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Quinta, 11 de janeiro de 2007, 07h54

Uma primeira-dama inconveniente

Koji Sasahara/AP
Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês, e a primeira-dama Akie acenam no aeroporto de Tóquio ao embarcar para a Europa
Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês, e a primeira-dama Akie acenam no aeroporto de Tóquio ao embarcar para a Europa

Any Bourrier

Shinzo Abe, que assumiu no final do ano passado o cargo de primeiro-ministro do Japão, veio à Europa pedir ajuda. Quer que os europeus apóiem a candidatura de seu país, que está de olho numa vaga de prestígio nas Nações Unidas. O Japão quer entrar para o clube seleto dos membros permanentes do Conselho de Segurança.

Para obter o voto do bloco europeu, Abe foi a Bruxelas, oferecer serviço ao alto escalão da Aliança Atlântica assegurando que o Japão quer ter um papel de peso no cenário internacional e está disposto a bancar operações militares para a manutenção da paz.

Também marcou encontro com presidentes e primeiros-ministros da França, da Alemanha e da Inglaterra. Para provar o quanto dá importância ao peso da Europa em suas negociações com a ONU, em vez de agendar sua primeira viagem importante ao Ocidente indo pedir as bençãos de Washigton, preferiu começar pelo velho continente.

Mas a atração não é o convencional herdeiro de uma dinastia política japonesa. É a esposa Akie. Uma senhora cujo consumo de bebidas alcoólicas é assunto dos jornais populares, das revistas femininas e dos tablóides que correm atrás de gente chique e famosa.

Akie é uma gracinha. Já foi fotografada com serpentes vivas em torno do pescoço, pinta os cabelos de castanho claro, não gosta de usar o tradicional quimono e não tem papas na língua. Embora tenha nascido num berço de ouro - é filha do presidente da firma Morinaga, um conglomerado que tem o monopólio da produção de balas e bombons no Japão - é simples e descontraída.

Casou-se aos 25 anos com Shinzo Abe, um dos políticos do Partido Liberal Democrata mais apegados à tradição e aos valores ancestrais do país do sol nascente. O casamento não mudou muito o ritmo de vida da moça que adorava discotecas - chegou a ser disc-jockey numa rádio de Yamaguchi, o feudo eleitoral de Abe - e só abriu mão da profissão de publicitária na agência Dentsu, uma das mais cotadas de Tóquio, depois que se tornou primeira-dama.

No início da carreira do político que se tornaria o mais jovem primeiro-ministro do Japão desde o final da segunda guerra mundial, Akie foi um trunfo para o marido por causa de sua simpatia, da facilidade com que se relacionava com eleitores ou com os políticos do PLD, um partido muito conservador.

Aos poucos, porém, tornou-se famosa por derrubar mais copos que os velhos caciques do partido. De onde sua fama de apreciar as boas garrafas. Os amigos afirmam que Akie é apenas uma aficionada em enologia, que sua paixão são os bons vinhos franceses e que as críticas não se justificam.

"A tradição manda que as japonesas sejam dóceis e submissas. Mas a juventude rejeita estes valores e quer mais liberdade, mais individualismo. Akie Abe é o reflexo das novas tendências em matéria de comportamento" comentam seus admiradores.

Akie Abe não se incomoda com as críticas e julga que para ser uma boa esposa é preciso ser uma mulher moderna. Sua influência é forte e o marido não toma decisão sem antes conversar com ela. Akie se esforça para que Shinzo deixe de ser tão sério, tão rígido e, sobretudo, tão machista.

As feministas japonesas têm às vezes ganas de estrangulá-lo por causa de suas opiniões retrógadas sobre a situação da mulher na sociedade ou sobre a revisão da Constituição para que uma pessoa do sexo feminino possa reinar. Há mais de 300 anos que só homens podem ser imperadores do Japão. Quando o ex-primeiro-ministro Koizumi quis emendar a Constituição para que a filha do príncipe herdeiro Naruhito pudesse ser um dia imperatriz, Shinzo Abe foi contra.

O problema acabou sendo resolvido com o nascimento do primeiro descendente masculino. Dia 6 de setembro, a princesa Kiko, nora do imperador Akihito, teve um filho, que foi imediatamente classificado em terceiro lugar na linha sucessoria, depois de seu pai Akishino e do tio, o príncipe herdeiro Naruhito. Terminava assim uma crise que fez tremer nos alicerces a mais velha dinastia do mundo.

Voltando à Akie Abe, sua atração pelas bebidas com forte teor alcoólico virou um problema para a diplomacia japonesa. Seu consumo de 12 copinhos de "maotai" - a aguardente de arroz que ultrapassa os 53 graus, servida durante o banquete oferecido ao casal em Pequim, quando visitaram a China no ano passado - provocou um grande escândalo que a imprensa não quis deixar passar em branco.

Desde então, a primeira-dama japonesa só viaja acompanhada por uma equipe de diplomatas particularmente exigentes no que diz respeito ao protocolo. A turnê européia do casal também foi preparada com muita cautela para evitar que a extravagante Akie faça das suas. Mas os chefes de protocolo que organizaram os banquetes para Shinzo e Akie Abe fizeram questão de avisar: se ela pedir mais bebida, não poderemos recusar porque seria contrário ao protocolo.


Any Bourrier, jornalista especialista em assuntos internacionais, cobre Europa e Ásia para as imprensas européia e brasileira. Vive em Paris e é editorialista no departamento de Ásia e Pacífico da Rádio França Internacional.

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