
Paulo Scott
Por volta de 1980, ao ver uma pizza cortada, Toru Iwatani teve a idéia que resultaria num dos jogos eletrônicos mais famosos e populares de todos os tempos: o pac-man. A estratégia é bem simples: o jogador é uma cabeça amarela redonda com uma boca que abre e fecha, circulando pelos corredores estreitos de um labirinto repleto de pastilhas enquanto é perseguido por quatro fantasmas. O propósito é comer todas as pastilhas sem ser alcançado pelos fantasmas, que, se o tocarem, o destróem.Não tenho exatamente bem claro, mas esse jogo singelo recorrentemente me vem à cabeça quando relaciono algo ou alguém que me pareça demasiadamente impulsivo (ou aja sob improviso).
Ontem, tive o cuidado de ler com calma a apresentação de 102 páginas do Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC, lançado pelo Governo Federal. É muito estardalhaço para medidas tão incompletas e pouco discutidas. Não existe plano sem discussão ampla. Criar comitês, grupos, fóruns (e eles estão lá, é só conferir) é a prova dessa pressa, dessa incompletude, porque são realidades anteriores.
Afinal, este é um governo reeleito e as desculpas já não podem ser tão facilmente as mesmas.
Fala-se tanto em administração concertada (não, eu não redigi errado, é concertada mesmo), que possa integrar variadas perspectivas sociais. Ainda assim, edita-se um plano de estratégias de cima para baixo, com direito a pitacos de última hora do presidente para que as medidas fossem mais ousadas, que fugissem da mesmice.
Sei que a iniciativa tem méritos, sei que várias das matérias que o compõem terão de ser submetidas ao Congresso, sei o quanto era importante apresentá-las ainda neste mês de janeiro, sei que governo nenhum, na história brasileira, teve tanto apoio para uma proposta geral de crescimento dessa magnitude; mas consigo antever, nos moldes em que o plano está, a continuidade de problemas estruturais antigos com força suficiente para emperrar vários dos resultados positivos que eventualmente se possa ter.
Para fugir um pouco da já notória falta de enfrentamento da carga tributária excessiva, quero destacar dois aspectos que me parecem bastante preocupantes: a flexibilização da lei de responsabilidade fiscal e a falta de ações de aperfeiçoamento dos critérios de afirmação e avaliação da eficiência na Administração Pública.
Quem já trabalhou em cargo de direção no setor público sabe muito bem do que eu estou falando. Um plano desses, com tópicos mirabolantes, só é impressionante no papel ou, quando muito, sob a hipnótica promessa de aumento dos gastos. Gastar não é o problema, o problema é a ordem e a racionalidade que não se consegue implantar.
O governo blefa - ora, planejar, anunciar um plano acabado, efetivo, é muito mais do que o visto ontem - e todos sabem disso, mas todos (cada um por seus motivos particulares) estão amarrados em suas próprias últimas esperanças e não querem dizer, não querem se expor.
Além do que, temos um carnaval pela frente; depois a gente pensa alguma coisa enquanto cura a ressaca.
Terra Magazine