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Sexta, 29 de dezembro de 2006, 07h54

As cartas do domador - Último capítulo

Onde se narra o trágico fim do Negrinho e as decisões de Netto e Índio Torres

1

A cortina começa a se enfunar lentamente ao longo da parede, como um fantasma. Clara escorrega até o chão. Uma sombra cresce sobre Clara. Ela levanta o olhar. É a Avó.
- Posso saber por que minha mimosa está chorando?

Clara se agarra nas pernas da Avó e soluça. A Avó fala com doçura.
- Teu pai tem razão, minha querida. Nós precisamos ser mais fortes do que eles. Nós salvamos as almas deles, transformamos eles em cristãos como nós... mas eles não conhecem a piedade! Se tiverem uma oportunidade nos matam a todos... e depois nos devoram! São canibais!

2

Verônica observa Capincho e Cara Cortada, montados, atravessarem a porteira do pátio puxando um terceiro cavalo.

Nele vai o corpo do Negrinho.

3

Capincho e Cara Cortada se aproximando do formigueiro com o corpo do Negrinho.

Índio Torres surge silencioso atrás das gordas figueiras, observando-os.

Capincho e Cara Cortada desmontam perto de onde está o enorme formigueiro. Capincho examina o Negrinho. Espanto.
- Acho que está vivo... Espera!
- Vivo as formigas gostam mais...

Cara Cortada joga o Negrinho no formigueiro e começa a atiçar as formigas com um pau. Capincho passa do espanto para um riso nervoso, que vai aumentando.

E então Índio Torres surge esporeando o cavalo, dando gritos, fuzil na mão. Susto de Capincho e Cara Cortada que apanham suas armas.

Índio vem atirando e derruba os dois. Salta do malhado e corre veloz para o formigueiro. Quando começa a tirar o corpo do Negrinho, surge Maria correndo. Lutam com as formigas, afastando-as do corpo do Negrinho com as mãos.

Cara Cortada, no chão, começa a se mexer.Maria volta ao cavalo, retira um punhado de sal de baixo do pelego, desata um porongo e prepara uma salmoura na cambuca que trouxe. Rasga o vestido e faz aplicações, enquanto chora e murmura sem parar:
- Não morre, Negrinho, não morre, Negrinho...

Cara Cortada apanha a pistola.
- Vamos levar o Negrinho para o acampamento. Ele não merecia isto.

4

Índio ajuda Maria a colocar o Negrinho no cavalo. No chão, Cara Cortada se remexe, numa dolorida agonia: ele vê dois vultos difusos.

Aponta a arma.

Maria dá um grito. O Índio cai para um lado e atira. Cara Cortada estremece no chão. Índio vai até Cara Cortada, arrasta-o por uma perna e o joga no formigueiro. Depois arrasta Capincho e faz a mesma coisa.

Capincho grita e geme, se contorcendo.
- Ele ainda estava vivo - diz Maria.
- Vivo as formigas gostam mais.

5

Índio Torres e Maria entram no acampamento carregando o corpo do Negrinho. Todos se levantam para ver o que aconteceu.

Bonifácia e Caldeira ajudam o Negrinho a descer do cavalo. O Negrinho é estendido no chão. Os lanceiros formam um círculo em torno do Negrinho, enquanto Bonifácia e Maria fazem curativos. Um canto vai crescendo no grupo, o batuque começa.
- Não morre, Negrinho!

Todos cantam. Vão ficando exaltados.
- Vamos atacar a estância do Barão!
- Vamos botar fogo na estância do Barão!

Olhar inquieto entre Netto e Caldeira e Índio Torres. Netto baixa a cabeça. O chapéu cobre seus olhos. O clamor aumenta. Netto se levanta, caminha até o Negrinho, que tem a cabeça no regaço de Maria.

Netto se ajoelha a seu lado e pega suas mãos.
- Negrinho, eu vou te prometer uma coisa: nunca mais homem nenhum vai levantar a mão contra ti impunemente. Nós estamos de armas na mão, Negrinho. Teus irmãos precisam de ti para lutar ao lado deles. E tua família precisa de ti, para lutar por ela. Não morre, Negrinho.

Índio Torres se aproxima e afasta Netto.
- Negrinho, nós vamos botar fogo no mundo. Por cada escravo que eles matarem, eu juro que vamos matar dez brancos.
- O Negrinho ergue o braço e toca o rosto de Índio.
- Tu fala com os cavalos, como eu.

O Negrinho sussurra algo mais em seu ouvido, a expressão de Índio vai ficando perplexa. O Negrinho deixa o rosto tombar e morre. Comoção nos rostos de Netto e Índio Torres, que se encaram. Desespero no rosto de Maria.
- O que ele disse?

Os três se abraçam sobre o corpo do Negrinho. Espada começa a soluçar, depois se ergue e grita.
- Vamos matar todos na casa do Barão!

6

Corredores vazios. Salas vazias. Cozinha vazia.

Lança entra na cozinha, apanha uma fruta, começa a comer. Verônica e outra escrava entram na cozinha. Lança aponta uma pistola para elas.


Clara bordando. Entra na sala a triste música das crianças. Clara sente uma presença atrás de si. Volta-se. Depara com Índio Torres, olhando para ela, indicador sobre os lábios. Índio e Clara muito pertos um do outro. O Índio alisa a pele dela, fascinado. Ela treme.


Um peão está escovando o pêlo de um cavalo. Surge atrás dele um lanceiro e o imobiliza encostando a lança no seu peito.


O Barão sentado à escrivaninha. A Avó está ao lado dele olhando os papéis. Há uma pistola sobre os papéis. Por uma janela surge Caldeira, apontando uma arma para o Barão.
- O Diabo, quando não pode vir, manda um parente. Negro maldito, vai pro Inferno!

A Avó apanha a pistola e dá um tiro que raspa o ombro de Caldeira.
- Eu já tô no inferno, velha.

Fuga desesperada de André por salas, corredores, bretes, curral. É cercado por Simão, Álvaro e Tomás ao tentar montar num cavalo em pêlo. É jogado ao chão, Tomás ergue a lança e a arremessa contra o apavorado André.


Netto entra a cavalo no pátio da estância seguido por Recabarren, Bonifácia, Maria e as demais pessoas do acampamento. O corpo do Negrinho está curvado sobre o cavalo e coberto por um pala. Na varanda da casa aparece o Barão, empurrado por Índio Torres, que lhe encosta o cano da arma no pescoço. A Baronesa, a Avó e Clara são colocadas juntas a um canto, sob a vigilância de Simão e Tomás. Netto e os seus formam um semicírculo diante da casa. O corpo do Negrinho é retirado do cavalo e estendido no chão. Netto encontra o olhar de Clara. O Barão reconhece Netto.
-Seu demônio sorrateiro. O que significa isto?
- Significa que estamos em guerra, Barão.
- Ah! Um pária anarquista.
- Um pária republicano, Barão.
- Vosmecê é patético. Vosmecê acha que basta levantar a espada para transforma esses negros em seres humanos?
- No fundo é mais ou menos isso que eu acho, Barão.
- A escravidão sempre vai existir. É da natureza humana.
- E é um sistema econômico. Vosmecê é um branco, não pode me deixar nas mãos desses negros.
- Estes negros, Barão, não lhe farão nada que vosmecê não tenha feito com eles. Daqui a 100 anos...
- Daqui a 100 anos tolos como vosmecê estarão dizendo as mesmas bobagens e o mundo vai estar exatamente igual!
- Pode ser... mas, hoje, neste lugar, vamos fazer o mundo um pouco diferente: hoje, o chicote vai mudar de mão.

Grito de horror da Baronesa. André é trazido de arrasto, puxado por Espada. Suas roupas estão ensangüentadas. Horror da Baronesa e de Clara. André é desamarrado por Caldeira e levado por um braço até a Baronesa. André soluça. Está completamente histérico. A Baronesa o abraça.
- Malvados, malvados! O que fizeram com meu filho?
- Seu filho está inteiro, minha senhora. Só levou um susto e se borrou nas calças.
- Agora o assunto é com vosmecê, Barão.
- Vamos ver se é mais macho do que sua cria.

O Barão é levado por Índio Torres e Caldeira até o palanque. É amarrado com as mãos para cima. Suas roupas são rasgadas por Caldeira com violência. As costas ficam nuas. Caldeira apanha o chicote, mas Índio Torres o toma de suas mãos.
- Este serviço é para mim: eu sou o selvagem.

Na varanda, Clara consegue se afastar e entra na casa. Simão vai atrás dela, mas Verônica surge na sua frente.
- Ela não tem culpa do pai que tem.

Simão desiste de enfrentar Verônica.

No palanque, Índio Torres se aproxima do Barão.
- Quantas chibatadas mataram esse menino, Barão?

O Barão não responde.
-Não sabe, mas eu sei. A grande aposta do grande estancieiro! Acho que vou ficar com o braço dolorido, mas vai valer a pena.

Clara entra correndo no seu quarto e se aproxima da janela.

Índio Torres se afasta alguns passos e dá uma chicotada violenta.

Índio Torres dá uma segunda chicotada.

Dá uma terceira. O Barão geme. Dá a quarta, a quinta, a sexta...

Mas quando vai dar a sétima, Índio hesita, e se aproxima do Barão.
- Vosmecê é um homem branco igual a muitos brancos que eu conheci, Barão. Homens civilizados, homens elegantes de uniforme, que diante da tropa diziam: "por cada orelha de índio macho o governo do Império pagará um patacão de ouro. Me tragam as orelhas desses índios sujos!" Tudo o que este índio sujo quer neste momento, Barão, é matar a vosmecê e a todos os da sua espécie, e jogar no formigueiro, até que o Diabo venha buscar os ossos... Mas o Negrinho era um menino santo e ele me abençoou e essa é a sorte de vosmecê, Barão. Ele me disse algo que vosmecê não vai entender.

Olha para Maria.
- Antes de morrer, o Negrinho me disse, Índio, liberta teu coração: não seja igual a eles...

Índio Torres larga o chicote no chão vagarosamente. Monta ao lado de Netto. Eles não se olham. Simão e Caldeira colocam o corpo do Negrinho no cavalo do Índio.Netto encontra o olhar de Clara na janela.

Na varanda, a Avó, crispada de ódio:
- A escravidão vai existir para sempre! Vocês vão ser escravos para sempre!

Netto levanta um braço.
- Vamos enterrar o Negrinho.

Netto puxa a rédea e sai seguido por todos, que formam uma escolta para o Negrinho, nos braços de Índio Torres.

FIM

» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador

Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 7
» Capítulo 8
» Capítulo 9
» Capítulo 10
» Capítulo 11
» Capítulo 12
» Capítulo 13


Tabajara Ruas, escritor e cineasta, está concluindo seu segundo longa-metragem, O General e o Negrinho.

Fale com Tabajara Ruas: taba.ruas@terra.com.br
 

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