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Nos diálogos, os sócios comemoram a obtenção de uma decisão favorável no Supremo Tribunal Federal envolvendo o Banese (Banco do Estado de Sergipe). De acordo com o relatório, as conversas indicam o pagamento de propina e de "compra de sentença" no caso.
A sentença foi dada em 6 de setembro de 2006 pelo ministro Sepúlveda Pertence. Em diálogo gravado no dia 8 de setembro, Nivaldo de Oliveira, um dos sócios da GDN, fala sobre a decisão favorável do STF e elogia Chafic Chiquie Borges por seu papel no caso: "Vossa Excelência é brilhante por excelência. Eu não sei onde você conseguiu tanta competência em seus relacionamentos".
Chafic Borges é, segundo o relatório, quem apresentou Nivaldo de Oliveira ao advogado Luis Fernando Severo Batista, supostamente articulador de um esquema de "lobby" junto aos tribunais superiores que garantiria decisões jurídicas favoráveis a seus clientes. Batista é também apontado, nas investigações da PF, como suspeito de articular um suposto esquema de fraude tributária que beneficiaria empresas ligadas ao crime organizado.
A seguir, uma das dezenas de conversas gravadas pela PF. Os envolvidos no diálogo são:
Alexandre Henrique Zarzur - sócio da GDN
Gabriela Damato Neto - sócio da GDN
Luís Fernando Severo Batista - advogado da GDN
Gabriel: Oi, Alexandre, tudo bem?
Alexandre: Tudo bem, e você?
(...)
Gabriel: Eu tô sabendo do que aconteceu lá, resta saber o que é.
Alexandre: Então, é isso aí mesmo.
Gabriel: (...) Eu conversei com o Luís Fernando.
Alexandre: Ah, ele tá comigo agora tomando um café na Ofner.
Gabriel: Ué, ele não está no haras dele?
Alexandre: Ele já voltou.
Gabriel: Deixa eu falar com ele, então.
Luís Fernando: Fala, bonitão.
Gabriel: Eu pensei que você estava no haras.
Luís Fernando: Voltei, tive um problema com a minha ex-esposa. (...)
Aproveitei e chamei nosso amigo pra botar ele na linha, senão começa a comemorar, a telefonar, entende?
Gabriel: Deixa eu te fazer uma pergunta. Eu olhei lá o que saiu, deu provimento parcial. Isso é exatamente a mesma decisão que ele deu na liminar, entendeu?
Luís Fernando: Foi a mesma decisão da liminar.
Gabriel: Ali não cabe recurso?
Luís Fernando: Não, não tem instância nenhuma.
Gabriel: Porque ali ele fala...
Luís Fernando: Já julgou, o negócio da liminar acabou com o julgamento do mérito da ação principal, já acabou tudo.
Gabriel: Então nós precisamos sentar na segunda, porque eu já marquei na terça-feira de estar lá com o secretário (Nota da Redação: o então secretário da Fazenda de Sergipe).
Luís Fernando: Não, eu acho que terça-feira é tarde, terça-feira já tem gente me chamando de filho da puta. É verdade. Uma insegurança natural, porque acabou a atividade dele, entendeu, Gabriel?
Gabriel: Sei, sei.
Luís Fernando: Fica muito, muito apreensivo. Então vamos ver se amanhã a gente conversa qualquer coisa, se precisar vamos antes. Tudo bem?
Gabriel: Tudo bem.
A seguir, comentários e análises dos responsáveis pela investigação sobre o diálogo acima:
"Alexandre Henrique Miola Zarzur, Luís Fernando Garcia Severo Batista e Gabriel conversam sobre as decisões favoráveis ao Banco do Estado de Sergipe SA - Banese, cliente da GDN consultores associados Ltda na ação cautelar nº 1.355 e no recurso extraordinário nº 505071, julgados pelo ministro Sepúlveda Pertence nos dias 5 e 6 de setembro de 2006, respectivamente. No diálogo, Luís Fernando explica a Gabriel que a decisao do recurso extraordinário não é um mero provimento liminar, diz que 'já julgou, o negócio da liminar acabou com o julgamento do mérito da ação principal, já acabou tudo'. Gabriel diz que marcou 'terça-feira de estar lá com o secretário', referindo-se ao secretário de Estado da Fazenda de Sergipe. Neste momento, Luís Fernando retruca e dizendo que 'terça-feira é tarde, terça-feira já tem gente me chamando de filho da puta'. Luís Fernando refere-se à necessidade de que o pagamento dos 'honorários' pelo êxito nas ações judiciais seja imediato, não podendo esperar até terça-feira. Observe-se que Luís Fernando justifica a necessidade de pagamento imediato referindo-se a uma terceira pessoa: 'É verdade. Uma insegurança natural, porque acabou a atividade dele, entendeu, Gabriel?'... Fica muito, muito apreensivo??? Trata-se do primeiro indício de que as decisões judiciais proferidas na ação cautelar e no recurso extraordinário foram 'negociadas', ao menos no que se refere à sua celeridade, com o próprio ministro Sepúlveda Pertence e/ou seus assessores jurídicos."