holanda, apareceram em Portugal, na coleção Caminho Ficção Científica. Gerson esteve presente em O Atlântico Tem Duas Margens: Antologia da Novíssima Ficção Científica Portuguesa e Brasileira, a primeira antologia desse tipo, e em outras publicações de Portugal.
No Brasil, foi o único brasileiro a ter duas histórias publicadas na Isaac Asimov Magazine, e participou de várias antologias temáticas, destacando-se Dinossauria Tropicália, Phantastica Brasiliana e Como Era Gostosa a minha Alienígena!, estas duas últimas organizadas por ele para o projeto Pecas/Ano-Luz, uma editora em cooperativa que reuniu vários nomes importantes da FC no Brasil, entre 1997 e 2001.
Foi também bem publicado na França, na revista Antarès - Science fiction et fantastique sans frontieres, editada por Jean-Pierre Moumon.
Como foi o tour de lançamento do seu livro? Quantas capitais você visitou?
São Paulo, duas vezes (26/10 e 30/11); Rio (23/11) e Vitória (28/11). Os lançamentos paulistanos (Livraria da Vila e Cultura do Conjunto Nacional) e carioca (Travessa da Rio Branco) foram em livrarias grandes e badaladas. O lançamento capixaba foi na Huapaya, uma livraria com perfil mais acadêmico.
A área de marketing da Unicórnio Azul parece ser muito competente. Como você avalia?
Da melhor maneira possível. Do Fábio Barreto (editor responsável pela Unicórnio) até a Yáskade Carnizello (Comunicação e Marketing), a equipe da Mercuryo revelou-se séria, profissional e competente.
A sua carreira, desde os contos publicados em Antarès, teve sempre duas frentes, a FC hard e a história alternativa, mas há algum tempo que a história alternativa vem se sobressaindo. Alguma chance de retornar à FC hard?
Sim. Na verdade, tenho produzido mais FC hard do que H.A. ultimamente. Nos últimos dois anos produzi cerca de duzentas mil palavras de FC - entre contos, novelas e um romance - dentro do Taikodom, jogo online cujo universo ficcional ajudei a produzir para a Hoplon Infotainment. Além do romance, já temos uma coletânea montada. Quando o jogo for lançado em meados de 2007, imagino que esses livros e outros que devo escrever até lá sejam publicados. Por questão de contrato, a ocasião mais propícia para esses lançamentos é decisão da empresa.
O que você pode adiantar, sobre Taikodom, e como é trabalhar na criação de um game?
Trabalhar como criador do universo ficcional Taikodom tem sido uma experiência gratificante, de vários pontos de vista, inclusive o criativo e o financeiro. Creio que sou o primeiro brasileiro a ser (bem) remunerado em bases mensais trabalhando como escritor de FC. Gratificante e absorvente, porque não há tempo para escrever muita coisa que não esteja inserida no U.F. Taikodom.
As restrições impostas pela Hoplon Infotainment se prenderam basicamente a limitações de processamento computacional e de jogabilidade. O enredo não podia se passar na Terra, pois seria impossível emular os múltiplos ambientes terrestres com o grau de verossilhança exigido; jogadores pagantes tinham que ser imortais, pois não podiam ter suas vivências virtuais zeradas de uma hora para outra; e por aí vai. A maior parte das dificuldades iniciais consistiu em contornar essas restrições de caráter técnico com soluções em termos de argumento ficcional.
O Taikodom pretende se tornar um projeto multimídia: o carro-chefe será o jogo online, mas também teremos graphic novels, livros de FC (romances, coletâneas e antologias), séries de TV, miniaturas, camisetas, etc. Dentro dessa proposta multimídia, atuo tanto como consultor de universo ficcional, quanto como coordenador da área de ficção literária.
Você tem sido um dos poucos brasileiros a participar com constância da comunidade portuguesa de FC. Como tem sido a aceitação do seu trabalho entre os portugueses?
Os portugueses gostam mais dos meus trabalhos de FC do que dos de H.A. Dentro dos meus trabalhos de H.A., eles gostam mais dos que possuem mais elementos de FC, como é o caso de Assessor Para Assuntos Fúnebres e A Ética da Traição.
Mas há também um "núcleo duro", por assim dizer, de fãs de H.A. que apreciam H.A. brasileiras. A palestra "Histórias Alternativas Lusófonas" que proferi há duas semanas em Lisboa por ocasião do Fórum Fantástico 2006 teve bom público e a platéia pareceu entusiasmada. O Diário de Notícias, um dos jornais de maior circulação de Lisboa, publicou uma matéria sobre essa palestra.
As histórias de Outros Brasis haviam aparecido em outras publicações, mas foram retrabalhadas para este volume. O que mudou?
O Vampiro de Nova Holanda passou de 15.800 palavras (na coletânea homônima, Editorial Caminho, 1998) para 19.300 palavras: Num Brasil colonial tripartido entre portugueses, palmarinos e holandeses, um agente de Palmares dotado de poderes sobre-humanos perde o controle no Recife holandês de 1670, transformando-se no primeiro "serial killer" da história, atraindo a atenção das autoridades holandesas, do serviço secreto palmarino e de aventureiros das mais diversas estirpes.
Assessor Para Assuntos Fúnebres passou de 9.600 palavras (in Outras Histórias..., Editorial Caminho, 1997) para 10.800 e foi dividida em capítulos: Um adido muito especial da embaixada palmarina na Corte de Saint James assola a Londres Vitoriana em busca de outros indivíduos de sua espécie, ajuda Bram Stoker a escrever seu romance, tropeça no famoso Jack Estripador e acaba encontrando muito mais do que esperava.
Crimes Patrióticos passou de 7.700 palavras (in O Vampiro de Nova Holanda) para 8.500 palavras: Num Império do Brasil ocupado após a derrota na Guerra do Paraguai, veterano da Marinha Imperial ingressa na Resistência e é convocado para a missão de eliminar o imperador colaboracionista. Mas outro veterano de outra guerra, um ex-general confederado que se transformou em mercenário de Solano López tem outros planos para o patriota brasileiro...
E, finalmente, "A Ética da Traição" passou de 8.000 ou 9.000 palavras (versão publicada aqui na Isaac Asimov Magazine e também em Portugal, na antologia O Atlântico Tem Duas Margens, Editorial Caminho, 1993) para 14.800 palavras: Trata de um físico brasileiro detentor do Prêmio Nobel num Brasil que perdeu a Guerra do Paraguai. Ele se recusa a alterar o passado para transformar seu país progressista no nosso Brasil, sendo considerado traidor da pátria e obrigado a fugir, justamente para a Gran República del Paraguay, superpotência do fim do século XX.
A Ética da Traição já é considerada um clássico nacional, pelos observadores da FC. Por que revisá-la?
Quando submeti A Ética da Traição num fórum de discussão de história alternativa, o Point of Divergence, os outros participantes apresentaram várias sugestões pertinentes e também apontaram algumas falhas na plausibilidade histórica do argumento que me levaram a reescrever a noveleta por volta de 1998/1999. Ao reescrevê-la, aproveitei para burilar mais um pouquinho o casamento do argumento de história alternativa com o argumento de ficção científica que já existia embutido no texto original.
Se a revisão melhorou ou piorou o texto original, cabe ao leitor julgar. Se bem que, tenho impressão, a maioria dos leitores da Outros Brasis estará lendo A Ética da Traição pela primeira vez. Daí, só os poucos "connaisseurs" que já leram uma ou outra das versões anteriores poderá opinar se o resultado foi bom ou não.
Como editor, parte do projeto Pecas/Ano-Luz (uma editora com vários sócios fãs ou autores de FC), você tentou fomentar a história alternativa no Brasil. Avalia como, essa intervenção editorial?
Avalio de forma positiva. Em 1998, antes do advento da Ano-Luz, eu era o único escritor de história alternativa no Brasil. Cinco anos mais tarde, por influência direta e indireta da editora, havia meia dúzia de autores escrevendo H.A. de forma mais ou menos consistente. Daí, creio que o estímulo criativo valeu à pena.
O que podemos esperar para 2007, dentro do seu relacionamento com a Unicórnio Azul?
Tenho três romances de ficção científica e um de história alternativa em submissão pendente com a Unicórnio Azul. De repente, o Fábio Barreto decide publicar um deles em 2007. Afinal, dois deles já foram alterados (um ampliado e outro reduzido) a pedido do editor. Ou, se calhar, o Fábio vem com uma idéia diferente e pede para eu escrever ou reescrever outra coisa que ele deseja publicar. Como profissional, estou aqui para isso. Até porque, não cheguei a submeter a Outros Brasis à Mercuryo. Foi o Fábio que decidiu publicá-la, por questão de estratégia editorial da Unicórnio Azul.
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