
As parabólicas marcam a paisagem de Angola, principalmente da capital Luanda. Suas imagens se repetem em praticamente todos as regiões do país, em todos os estabelecimentos, em todas as classes sociais e estão registradas no livro "Parangolá - O Paradoxo da Redundância", do publicitário Sérgio Guerra (leia texto de apresentação escrito por Guerra abaixo, nesta mesma página).
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As antenas, que se alastram e "se proliferam sem nenhum controle de natalidade" - descreve Arnaldo Antunes, em texto que compõe o livro - são reflexo de uma contradição.
Os angolanos se entusiasmam com a possibilidade de ter acesso a diversas fontes de informação e de se conectar com o mundo. Mas seu país permanece uma nação marginal, esquecida no mundo, e marginalizada, a padecer da miséria social.
O tamanho do entusiasmo, revelado na paisagem através da profusão de parabólicas, pode ser compreendido quando se analisa a história do país. Depois de um longo período de censura e restrição de informação, conseqüência do regime colonial português e de dezesseis anos de tentativa de uma experiência marxista-leninista, o país vive uma economia de mercado, sonha com a universalização e integração.
Mas, em Parangolá, esse sonho se converte em fábula, como aponta o texto do filósofo e geógrafo Milton Santos, fábula esta que faz a mediação da arte com a realidade. Realidade paradoxal, que confunde o acesso às tecnologias e à informação como se fosse garantia de acesso a um mundo menos desigual geopoliticamente.
"Estamos vivendo num mundo confuso e confusamente percebido". As imagens de Sérgio Guerra mostram o que dizem essas palavras de Milton Santos.
Leia abaixo a apresentação de Sérgio Guerra para o livro "Parangolá - O Paradoxo da Redundância":
Sérgio Guerra
Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Essa afirmação aplicada a Luanda é bastante questionável. Será isso um paradoxo ou uma redundância?
Luanda, Angola. Nos últimos quarenta anos de regime colonial português, qualquer forma de cidadania foi negada aos angolanos. A repressão e o controle da informação foram priorizadas como a única forma de manter o status quo. Ninguém teve acesso 'a outra informação, através da mídia, que não a oficial.
Em 1975, Angola conquista a sua independência, e os angolanos, recém saídos do cerceamento português, experimentam, durante dezesseis anos, um modelo socialista marxista-leninista. Em um sistema de partido único, em meio a uma sangrenta guerra civil, a informação passa a ser controlada e direcionada, pelos próprios angolanos, através de um único canal de televisão. Nesse momento a propriedade individual é submetida ao coletivo.
Em 1991, o país adota o pluripartidarismo e a economia de mercado, no entanto mantém-se a exclusividade da emissão à estatal televisão pública de Angola, a antiga televisão popular de Angola.
O pouco tempo para assimilar os conceitos do socialismo, a possibilidade do acesso a informação, a legitimidade do enriquecimento, talvez sejam peças fundamentais para entender o fenômeno que se registra hoje no céu de Luanda.
Nos prédios, nas casas, nas lajes, nas paredes, surgem cogumelos mecânicos. Em tamanhos diferentes eles vão brotando por toda cidade. São as antenas. Antnas de rádio, antenas de televisão, antenas de internet, antenas de telefone.
A redundância e velocidade com que se multiplicam evidenciam grandes paradoxox.
O socialista que não consegue absorver o conceito básico de condomínio.
O socialista que faz da antena um troféu para afirmar o sinal da sua riqueza.
O colonizado que tem no acesso a informação uma conexão para o mundo, em detrimento da infromação local.
São as antenas. Fenômeno suficiente para uma grande tese antropologia. Sim, as antenas, aquelas que repetem e se repetem no céu de Luanda, uma visão muito clara de como a redundância pode ser tão paradoxal.
Quando comecei a trabalhar nesta edição, quis ter no projeto gráfico uma forma que pudesse romper com o padrão de um livro de fotografias. Achei que deveria traduzir essa dualidade de redundância e paradoxo flagrantes nas imagens das antenas.
Um projeto que estivesse equilibrado entre os contrastes e a superposição de apelos visuais, como as cores em que o país se revê todos os dias.
No tempo das antenas, o novo velho tempo da informação globalizada.
Tempo do velho paradoxo da redundância.
Texto original publicado em Parangolá - O Paradoxo da Redundância, de Sérgio Guerra - Edições Maianga, 2004
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