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Terça, 9 de janeiro de 2007, 08h02

Punks, deputados, imagem e variações

Paulo Scott

Nada surpreendentes as declarações de alguns novos deputados federais que, na semana passada, explicitaram sua preocupação com a imagem do Congresso Nacional. Houve quem enfatizasse: "quero ser deputado e não marginal". Alguns vários já prometeram concentrar seus primeiros esforços na superação desse quadro negativo que cerca a instituição na atualidade.

De fato, o problema da imagem se agrava quando é fator do qual dependa a identidade (e até a autoridade) de alguma instituição. Costuma-se dizer que se os paradigmas sociais centrais como inegavelmente são os decorrentes da política se abalam, todas os demais modos e estruturas periféricas encontram justificativas para infringir.

Mesmo que sugerida, minha intenção não é, todavia, a de problematizar sobre a idéia de estabilidade das instituições de ordem e governo. Apesar desse algo pernóstico, pretendo é discorrer quase intuitivamente sobre a sugestão da imagem (sem, é claro, cair nos meandros exegéticos do que eventualmente poderia ser tratado como preconceito).

Na verdade (e vamos logo ao que interessa), a pauta veio de uma conversa com amigos, num desses eventos sociais de final de ano. Discutíamos sobre o que significou e significa o movimento punk e o que hoje seria a ideologia punk. Um deles comentou que tanto na Europa como no Brasil, os eventos com bandas punks são os mais ordeiros possíveis e que a dita marginalidade punk congrega as pessoas mais conscientes ecologicamente falando e também com o maior senso de solidariedade humana.

Pesquisei a respeito, questionando outros conhecidos que desde sempre se mantêm próximos ao movimento punk, como os meus amigos da banda gaúcha Os Replicantes, um dos ícones do punk brasileiro, e confirmei: ser punk, hoje, é sinônimo de lucidez - não que já não fosse assim nos anos oitenta (passada a febre dos anos setenta, registre-se).

O apartidarismo e a liberdade total de crença religiosa, a oposição à exploração capitalista, ao apadrinhamento estatal, foram posições que mais tarde, nos anos noventa, levaram a posicionamentos mais elaborados, sobretudo, quanto à oposição a qualquer tipo de discriminação (machismos, homofobias, ataques raciais) ou lideranças.

Não é raro encontrar punksque se posicionam contra o consumo de drogas (álcool e nicotina também) e que condenem o poder excessivo das mídias atuais. É, a propósito, o que está na Wikipédia: "Alguns punks evitam relações com a mídia tradicional por filosofia, e é bem comum que não seja de conhecimento público o nome de escritores de zines - publicações alternativas, poetas, artistas plásticos, bandas, já que cada componente do seu grupo faz sua própria mídia, através da propaganda, que consiste na publicação de zines, promoção de eventos como palestras, gigs (expressão idiomática inglesa que significa "show" ou "festival", utilizada na cultura alternativa britânica e que foi adotada por alguns punks brasileiros), passeatas, panfletagens e sistemas de boletins-noticiários".

O Heron Heinz, guitarrista da banda "Os Replicantes", me disse que na sua última excursão pela Europa, em 2006, ficou impressionado com a organização dos punks vegan, que não consomem carne, são contra qualquer tipo de sofrimento animal e ainda fazem um trabalho social importante. Eles visitam regularmente supermercados e restaurantes, arrecadando alimentos não usados, cujo prazo de validade esteja para expirar, e preparando refeições balanceadas que são vendidas a preço simbólico a todos que por falta de recursos finaceiros não tenham condições de se alimentar adequadamente.

É curioso o delineamento da figura do punk (quase-herói à margem das irracionalidades do sistema?; não sei; não vou a tanto), principalmente se encartarmos enfoques sobre o que é ou não marginal. O que não está nos padrões do centro também é bom, e o aparente trai quando se vale das facilidades de um determinado código (de acesso e pivilégios).

E nosso é o problema histórico de não desconfiar, sabatinar, cobrar de tudo que esteja, digamos, por cima, assim, arrumadinho. Ofender-se depois é fácil.

Paulo Scott, escritor e professor universitário, criou os projetos PóQUET: ruído & literatura e Na TáBUA , combinando a partir da literatura outras mídias.


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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