
Bob Fernandes
O cantor, compositor e escritor Arnaldo Antunes visitou Angola a convite do amigo Sérgio Guerra, colega dos tempos do colégio Equipe, em São Paulo, e autor do livro de fotos "Parangolá - O Paradoxo da Redundância". Conta Arnaldo que Guerra o levou a levantar os olhos e notar algo marcante na paisagem da Angola pós-guerra: o infindável emaranhado de antenas parabólicas nos telhados, janelas, becos, vielas, portinholas...
Veja também:
» Fotos de "Parangolá" 
» Angola por Arnaldo Antunes e Sérgio Guerra
O país que até o início dos anos 90 não tinha uma rede nacional de televisão e assistia a apenas uma emissora estatal, estaria, pouco mais de uma década depois, com seus principais centros urbanos coalhados de antenas.
O espanto diante da néo-paisagem de Angola transmutou-se em palavras no livro Parangolá, e Antunes (d)escreve:
- (...) milhões de antenas parabólicas pequenas grandes brancas transparentes que os telhados lajes prédios parem pretas silhuetas(...)(leia mais).
A Terra Magazine Arnaldo Antunes conta como as fotos de Guerra despertaram seu olhar:
- Como a gente não tem o costume de olhar pra cima quando tá andando na rua, a gente não repararia. Eu acho que o livro "Parangolá" tem essa surpresa, de você ver alguma coisa que tava na cara, mas em que ninguém tinha reparado.
Antunes também fala sobre o clipe que gravou com Guerra em Angola, o "Nossa Casa" e da turnê que está faz agora pelo Brasil para lançar o CD novo "Qualquer".
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
Qual foi a tua viagem a Angola, e por quê?
Olha, nunca tinha ido pra África, e aí tinha o convite do Guerra para eu visitar Angola. Fui e fiquei hospedado na casa dele. E eu achei maravilhoso.
Ficou quanto tempo?
Fiquei uma semana. E aí deu pra conhecer um pouco de Luanda, fomos na Feira de Roque Santeiro, que foi uma coisa incrível.
Roque Santeiro é sensacional...
É muito bom. O nome já é incrível, né? Inspirado na telenovela brasileira. E é uma feira que tem tudo. Eu fiquei encantado, com as pessoas principalmente. E tinha um outro amigo que tava morando lá, que é o Chico Neves, que tava fazendo alguns trabalhos, inclusive com o Guerra e tal.
E a parabólica é o pós-pós-guerra?
Pois é, e a parabólica tem essa coisa... quem me revelou essa presença tão marcante da parabólica na paisagem urbana de Luanda foi o Guerra, com as fotos dele. E eu passei a reparar. Andando ali pela cidade, passei a reparar que é uma coisa surpreendente. Como a gente não tem o costume de olhar pra cima quando tá andando na rua, a gente não repararia. Então, ele tá revelando uma coisa que é muito presente ali, mas que a gente normalmente não veria. Então, é curioso. Eu acho que o livro "Parangolá" tem essa surpresa, de você ver alguma coisa que tava na cara, mas em que ninguém tinha reparado.
E você sabe que até 1992, pelo menos, por exemplo, quando teve a campanha eleitoral (NR: disputa pela presidência da República entre o presidente José Eduardo dos Santos, do MPLA, e Jonas Savimbi, da Unita) que até foi feita por brasileiros ( a do MPLA) até aquela eleição, não existia rede nacional de televisão? Isso é uma coisa absolutamente recente....
É recente, né? Que loucura.
E "Nossa Casa", como foi? O "Parangolá" é uma coisa e o "Nossa Casa" é outra, certo?
"Nossa Casa" surgiu da idéia do Guerra de fazer alguma coisa com essa música em Angola. Eu achei encantadora a idéia, acho que a música ganhou um outro significado pelo fato de ter sido gravada lá. A gente foi para um lugar que foi muito destruído pela guerra, o Bié. Então, as marcas disso são muito presentes...
Você conheceu aquele pequenininho, o Pedrito?
Eu conheci, claro. Ele aparece no clipe cantando (NR: de gorro amarelo, azul e vermelho, tem 15 anos, está prestes a lançar um disco). No fim do clipe, algumas crianças cantam o refrão da música. A gente foi numa aldeia... dos Retirados, é um nome assim... que são as pessoas que fugiram da guerra e fizeram umas aldeias meio na periferia da cidade. E foi incrível porque eu comecei a filmar e foi juntando criança, juntando criança, então, no vídeo, fiquei eu cercado de crianças cantando essa música que tem um tom também infantil e muito doce. E foi um momento muito mágico.
Essa música ficou em qual CD?
É do meu disco "Paradeiro", cujas fotos, capa e encarte, foram tiradas pelo Guerra. Então, já tinha um vínculo dele com esse disco, que foi feito antes. Enfim... eu conheço o Guerra desde o colégio, né?
Vocês foram colegas no Colégio Equipe...
Isso.
E o CD novo?
É o CD novo, chamado "Qualquer", estamos começando a divulgação, fizemos São Paulo, Rio, fiz um show em Montevidéu, no interior de São Paulo, fiz Joinville, fiz Brasília e agora estou fazendo Nordeste.
Terra Magazine