Terra Magazine

 

Quarta, 24 de janeiro de 2007, 07h56

A sobrevida da alta costura

Maria Alice Rocha

Quem pensou em dar uma relaxada no pequeno intervalo entre o encerramento do Fashion Rio e o início do São Paulo Fashion Week, não conseguiu. Certamente, quem tem o olho vidrado na moda foi bater em Paris, onde desde segunda feira (22) acontecem os lançamentos das coleções de alta costura para a Primavera-Verão 2007. Explicando melhor, roupas nas vitrines daqui há 2 meses e verão oficial em meados de junho, no hemisfério norte.

É verdade que o calendário de lançamento da alta costura soa estranho e fora do tempo, se comparado com a temporada dos lançamentos para o Outono-Inverno 2007-08 já iniciada em Milão (com a moda masculina), e em breve tomando grandes espaços da mídia em Londres, Paris e Nova Iorque.

Mas, diferentemente do Prêt-a-Porter (literalmente pronto para vestir, em francês), a alta costura tem objetivos, estratégias e sistemas de produção distintos, além de regras específicas, calendários e razões de existir.

Em primeiro lugar o termo Haute Couture (alta costura em francês) é restrito a um número controladíssimo de profissionais, que são regidos pela Chambre Syndical de la Haute Couture (Câmara Sindical da Alta Costura, que existe desde 1868), que por sua vez faz parte da Fédération Française de la Couture, du Prêt-à-Porter e des Créateurs de Mode (Federação Francesa da Costura, do Pronto para Vestir e dos Criadores de Moda).

No caso da alta costura, um dos maiores objetivos é dar a maior visibilidade possível a Paris como a capital mundial da moda. E para isso, vários esforços e um plano de ação vem sendo implementado, com apoio governamental, no meio de um espaço altamente competitivo.

As roupas desfiladas, se do agrado da clientela, são reproduzidas sob medida e com número restrito de exemplares e preços exorbitantes. Mas, a grande sacada da alta costura ainda é ser incompreendida pelo grande público. Via de regra, são nestes desfiles que aparecem os resultados de pesquisas de laboratório, de novas fibras, texturas, acabamentos e garantem a sobrevivência de um grupo de artesãos, altamente qualificados, para fazer o contraponto com a produção massificada e industrializada. São nestes desfiles que a chama do desejo de um produto quase inatingível se renova.

Para a economia francesa, não é prioritariamente importante a venda dos produtos em si, mas da imagem do país e da capital, que gera uma infinidade de negócios paralelos na carona da fama de "elegância com criatividade". Acessórios e cosméticos, como bolsas, sapatos, bijuterias, perfumes e maquiagem, são o que dá sustentabilidade a esse negócio.

Nesta temporada, considerando os necessários e onerosos orçamentos, o número de maisons (casas em francês, mas neste contexto significando ateliês) dispostas a investir foram poucas. Somente dez são os nomes tradicionalmente franceses: Adeline André, Chanel, Christian Dior, Christian Lacroix, Dominique Sirop, Emanuel Ungaro, Franck Sorbier, Givenchy, Jean Paul Gaultier e Jean-Louis Scherrer.

Com a aposentadoria ou morte da maioria dos profissionais que davam seu nome às casas, a maioria das grandes marcas da moda francesa estão nas mãos de poucos grupos, os verdadeiros impérios do luxo mundial. Frequentemente, vê-se um nome emergente ser vinculado ou desvinculado à uma marca como diretor criativo, diretor de arte, etc, dependendo muito mais das cifras do que do talento.

A Federação de Moda Francesa, para não ver o seu espaço minguar na mídia, já há algumas temporadas tem recebido ¿membros corrrespondentes" de outra praças, como Valentino e Giorgio Armani, ambos da Itália. Mas os holofotes desta edição, até agora, foram para um outro nome: Elie Saab, do Líbano.

Como moda e política internacional também podem ter suas ligações, a França, que condenou o ataque israelense ao Líbano há poucos meses atrás, e declaradamente votou contra a invasão norte-americana ao Iraque, parece ter adotado Elie Saab como uma estratégia de reerguer a auto estima dos libaneses e árabes em geral.

Do seu ateliê em Beirute saem vestidos para as princesas dos Emirados Árabes, e uma de suas mais famosas clientes é a elegante Rainha Rânia da Jordânia, além é claro, de nomes estrelados como Catherine Zeta-Jones, Beyoncé e Halle Berry. Por outro lado, a alta costura tem no Oriente Médio uma clientela cativa.

A Federação ainda criou uma nova categoria de associados, os "membros convidados", com o direito de terem seus lançamentos vinculados à semana da alta costura de Paris. Foi uma maneira inteligente de atrair os desfiles paralelos, minimizando a concorrência e reforçando o conceito de autenticidade e inclusão global. Dentre os mais esperados convidados, há nomes como Anne-Valérie Hash, Boudicca, Lefranc.Ferrant, Maison Martin Margiela, Maurizio Galante e o brasileiro radicado em Paris, Gustavo Lins, que apresentou nesta terça feira (23) um desfile estático na galeria Joyce.

Uma tendência já ficou clara nesta edição de lançamentos: a rigidez está dando lugar à flexibilidade. Valentino e Christian Lacroix apresentam o mesmo desfile duas vezes consecutivas, solucionando o problema frequente de superlotação nas salas. O efêmero já ser replicado.

Por outro lado, os contrastes também são lugar comum. No primeiro dia, pôde-se observar os curtos vestidos brancos de Valentino inspirados nos anos 60; a gama de reluzentes longos cinzas de Elie Saab que remetem às cores da madrugada em Beirute; e as coloridas, rebuscadas e volumosas criações de John Galliano para Christian Dior, baseados na estética japonesa e na peça Madame Butterfly. E o espetáculo continua.


Maria Alice Rocha é doutoranda em moda na University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.
 

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