
Roberto Causo
Um fã de ficção científica com muita experiência como tradutor técnico, Carlos Angelo traduziu o romance clássico de Robert A. Heinlein, Tropas Estelares (Pecas/GRD, 1998), também um filme de Paul Verhoeven, e contos na revista Quark e na antologia Histórias de Ficção Científica (Ática, 2005).
Para a Devir ele traduziu O Jogo do Exterminador (que também deve virar filme em 2008, dirigido por Wolfgang Petersen) e deverá traduzir os romances Heavy Weather, de Bruce Sterling, e Xenocide e Children of the Mind, de Orson Scott Card, programados para 2007.
Escrito por Orson Scott Card, o multi-premiado romance O Jogo do Exterminador inaugura o novo selo da Devir, destinado à ficção científica: Pulsar. O livro aparece como a "edição definitiva do autor", com uma introdução especial, e capa do artista brasileiro Vagner Vargas. É o primeiro de uma série de quatro volumes que será completada pela Devir em 2007 ou 2008.
Como você compararia Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein, com O Jogo do Exterminador?
Ambos os romances são em primeiro lugar estórias de aventura bem contadas, feitas para entreter o leitor. Mas ambos são também estudos filosóficos de um dos temas mais importantes para a humanidade: a violência com fins de coação. Nos dois romances essa análise é feita em dois níveis: Em Tropas Estelares, Heinlein analisa a violência que as sociedades organizadas praticam contra os seus membros, de modo a forçá-los a seguir suas regras, e a violência entre sociedades organizadas, que chamamos de guerra. Já em O Jogo do Exterminador, Card começa sua análise do comportamento violento do homem em seu nível mais básico, o da violência entre crianças, e chega até seu nível mais complexo, a guerra total entre duas espécies sencientes. Ambos os romances chegam à mesma conclusão, embora por motivos diferentes, sobre como evitar ou, pelo menos, minimizar a violência: a comunicação, a necessidade de se compreender o outro e de ser compreendido por ele. É claro que tudo isso é conhecido da filosofia há literalmente milênios. O grande trunfo dessas e de outras grandes obras da ficção científica é justamente a capacidade de disseminar essas idéias de uma forma acessível, agradável, divertida e convincente.
Como você acha que a sua tradução para a Devir difere da tradução anterior, da Aleph?
Li a tradução da Aleph quando do seu lançamento, há uns 15 anos, e lembro-me de que na época me diverti e gostei bastante do livro, como aconteceu com tantos outros leitores. Quando a Devir me contratou para fazer uma nova tradução, fiz questão de não reler a antiga para que não fosse influenciado por ela, mesmo que de maneira inconsciente. Só depois de ter feito a minha tradução é que dei uma olhada na antiga para comparar. Acho que a principal diferença é que a nova tradução soa mais fluente, natural, mais fácil e agradável de se ler. Acredito que, em função disso, o leitor possa se concentrar mais em vivenciar as sensações e emoções que o autor queria transmitir, resultando em uma experiência de leitura muito mais intensa, quase como se estivesse dentro do livro. Ou, pelo menos, esse foi o meu intento. Se consegui realizá-lo, só o leitor poderá dizer.
Houve algum aspecto particularmente difícil ou problemático, na tarefa de traduzir O Jogo do Exterminador?
Toda tradução tem suas próprias dificuldades. No caso de O Jogo do Exterminador, Card escreve de uma maneira bastante simples, direta e fluida, buscando criar uma identificação total entre o leitor e o protagonista. Por paradoxal que possa parecer, escrever fácil é tão difícil quanto escrever difícil. Para complicar ainda mais, a grande maioria dos personagens são crianças superdotadas que, embora não pensem e falem como crianças comuns, também não o fazem como adultos.
Algum elemento científico ou tecnológico deu trabalho? Você acha que ter familiaridade com a ficção científica como gênero é importante para esse tipo de tradução, ou ela pode ser encarada como uma tradução literária qualquer?
Nesse aspecto a tradução para mim foi muito fácil, e muito provavelmente pelo motivo que você apontou: a minha familiaridade com o gênero. Por exemplo, Card usa no livro uma palavra inventada nas obras de ficção de Ursula K. Le Guin, "ansible". O meu conhecimento da obra dessa autora possibilitou que eu traduzisse essa palavra da mesma forma que foi traduzida em vários dos livros dela publicados em português. Também foi muito útil que eu já conhecesse bem, de minhas leituras na Wikipédia, toda a física e a metafísica que Card elabora ao longo da série de livros do Enderverso. Um tradutor que não fosse afeito à FC, se fosse consciencioso, poderia chegar aos mesmos resultados, mas certamente teria muito mais trabalho.
E o fato de você ter O Jogo do Exterminador como um dos seus livros favoritos de ficção científica, foi um fator positivo, ou um complicador (você ficou intimidado, de algum modo, diante da "responsabilidade", por assim dizer)?
Com certeza foi um fator positivo. Posso dizer, com sinceridade, que essa foi uma tradução feita com amor. Realmente me envolvi com a estória, me identifiquei com Ender, o protagonista, e senti todas as suas emoções, as quais tentei transmitir ao leitor através da escolha minuciosa de cada palavra. Também o fato de eu ser um grande fã de ficção científica em geral, de eu efetivamente acreditar que o mundo fica melhor com a FC, me levou a uma dedicação acima do normal e do esperado à qualidade da tradução, pois via esse livro como a grande chance para uma retomada da publicação de FC no Brasil, que esteve praticamente parada nos últimos 15 anos. Espero que os leitores gostem dele tanto quanto eu gostei de traduzi-lo, que ele venda bem, e que isso sirva de estímulo para que a Devir e outras editoras publiquem cada vez mais ficção científica.
Como você avalia o nível das traduções brasileiras de obras de ficção científica?
A qualidade de uma tradução não é coisa fácil de se avaliar. Supondo-se que fôssemos dividir a qualidade em ótima, boa, regular, ruim e desastrosa, o leitor só perceberia a qualidade nesta última categoria. Saber se uma tradução é boa ou até ótima só é possível cotejando-a com o original, coisa que praticamente ninguém faz. Daí a avaliação da qualidade da tradução ficar, na maior parte das vezes, na mão da única pessoa que faz esse cotejo: o próprio tradutor, que não tem como perceber erros que não sabe serem erros.
Além disso, o grande boom da publicação de ficção científica no Brasil ocorreu nas décadas de 70 e 80, quando os tradutores ainda trabalhavam com máquinas de escrever, não havia cursos de tradução e os dicionários eram deficientes. Hoje, um tradutor tem à sua disposição dicionários muito melhores, cursos e oficinas, recursos de informática que facilitam a revisão do texto, ferramentas de auxílio à tradução, e a Internet, que possibilita pesquisas temáticas e de corpus e a comunicação fácil com o autor e com outros tradutores do mundo inteiro (como foi o caso desse livro, em que tive a ajuda constante de uma tradutora americana, Lizbeth Ager). Ou seja, não dá para comparar os recursos tradutórios daquela época e de agora, após esse hiato de 15 anos. Espero que este seja apenas o começo de uma nova era para a publicação de FC traduzida no Brasil, em que os bons títulos publicados tenham sempre uma tradução à altura.
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