
Paulo Scott
Não precisa ser nenhum gênio para entender, de um lado, a razão da enorme mobilidade do capital e, do outro, as tantas restrições que existem e impedem o trânsito dos trabalhadores mundo afora.Pois bem, um jovem economista inglês chamado Philippe Legrain vem questionando essas restrições e despertando atenção geral como há tempo não se via.
Em pouco mais de trinta dias seu nome passou a ser dos mais comentados pelas revistas de economia do mundo todo e pelos especialistas em problemas de imigração. O motivo concreto disso tudo foi o lançamento (e o impacto estrondoso) do seu livro intitulado "Immigrants: Your Country Needs Them" (Imigrantes: o seu país precisa deles). A abordagem avança com bastante consistência sobre os benefícios da liberdade de circulação do trabalhador, explorando as vantagens econômicas da imigração. Não foi à toa que recebeu resenha (até certo ponto elogiosa) na edição desta semana da revista "The Economist".
A base da sua análise toma como referência a realidade britânica e o fato inegável de que a participação dos imigrantes de fato auxiliou no crescimento econômico da Inglaterra ao longo da segunda metade do século passado; mas sua abordagem, como um todo, destaca a realidade que é de todos os países ricos e envolve a superação necessária do abismo que há entre riqueza e pobreza.
A maioria esmagadora das pessoas nascerá, crescerá e trabalhará na sua terra natal, por vontade própria ou porque estará impedida de pretender destino diverso. Quando terminei a faculdade em 1988, fui estudar em Londres e lembro bem da sensação de quase claustrofobia por imaginar que muitas das pessoas que eu conhecia jamais sairiam sequer do Rio Grande do Sul.
Sei da riqueza que só é possível encontrar em uma cidade cosmopolita, sei das vantagens e desvantagens que é ser estrangeiro em uma cidade dessas. Na época, aquele final de anos oitenta, eu dizia que o presente só era possível nas cidades cosmopolitas (naquele tempo não havia Internet e mesmo computador pessoal era coisa rara) e que não queria viver no passado (viver no passado era ficar no Brasil).
Nos debates que se sucedem a partir do livro do Legrain fica muito clara a conexão que há entre as idéias de liberdade e responsabilidade - lembro, a propósito, de um artigo do Ivan Lessa que li na penúltima Piauí -, ficam muito claras as necessidades de controle racional e destemor. Esse aprimoramento genético que nos faz recear diante do que é diferente nos expurga do futuro (não, não quero falar do peso da religião); mas o temor também é lógica econômica. Nisso, eu acho (no plano da retórica), o autor se aproxima do brilhantismo.
É a grande defesa da globalização.
Todos já sabem da minha simpatia em relação aos que abrem caminho e não ficam apenas com suas ranzinzas regando as certezas de épocas tantas de um mundo que já foi (há os que chamam isso de hombridade); tal trânsito livre parece absurdo (e é), mas o que é a desigualdade enorme hoje no mundo? Juro que não falarei de novo na África.
O autor aposta na diversidade (algo que é possível em São Paulo?) e como bom liberal aposta na superação dos obstáculos à liberdade. "O imigrante é aquele capaz de querer uma vida melhor", ele diz. Não deve ser mais do que a movimentação dos trabalhadores dentro do seu próprio país.
E como ficam os imigrantes sem habilidades, sem capacidade de contribuir? Não há como escapar do rigor e dos critérios, mas Legrain tem suas respostas. Curioso que trabalhadores que emigraram do seu país para outro fazem mais por sua terra natal (quantitativamente falando) do que qualquer programa assistencial ou investimentos filantrópicos (sempre sujeitos a algum abalo logístico advindo da corrupção).
O autor se apóia na idéia de que os imigrantes naturalmente tendem a voltar ao seu país de origem e isso, quando não ocorrer, deve ser garantido com alguma forma de controle. Há aqui sem dúvida uma fragilidade relevante, pois as vantagens do novo país serão possivelmente muito maiores.
Em termo de justiça e igualdade, o trânsito dos trabalhadores seria mesmo o próximo passo. O autor consegue dar um passo ousado; e globalização não seja só um blefe, palavra de entretenimento.
Veja mais nos sites abaixo:
http://www.philippelegrain.com/
http://www.youtube.com/watch?v=CBLzHbpA98s&eurl=%20;
http://www.youtube.com/watch?v=OFg7wVETAjk&NR
http://www.youtube.com/watch?v=0DVs25ejP3Q&NR
http://www.youtube.com/watch?v=RRHhR4ba0lE&mode=related&search=
Terra Magazine