Roberto de Sousa Causo
Semana passada The Library of America, uma coleção que é considerada a porta de entrada do cânone da literatura norte-americana, anunciou que o escritor Jonathan Lethem estará editando um volume com quatro romances de Philip K. Dick, um deles sendo Do Androids Dream of Electric Sheep - (publicado no Brasil como O Caçador de Andróides), e as outras Os Três Estigmas de Palmer Eldritch,Ubik e O Homem do Castelo Alto. O livro está programado para lançamento em julho de 2007, e se chamará Four Novels of the 60s. É a primeira vez que alguém que foi primariamente um autor de ficção científica é contemplado na coleção.
No Brasil, a importância de Dick é reafirmada pela recente republicação de O Homem do Castelo Alto pela Aleph ¿ que planeja lançar Valis, de 1981, agora em 2007. Antes o livro saíra em Portugal como O Mistério de Valis.
O Homem do Castelo Alto, considerado por muitos como o melhor trabalho do autor, foi publicado originalmente em 1962 e recebeu o Prêmio Hugo de melhor romance. (Embora muito respeitado e reverenciado hoje, Dick só foi premiado essa única vez.) É uma história alternativa em que os Estados Unidos perderam para o Eixo a II Guerra Mundial, e têm a Costa Oeste ocupada pelo Japão. A história é ambientada na Califórnia e no Colorado, onde Dick viveu. Acompanha uma galeria de personagens que estabelecem uma teia muito tênue de relações ¿ às vezes formadas por um objeto ou o contato com um outro personagem envolvido em outra situação ¿ em torno de uma também tênue intriga de espionagem.
São eles Robert Childan, comerciante de objetos de interesse histórico; Frank Frink, artesão judeu-americano; Juliana Frink, sua frívola ex-esposa e instrutora de judô; Nobusuke Tagomi, o Adido Comercial japonês; "Mr. Baynes", uma estranha figura que chega da Europa nazificada para tratar com os japoneses da América; Joe Cinadella, um caminhoneiro de convicções aparentemente fascistas; e o "homem do castelo alto", o escritor de nome improvável (Hawthorne Abendsen), autor de O Gafanhoto Torna-se Pesado, um romance de ficção científica de história alternativa (idêntico ao livro de Dick) que propõe que os Aliados teriam vencido o Eixo na II Grande Guerra. A quarta-capa do O Gafanhoto Torna-se Pesado afirma que Abendsen vive em uma elevação fortificada - daí o título do romance de Dick.
Mas é claro que ele poderia se chamar tanto "O Homem do Castelo Alto" quanto "O Vendedor de Coisas Mortas" ou "O Judeu Oculto" ou "A Lutadora Leviana" ou "O Budista da Embaixada" ou "O Agente Secreto" ou "A Missão do Caminhoneiro" - Abendsen não é centro do romance, que não tem centro. Na verdade, cada personagem traz com ele não uma das correntes de fluxo do romance, mas suas reflexões individuais sobre o opressivo estado de coisas em que vivem. Um mundo em que genocídio e política internacional são expressões equivalentes, em que a paranóia do holocausto caminha nas ruas, em que os bons são capazes de reconhecer o mal mas forçados a viver com ele, em que salvar o mundo da guerra atômica não implica em salvar o mundo, em que a única expressão utópica (como potencial de melhora da condição humana) em meio à opressão totalitária está num livro de ficção científica.
Uma das realizações mais interessante de Dick em O Homem do Castelo Alto está no fato de que os personagens americanos não são os donos da verdade nem os agentes da solução final. Em Childan, por exemplo, tem-se um colaboracionista convicto, cuja atividade comercial tinge suas posições pessoais. Lidando constantemente com a classe dirigente japonesa, junto à qual vende objetos culturais americanos, tem com os seus clientes uma relação ambígua de submissão e ressentimento. Empregando a técnica do ponto de vista de penetração profunda, Dick dá a ele uma dicção japonesa (perdida na tradução) que contamina os trechos que são narrados sob o seu ponto de vista, mesmo aqueles que não contêm diálogos ou pensamentos.
Grande parte da atmosfera da realidade alternativa descrita no livro é composta de objetos - na América ocupada pelos japoneses, objetos culturais populares do pré-guerra são especialmente valorizados. Há uma hierarquia social em torno da posse desses objetos - assim como há uma hierarquia em torno da posse de animais, em O Caçador de Andróides. O que torna esses objetos valorizados é o mesmo fator ¿ sua raridade, o perigo de extinção que sofrem. Em O Homem do Castelo Alto, trata-se da extinção da cultura americana e dos ideais que ela representa. Com isso, Dick consegue ao mesmo tempo sugerir que os valores e dos sistemas sociais são eventuais, e que os objetos eventuais se confundem com a nossa sensação de realidade. Talvez mais produtivo do que o questionamento de vivermos o real ou a ilusão, questionar a eventualidade dos sistemas é uma das coisas que a ficção científica melhor realiza.
Por outro lado, objetos estranhos poderiam furar a impressão de realidade e abrir novos espaços de cognição? Um outro fator de caracterização do alternativo no romance é a adesão tanto de americanos quanto de japoneses à consulta do I Ching, o sistema chinês de adivinhação. Consultando o seu oráculo, Frink é capaz de intuir a ameaça apocalíptica que paira sobre o mundo - embora nada possa fazer para dispersá-la. Longe dali, Juliana descobre que é o oráculo o responsável pela sugestão de uma outra realidade em que o resultado da Guerra Mundial foi outro. Em outra linha narrativa, Frink e seu amigo Ed McCarthy criam uma empresa de adornos pessoais de aparência moderna, mas é necessário o olhar de um japonês para determinar que esses objetos possuem um equilíbrio perfeito de forças, estando em "paz com o universo". Pequenos objetos que representam uma outra saída utópica para o status quo - uma saída reconhecida por ninguém menos que o culturalmente colonizado Childan, que vê neles a reinvenção da cultura americana.
E a todo instante os personagens meditam sobre como seriam as coisas se o Eixo tivesse perdido a guerra. O livro de Abendsen é o guia dessas elucubrações, mas logo se percebe que a realidade alternativa que ele descreve também é alternativa à nossa. Isso pode indicar tanto uma terceira camada de realidade no complexo jogo criado por Dick, ou um traço de suas ansiedades quanto à possibilidade do romancista de fato descrever o real. Enfim, o argumento também lhe permite um espaço metaficcional para fazer uma defesa da ficção científica como uma literatura de idéias. Bem se vê que parte do apelo do livro, ao longo dos anos, é a multiplicidade de questionamentos que ele promove. Um romance que, para além do momento histórico que explora (a Guerra Mundial), tem o potencial de nos fazer coçar a cabeça por gerações.
Fã de Philip K. Dick, Fábio Fernandes teve a chance de realizar o sonho de traduzir esse romance - antes publicado em 1971 e 1986 pela José Olympio e Brasiliense, respectivamente. O posfácio assinado por ele é especialmente recomendado.
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