
Arnaldo Antunes
milhões de antenas parabólicas pequenas grandes brancas transparentes que os telhados lajes prédios parem pretas silhuetas cortam nuvens verticais horizontais distantes próximas paradas mas em movimento lento de expansão na contramão do cerco de uma só visão balaios pára-raios lança-chamas pára-quedas guarda-chuvas abertos escudos antimísseis luas discos voadores desbravando o céu em busca de outros ângulos vértices pontas ou pontos de vista e audição levados livres pelos fios correndo como em veias fendas na prisão da comunicação que agora se revelam nessas fotos como se já não houvessem sido reveladas todo o tempo assim voltadas para cima belas e terríveis células aéreas que se reproduzem pra reproduzir informação se alastram e se proliferam como seres vivos sem nenhum controle de natalidade crescem como fungos tótens gloriosos glóbulos cortados pálpebras abertas para as invisíveis ondas dos satélites cruzando o céu pra todos e ninguém pra cada um a sua mesmo que mais fácil fosse dividir e assim miltiplicar o que for captado cena som palavra música notícia moda diversão cultura propaganda mas uma por uma cada uma tem seu dono e cada dono ilha sua família se orgulha da sua como se não fosse pra compartilhar um pouco mais do mundo que ela existisse como se existisse um meio de reter o fluxo de som e imagem como posse pão televisão água encanada rádio rede de internet sede de saber e ver ouvir e ir e vir e vir a ser um cidadão do mundo assim conectado na aldeia glogal o alto de Luanda nunca mais será da mesma forma visto depois desse livro que desvenda o que já está na cara e andava desapercebido talvez não se olhe tanto assim pra cima para perceber o excesso transbordante que recorta o céu num horizonte único que vira marca de uma terra onde a guerra fez morada em tantos anos quantos danos corpos casas se reconstruindo em condições precárias mas com garra e graça enquanto chovem músicas palavras frescas pelas frestas dessas bolas parabólicas no céu de Angola
Texto original publicado em Parangolá - O Paradoxo da Redundância, de Sérgio Guerra / Edições Maianga, 2004
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