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Quarta, 20 de dezembro de 2006, 08h29

Manifesto Salvador Negroamor

A democracia é a mesma sob o sol. Mas se realiza sempre de um modo particular. É universal, porque a sua essência é a liberdade. É diversa, porque a sua prática não pode ser indiferente aos traços que identificam cada povo, cada sociedade. A democracia floresce à luz de circunstâncias históricas, sociais e culturais. E, sendo assim, que experiência ou exemplo de democracia é possível florescer numa cidade maioritariamente negra e mestiça como salvador?


Demografia, cultura, hábitos, tradição fazem de salvador a cidade mais negra do mundo fora do continente africano. E isso quer dizer muito sobre o que ela é, sobre o que ela deixou de ser, sobre o que ela quer, sobre o que ela ainda pode fazer.

As particularidades da formação histórica e cultural de salvador nos permitem lançar aqui a proposta de transformar esta cidade num ponto de convergência para as populações africanas e de afro-descendentes espalhadas pelo mundo. Propomos criar aqui um centro aglutinador para a produção de debates, pesquisa, conhecimentos e projetos voltados para a revalorização e reaproximação destes povos e populações.

Estamos falando da criação de políticas públicas; da renovação de relações internacionais; da inserção e atuação de organizações não governamentais; da revitalização cultural, do fortalecimento do intercâmbio e do associativismo.

Estamos falando sobretudo de inaugurar uma nova perspectiva para o velho mundo africano e para os afros descendentes. São populações diversas e variadas, mas que sofreram a mesma perda de liberdade e oportunidades, a mesma dilapidação das suas riquezas, a mesma privação dos seus próprios valores culturais.

Para que salvador assuma esta liderança e protagonismo, no entanto, é preciso vencer o abismo das desigualdades historicamente acumuladas. Sabemos que o racismo, o preconceito, a exclusão, a desigualdade vincaram profundamente a formação histórica do brasil e o caráter do seu povo. Salvador não poderia ser uma exceção, uma ilha de convívio democrático, num continente de imperfeições. Mas podemos afirmar que esta sociedade forneceu para o país a particularidade de uma cultura mestiça que se realiza aqui de uma forma distinta de toda a nação.

É assim que somos. E é assim que somos vistos pelo mundo. A cidade barroca, onde se diz haver 365 igrejas, uma para cada dia do ano, é a mesma que também abriga um outro sem número de terreiros de candomblé. Eles foram perseguidos, é verdade. Mas estão ali, comunidades vivas a perpetuar deuses e a dignificar pessoas. Convívio, ecumenismo, mestiçagem, sincretismo são palavras que, se fazem sentido neste imenso brasil, têm mais realidade e ressonância em salvador.

Desta mesma matriz, onde fraternidade rima lamentavelmente com desigualdade, foi possível gerar essa cultura de convivência singular. E não foi por outro motivo que os olhos e ouvidos do mundo voltaram-se tantas vezes para nos ver, ler, interpretar e ouvir, de caymmi ao olodum. Esta cultura nos reforça a responsabilidade de corrigir as nossas mazelas. Esta cultura nos convoca de forma incontornável à construção de uma nova democracia.

O que temos de mais precioso em salvador é o nosso povo. Um povo maioritariamente negro-mestiço. Um povo maioritariamente pobre. Com isso não estamos a busca de um fundamento racial. Mas não se pode esquecer, de forma evasiva, quem são os habitantes das nossas favelas e periferias. Do mesmo modo que identificamos experiências ricas e positivas na nossa formação, temos também o dever de resgatar tudo o que não soubemos incorporar.

Salvador é essencialmente democrática como os seus cultos e as suas festas. Mas é preciso dar consistência à festa. Consistência de pão e letra. De casa e emprego. Consistência de igualdade e cidadania. Como bem disse o padre

Antônio vieira, a pessoa não é o que ela pensa que é, mas o que ela faz, ¿cada um é as suas ações e não é outra coisa¿. Por isso, não basta saber que somos a maior cidade negra fora de áfrica. Temos de ser uma referência de democracia, mesmo que nascida num berço de contradições. Uma referência para o brasil, uma referência para os povos, raças e etnias de todo o mundo.

Tudo isso é o que nos une em torno desta proposta e nos faz convergir em torno deste manifesto. Acreditamos que é possível transformar salvador - porque esta é desde sempre a sua vocação - numa democracia política, social e necessariamente racial. Mais do que isso, propomos projetar o seu nome como pólo gerador de políticas de superação das assimetrias sociais e raciais no brasil e em diversas partes do planeta. Este protagonismo, no entanto, exigirá um profundo diálogo com os povos e nações de áfrica, com a áfrica real, contemporânea, e não penas com a áfrica mitológica. Exigirá, do mesmo modo, um diálogo com a própria cidade, com as suas lideranças e representações: o movimento negro, as agremiações culturais, as associações de bairro, as instituições civis e religiosas, todas as vozes que dão voz ao povo de salvador.

Trata-se, com certeza, de uma meta ambiciosa. Mas salvador tem braços, cérebros, vontade e alma para tudo isso. De forma concreta, lançamos aqui um chamado a toda a sociedade para preparar a nossa cidade a fim de sediar um fórum mundial africanista, reunindo representantes de todo o mundo. Preparar a cidade não significa construir fachadas e cenários. É preciso produzir, aqui e agora, exemplos concretos de reparação social, que nos habilite a assumir o lugar de vanguarda que ambicionamos.

Este é um chamado a todos quantos desejam fazer desta terra um lugar justo e democrático. Um chamado ao povo, aos governantes, aos artistas, aos intelectuais, às organizações populares, aos movimentos de reparação social e racial, as agremiações culturais, às instituições religiosas, aos empresários. Convocamos com o mesmo desejo aqueles que não residem aqui, mas que tem compromisso com esta cidade. Convocamos a todos que acreditam que é possível pensar diferente. Vamos pensar a cidade. Vamos assumir a nossa identidade negra e mestiça, o nosso amor à liberdade. Vamos nos erguer à altura das nossas ricas possibilidades. Vamos fazer, vamos dizer, salvador negro amor.

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