
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
Na Espanha e nos países hispano-americanos, os presentes também foram tradicionalmente entregues no dia de Reis - não por Befana, mas pelos Reis Magos em pessoa. Em muitos lugares, essa tradição ainda resiste. Em 81% das famílias espanholas (segundo uma pesquisa), na Argentina e em Porto Rico, por exemplo, as crianças continuam a aguardar os presentes na noite de 5 de janeiro.
Em Portugal, os presentes são entregues em 24 de dezembro, mas se diz que quem entrega é o Menino Jesus. No século XIX, essa concepção era encontrada em outros lugares da Europa, acompanhada ou não de um ajudante derivado de "São Nicolau", como o "Père Noël" francês ou o Pelznickel (Nickel das peles) na Alemanha, imaginado como um anão barbudo que acompanhava o Menino.
Estas tradições, ao menos, estão isentas de raízes pagãs? Bem, em termos. Não se sabe bem de onde seriam os "Magos do Oriente" citados no Evangelho de Mateus, mas o termo "mago" referia-se, na época, à casta sacerdotal dos persas, um povo seguidor do zoroastrismo. A idéia de que seguiram uma estrela sugere que eram astrólogos.
Talvez não tenha sido por acaso, diga-se de passagem, que a data atribuída à chegada dos magos, 6 de janeiro, era no antigo Egito o dia da festa de Hórus, o deus-menino, nascido da deusa-mãe Ísis depois de uma concepção miraculosa. Seu marido, Osíris, havia sido morto e despedaçado por Set. Ela reuniu os pedaços e criou com isso a primeira múmia. Mas faltava o pênis: havia sido devorado por um peixe do Nilo, garantindo-lhe a fertilidade. Ísis recorreu à magia, dando à múmia um pênis artificial e um sopro de vida que lhe permitiu engravidar e dar à luz o futuro vingador do pai.
E nem sempre o Natal foi "a festa máxima da cristandade", como dizia a propaganda comercial. Os primeiros cristãos não comemoravam o nascimento, mas a Ressurreição, a Páscoa. No século III, o grande teólogo Orígenes ainda condenava a idéia de comemorar o Natal. Para ele, só os pecadores comemoravam o nascimento: dos santos, só se comemora a morte. No século IV, a questão ainda era polêmica.
Foi só com João Crisóstomo, por volta de 400, que o Natal passou a ser regularmente comemorado. Tudo indica que a festa de 25 de dezembro se impôs para substituir as festas pagãs do solstício de inverno. Principalmente as Saturnais e a festa pagã que era celebrada precisamente em 25 de dezembro - o nascimento de Mitra ou Sol Invictus, o deus-Sol favorito das elites romanas nos últimos tempos do paganismo.
Ainda assim, até o início da Idade Média, o dia de Reis era mais importante que o Natal, cuja importância cresceu depois que Carlos Magno foi coroado nesse dia e também pode ter estado relacionada à absorção das tradições pagãs germânicas. O ciclo natalino passou a começar no domingo do Advento, quatro semanas antes do Natal. Incluía, além do dia de Reis, o dos Santos Inocentes (28 de dezembro), homenagem às crianças supostamente mortas por Herodes. Nos países de língua espanhola é lembrado, por um trocadilho óbvio, como o equivalente do nosso "dia da mentira", 1º de abril. Há também o 1º de janeiro, dia da Circuncisão.
E a árvore de Natal? É germânica, decerto, mas a teoria de que tem origem pagã é duvidosa. A festa de Yule (o solstício de inverno nórdico e germânico) é tradicionalmente decorada com ramos de azevinho e visco, símbolos do renascimento do Sol por permanecerem verdes no inverno nórdico. Mas a árvore propriamente dita, segundo a Enciclopédia Britânica, foi inspirada por um auto medieval popular sobre Adão, Eva e a árvore do Paraíso, representada como um abeto carregado de maçãs. Tornou-se costume armar uma "árvore do paraíso" carregada de frutas, doces e nozes que as crianças "colhiam" na véspera de Natal. Pois 24 de dezembro, no calendário católico, era (e é) o dia de Santo Adão e Santa Eva.
O protestantismo, porém, baniu como superstições e idolatria todas as festas de santos. Lutero preservou o Natal e é mesmo tido pelos alemães do norte como o inventor da árvore de Natal - ou pelo menos, do costume de decorá-la com velas acesas - mas, provavelmente, apenas baniu Adão, Eva, os magos e São Nicolau para associar a festa exclusivamente ao Menino Jesus. Mas os calvinistas, puritanos e presbiterianos tenderam a eliminar até mesmo essa festa. Até hoje, certas correntes evangélicas fundamentalistas se recusam a comemorar o Natal.
Costumes são mais fáceis de transformar que de erradicar. Na Holanda, onde predominou o calvinismo, os santos foram banidos, mas o costume de dar presentes a crianças na noite de São Nicolau sobreviveu como figura folclórica mágica, bem como seu ajudante, ali único e chamado Zwart Piet (Pedro Preto), outro eufemismo para o "capeta".
Na Holanda, Sinterklaas (São Nicolau) vem de navio de Madri (uma capital historicamente inimiga dos holandeses) com Zwart Piet, supostamente um demônio vencido e escravizado pelo santo, mas imaginado nos séculos XIX e XX como um escravo africano. Em 5 de dezembro, as crianças deixam os sapatos para serem recheados de presentes, junto com uma cenoura para o cavalo branco de Sinterklaas, cujo nome, Slechtweervandaag, significa "tempo ruim hoje" e no qual alguns vêem a sombra de Sleipnir, o cavalo de oito patas de Odin. É o pobre Piet quem desce pela chaminé, leva a cenoura e deixa os presentes.
Essa tradição pode ter sido levada para Nova Amsterdã, quando os holandeses colonizaram a América do Norte. A cidade, porém, foi tomada pelos ingleses, rebatizada Nova Iorque e os costumes holandeses foram gradualmente esquecidos, incluindo Sinterklaas.
Até 1804. Nesse ano, os historiadores e folcloristas nova-iorquinos que fundaram a Sociedade Histórica de Nova Iorque resolveram ressuscitar o passado holandês da cidade e adotar São Nicolau/Sinterklaas como patrono. Seu ciclo de festividades incluía um jantar anual em sua homenagem, para o qual era produzida uma gravura comemorativa acompanhada por rimas. Mas o dia 6 de dezembro já nada significava para os protestantes de Nova Iorque e sua imagem associou-se ao Natal.
Os poemas em homenagem a "Santeclaus" ou "Santa Claus" reviveram a lenda, com algumas modificações: em vez do cavalo, um trenó puxado por oito renas (depois nove), que apareceu, pela primeira vez, em 1822. Alguns, porém, ainda o chamavam de Criscringle ou Kriss Kringle, uma corruptela de Christkindlein - em alemão, o Menino Jesus, que em alguns países da Europa entregava presentes no Natal.
Santa Claus ou Criscringle, originalmente um elfo ou gnomo, passou a ser imaginado como um homem grande e gordo em 1841, quando um comerciante chamado J.W. Parkinson teve, pela primeira vez, a idéia de contratar um homem para fazer esse papel e subir pela chaminé de sua loja. De 1863 a 1881, um caricaturista da Harper's Magazine chamado Thomas Nast consolidou sua imagem em roupas de pele, a fabricar brinquedos no Pólo Norte. Suas roupas, porém, ainda variavam muito de cor. O vermelho começou a predominar no início do século XX e em 1927, segundo o jornal The New York Times, já era padrão.
O toque final, porém, foi da Coca-Cola: numa série de campanhas dos anos 1930, vestiu Santa Claus com a hoje obrigatória roupa vermelha e branca, para combinar com a marca do refrigerante e difundiu sua imagem de Nova Iorque para os EUA e o mundo. A Coca-Cola não inventou Papai Noel, como alguns chegam a dizer, mas seus cartazes coloridos completaram a padronização e massificação de sua imagem, bem como o processo de transformação do Natal: primeiro festa pagã, depois dia santo cristão, por fim celebração capitalista.
Terra Magazine