Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Tabajaras Ruas

Sexta, 22 de dezembro de 2006, 08h01

As cartas do domador - Capítulo 13

Tabajara Ruas

Onde se conta como funcionou a traição de André

1

Clara afasta a cortina da janela e olha para o pátio lá embaixo. Capincho e Cara Cortada, a cavalo, vêm entrando no pátio, escoltando o Negrinho, também a cavalo.

O Barão e André se aproximam. Capincho e Cara Cortada desmontam e começam a amarrar o Negrinho no palanque. O Barão e André estão próximos.

Clara afasta-se da janela e corre para a porta do quarto.

2

- Nos últimos dez anos ¿ diz Netto para os lanceiros - todos os países sul-americanos se tornaram repúblicas independentes. O Uruguai, a Argentina, o Chile, o Paraguai, a Bolívia... repúblicas sem escravos! Nós somos o único país da América amarrado ao passado.
- Eu não quero ouvir essa conversa fiada resmunga Lança.
- Nos diga por quê.
- O jaguar come o guará, o guará come a perdiz, a perdiz come a minhoca. O mais grande come o mais pequeno.

3

O Negrinho está amarrado no palanque. O Barão, André, Capincho e Cara Cortada estão em volta.
- Onde estão os cavalos?
- No campo, sinhô.
- Tu reuniu os cavalos como eu mandei?
- Reuni, sim sinhô.
- E onde estão?
- Fugiram, sinhô.
- Fugiram? Como fugiram?
- Não sei não sinhô.

Clara chega correndo nas escadas da casa, onde estão a Baronesa, Maria e Verônica. Maria abraça-se a Clara, chorando. Verônica retira Maria pelos ombros. A Baronesa se aproxima do Barão.
- Quero falar com vosmecê, meu marido.
- Agora, não!
- Agora, sim, por favor. Por favor.

4

- Existe diferença entre homem e bicho ¿ diz Bonifácia.
- É? E qual é a diferença? ¿ Lança, irônico.
- Os homens pensam! Embora pareça que nem todos tenham esse dom...

5

O Barão e a Baronesa, em pé, um diante do outro. A Avó no fundo da sala.
- Quero falar a sós com meu marido, Vó.

A Avó se levanta e sai lentamente.
- Júlio, o rapaz estava cansado da surra. E como ia achar os cavalos na escuridão?
- Quem campeia, acha.
- Ele é apenas um rapaz, Júlio. Nasceu aqui, foi criado aqui. Não se lembra quando ele era um bebezinho? Quando brincava com nossos filhos?
- Isso não está em causa.
- Vosmecê é um homem bom. Ouça seu coração. Tenha compaixão.
- Compaixão? Compaixão é luxo pra quem pode. Não existe compaixão para mim. Existe a honra. Existe o dever. Vosmecê sabe que o que eu mais odeio é fazer mal a alguém, a qualquer criatura, mas se não me fizer respeitar por um negro criado nas minhas terras, ninguém mais vai me respeitar.

Dá uns passos nervosos, depois pára diante da Baroneza e diz olhando firme para ela:
- Eu disse uma chibatada por cada pataca perdida e todos nesta casa ouviram.

Sai da sala e fecha a porta. A Baronesa fica sozinha no escritório, olhando pela janela. Ela ouve o Barão através do corredor, pisando duro, até a porta da frente e depois descendo os degraus e se dirigindo ao palanque, onde Capincho e Cara Cortada esperam. Ela sabe que nesse momento o Barão tira o chicote do pescoço e o estende para Capincho, que o apanha trêmulo.

6

- Podemos não fazer o que não gostamos. Podemos mudar o que não gostamos ¿ diz Espada com ênfase.

Lança aproxima o rosto do dele.
-Muito bem, rapaz: vamos mudar queimando a estância do Barão!

7

Capincho dá a primeira chicotada nas costas do Negrinho.
- Uma!

Clara caminha rente à parede da casa, horrorizada, arrastando o rosto na parede áspera. Choca-se contra a Avó. As duas ficam frente a frente. Ouve-se ao fundo o ruído das chicotadas.
- O que a minha mimosa está fazendo?
- Por que tudo isso, Vó?
- Por que é necessário, querida.
- Necessário, Vó? Por que é necessário?
- O Negrinho pecou e está sendo punido.

Clara faz um gesto de se desvencilhar do abraço.
- Onde tu vais, menina?
- Bem longe.
- Fazer o quê?
- Tomar sol.
- Tu não deves tomar sol.
- Eu quero tomar sol.
- Escravos tomam sol. Nosso sangue é azul, menina, sabe por que? Porque nossa pele é branca! Tu tens escravos, Clara Isabel. Não esquece isso.

8

Continua a reunião dos lanceiros.
- Se nós seguirmos com o exército dele sabem que vamos ser? Carne de canhão!
- E se a guerra for perdida, o que vai ser de nós?
- Meu amigo, não podemos entrar numa guerra pensando em perder - diz Netto.
- Com esse branco nós vamos perder a guerra. Qualquer guerra! Eu vou cantar noutra freguesia. Quem quiser vir comigo, que venha.

Para Espada:
- Eu tenho mais pena é de ti, meu irmão. Porque tu acredita neles. Mas não vou ficar chovendo no molhado.

Lança se ergue, monta no seu cavalo.
- Só peço que não esqueçam que estes são os Campos Neutrais! Los Campos Neutrales, a Terra de Ninguém! E que aqui, nestes campos, com um cavalo e uma boleadeira, um homem é livre. Boa sorte a todos!

Aproxima-se de Netto.
- Boa sorte, Anjo Branco, mas não atravessa mais o meu caminho.

Afasta-se num galope curto, sussurra para si mesmo.
- Boa sorte, frágeis soldados a caminho da guerra.

Silêncio acompanha sua saída. Índio Torres, lentamente, monta no malhado e também se afasta. Netto, Caldeira, Bonifácia, o grupo todo, imóvel, acompanha eles se afastarem.

9

Salas, quartos, corredores, cozinha, paredes, móveis, quadros e sobre isso tudo, em todos os rincões e móveis da casa, o ruído das chicotadas e a voz de Cara Cortada.
- Oitenta e oito!... Oitenta e nove!

A Baronesa, na janela do quarto, tapa os ouvidos.

Clara na cama, com o travesseiro sobre a cabeça.

A Avó em sua cadeira de balanço, fuma.

O retrato do filho falecido na parede.

O rosto do Negrinho é uma máscara de dor. Capincho, caído no chão, bêbado e choroso, observa Cara Cortada dar as últimas chicotadas. Os dois estão com as expressões alteradas, sujos de sangue, cansados e animalescos.
- Noventa e nove!... Cem!

Larga o chicote no chão, exausto. O Negrinho está com as costas em carne viva, onde jorra sangue. Está desmaiado. Cara Cortada se aproxima dele, examina seus olhos, escuta o peito.
-Diz, obrigado sinhô. Vamos, diz: obrigado sinhô.

Dá dois tapas no seu rosto. O Negrinho não reage. Cara Cortada abre o olho do Negrinho com o dedo.

Clara, na janela, observa a cena. O Barão se aproxima de Capincho e Cara Cortada, estirados no chão. Eles se erguem quando o Barão chega. Examinam o Negrinho.
- Parece que morreu.
- Enterrem longe daqui.
- Podemos jogar no formigueiro grande.
- Não vai sobrar nem os ossos.

Próximo e último capítulo: onde narra o trágico fim do Negrinho e as decisões de Netto e Índio Torres.

» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador

Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 7
» Capítulo 8
» Capítulo 9
» Capítulo 10
» Capítulo 11
» Capítulo 12
» Último capítulo


Tabajara Ruas, escritor e cineasta, está concluindo seu segundo longa-metragem, O General e o Negrinho.

Fale com Tabajara Ruas: taba.ruas@terra.com.br
 

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol