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Sábado, 23 de dezembro de 2006, 07h48

Pelos Dentes da Baleia

Roberto de Sousa Causo

O escritor e crítico Roberto de Sousa Causo, autor do romance recém-lançado "A Corrida do Rinoceronte", publica em Terra Magazine o conto de fantasia inédito "Pelos Dentes da Baleia". Leia abaixo:

*

A breve era das Grandes Navegações de Pindorama foi prefigurada pelo encalhe de uma baleia lactante nos sambaquis da aldeia de Tibirá. Uma baleia gigante como nunca antes vista pelos homens, mulheres e crianças da aldeia, que reconheceram os mapas de todas as terras e mares do mundo, de vários mundos, riscados em seus dentes, cada um deles mais largo que o peito de um guerreiro.

O xamã Saraí logo ordenou que as tetas do monstro fossem cortadas de sua carne e o leite espremido pelas mãos das meninas pré-púberes da aldeia. Setenta e oito vasos de cerâmica foram cheios até a boca com o leite rosado de sangue, e lacrados para serem no futuro bebidos com avara parcimônia, apenas pela boca de mulheres adultas que já haviam parido e aleitado.

Então Saraí ordenou que a aldeia fosse transferida para um local distante um dia inteiro de viagem ao norte, junto ao delta do Grande Rio, enquanto por gerações inteiras a carcaça da baleia-mãe era lentamente devorada por um milhão de gaivotas e quatrocentos e vinte e oito milhões de caranguejos. Ocasionalmente uma onça ou um cão-do-mato mordiscava da carcaça, para enlouquecer lentamente nos grotões mais densos da floresta, e deles a nova aldeia de Tibirá era obrigada a se proteger com paliçadas e patrulhas de guerreiros armados de lanças e tacapes. Mesmo a um dia de distância do cadáver gigante da baleia, a aldeia não deixou de ser também empestada pelo cheiro da carne marinha apodrecida, as entranhas mais insuspeitas reveladas pelas estações e pelos dentes ou garras dos animais que dele se alimentavam.

Na aldeia, durante todo esse tempo, tupiniquins de audácia estudavam os mapas gravados no esmalte dos dentes, e planejavam. O há muito falecido xamã Saraí profetizara que uma nau de proporções descomunais deveria ser construída a partir dos ossos descarnados da baleia-mãe, e a cada ano uma das mães de maior sabedoria da aldeia bebia uma cuia rasa do leite postumamente ordenhado, e dele extraía a confirmação da profecia e outras e novas dádivas proféticas sobre a vida da aldeia e o futuro de Pindorama.

Então, três gerações após o encalhe da beleia-mãe, Mãe-Daidéia deitou o leite sobre os lábios vermelhos e deixou que escorresse pela pele escura como o fundo da floresta, de seu peito, e Mãe-Daidéa declarou que o esqueleto estava enfim limpo o bastante para que se iniciassem os trabalhos de construção do grande navio.

A aldeia toda mudou-se para o antigo local, depois que os guerreiros e as mulheres adultas passaram várias fases da lua raspando os ossos, enxaguando-os com a água do mar e revirando a areia para afastar os fantasmas do fedor de decomposição e morte. Levaram os moradores da aldeia os dentes-mapas e os vasos com o leite-sangue e todos reconstruíram em torno da oca sagrada que os guardava as suas novas moradas e refizeram à luz de novas fogueiras os planos para a grande investida sobre o Mar-sem-Fim.

Dos ossos arqueados da cabeça foi feita a proa do navio, revestida da mais forte madeira-de-lei selada com coral e com a lama fóssil das pororocas. Das costelas e vértebras montou-se a quilha abaulada. Dos ossos das nadadeiras subiram mastros e suportes e as velas tecidas por duzentas mulheres, meninos e meninas foram erguidas sobre eles, mas antes tingidas com o vermelho do ibira-puitá e com o pó amarelo do ipê. Todos os trabalhos seguiram em boa velocidade, para o seu término próximo à Grande Conjunção. Mãe-Daidéia batizou o navio de Espírito do Mar, derramando sobre a sua proa todo um vaso do precioso leite mágico.

Os sábios da aldeia, no tempo em que era construída a nau, dedicaram-se a escolher capitão e tripulantes. Foi decidido que nove mães estariam sempre a bordo, para beber do leite mágico da baleia e assim antecipar os percalços da viagem. A primeira delas e a sua tenente seria Pitará. O capitão seria o valente Arivaru, que enfrentara mais correntes do Grande Rio e ondas do Mar-sem-Fim do que qualquer outro guerreiro conhecido dos habitantes da nova Tibirá.

Para a primeira viagem escolheram a ilha que foi chamada Jequiraí. Segundo um dos mapas-dentes, ela não distava muito do litoral de Tibirá, comparada a outras terras assinaladas no esmalte já amarelecido.

Quando a lua e a estrela da manhã entraram em conjunção formando um cacho de bolas prateadas no céu noturno, embarcaram os tripulantes em alegre obediência às profecias, as nove mães despediram-se dos seus filhos e filhas e em terra ficaram todos a ver partir o que restara da baleia-mãe - e o que prometia o futuro de Pindorama.

*

O Espírito do Mar levantou velas à noite, rapidamente deixando para trás as fogueiras da aldeia e penetrando no luar que iluminava o caminho, mas não ofuscava o brilho efêmero das estrelas cadentes.

Assim que a terra escorreu por trás do horizonte e os pássaros se cansaram de seguir o Espírito do Mar, a nau deparou-se com um cardume de baleias, que borrifavam o ar noturno com sua respiração nebulosa. Grandes baleias-mães e filhotes e uns poucos machos nadando exibidos na borda do bando maior. Nenhuma porém grande como a baleia que há tanto tempo havia encalhado nas praias da primeira Tibirá. Sentindo o cheiro familiar ou a forma como cortava as ondas, vieram ter com o navio e saber que estranha criatura, artefato ou aparição era esta.

Acompanhando a aproximação das baleias a partir do estreito passadiço, Arivaru convocou as mães e mandou que uma cuia do leite-sangue fosse servida. Enquanto bebiam as mulheres, juntou-se ao cardume dezenas de outros, vindos de todos os quadrantes do horizonte sem marcas que a todos circundava. Eram muitas baleias, baleias de muitos tipos, todas expirando água e inspirando ar, tanta água borrifada no ar que as muitas baleias em verdade suspiravam uma chuva entre arcos-íris, que vinha banhar os conveses da nau. O agitar dos muitos corpos das baleias balançava o navio, e as baleias mesmas formaram uma intransponível barreira.

Depois de bebida a última gota do leite, todas as mulheres se calaram, enquanto Arivaru esperava delas que falassem. Mas o valente Arivaru conhecia o valor da paciência, e esperou mais.

Antes porém que a primeira palavra saísse dos lábios ainda manchados do leite rosado, o capitão viu o cerco de baleias abrir-se um tanto, e no centro da grande comunhão de animais marinhos emergiu um monstro nunca visto.

Arivaru subiu no mastro mais alto, para reconhecer todo o seu corpanzil azulado semi-submerso na água, e saber se era mesmo uma baleia, como parecia ser e era. Mas nunca uma baleia deste tamanho¿

Quando o capitão desceu do mastro por uma corda de cipó, as mulheres o esperavam no convés principal. Pitará, a primeira mãe e a segundo em comando, disse a ele, de olhos muito abertos:

- Fala o monstro, por minha boca: "Quem são vocês, que nadam sobre as águas, nos ossos de minha mãe?"

Arivaru um tanto demorou, para entender. Poderia ser, que a gigante-baleia fosse cria da Baleia-Mãe que deitara à praia de Pindorama, há tantas estações passadas?

- Ouve o monstro, por seus ouvidos, Pitará? - perguntou o capitão.

- Sim, Arivaru. Mas fale rápido, pois o gigante é impaciente.

- Somos homens e mulheres da terra antiga de Pindorama, da aldeia de Tibirá - explicou o capitão -, onde há muito uma baleia encalhada trouxe ao nosso povo o presente de muitos mapas de terras distantes, cravados em seus dentes. Foi dito que de seus ossos deveríamos fazer um navio capaz de cruzar o grande mar, até uma das terras descritas nos dentes da baleia.

- E o leite de minha mãe, que ainda muito haveria de alimentar a mim? - perguntou o monstro, pelos lábios salivosos de Pitará.

- Sim - Arivaru admitiu -, pois o leite é mágico e permitiria a nós encontrar o caminho com maior facilidade.

- Não o seu caminho, porém - o monstro disse. - Sei que desejam o destino da ilha de Jequiraí, mas devem ir ao invés até a mágica terra de Ó-Brasih, terra-irmã de Pindorama e destino verdadeiro de minha mãe. Ela enganou-se, tomando uma pela outra após perder-se de mim em uma tempestade, mas agora cabe ao povo de Pindorama navegando em seus ossos levá-los ao descanso a ela prometido. Seu destino é Ó-Brasih.

Arivaru ponderou. Pela primeira vez, desviou os olhos da bela Pitará e os dirigiu à baleia gigante.

- Preferiria então retornar à nossa terra de Pindorama, se o caminho a Jequiraí proibido está - disse.

O monstro soergueu a metade dianteira do seu corpanzil imenso e o deixou deitar-se novamente contra a água, levantando uma onda que fez correr para o alto e para o baixo outras baleias menores que o circundavam - e que fez gemer as estruturas do Espírito do Mar, atirando tripulantes aos conveses e Pitará aos braços de Arivaru.

- Seu destino é Ó-Brasih - ela cochichou a ele. - E nenhum outro. Nunca mais retornarão a Pindorama, não na mesma nau em que agora viajam, pois os ossos de minha mãe devem repousar, no lugar prometido.

Arivaru endireitou-se e se separou devagar de Pitará.

- Mas que caminho seguir?

- Pelo dente maior da frente - disse o monstro, pela voz da mulher.


» Continuação do conto "Pelos Dentes da Baleia"


Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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