
Daniel Bramatti e Felipe Corazza Barreto
As projeções do Greenpeace sobre o uso de energia elétrica no Brasil até 2050 indicam que, mesmo no melhor dos cenários, a participação das fontes renováveis deve cair, em termos proporcionais. Isso porque, com o tempo, a geração de energia por hidrelétricas crescerá menos que a de outras alternativas.
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Atualmente, segundo dados do Ministério de Minas e Energia, nada menos que 89% da energia produzida no país é renovável - ou seja, não está baseada na exploração de fontes finitas, como combustíveis fósseis. Com a "revolução energética" pregada pelo Greenpeace, a geração de energia renovável pode, em volume, quase triplicar até 2050. Ainda assim, em termos proporcionais, sua participação cairia de 89% para 79%.
O atual modelo energético brasileiro é ultraconcentrado no setor hidrelétrico, que produz 85% do total. Outros 4% vem da queima de biomassa. São fontes renováveis e, em tese, neutras em termos de produção de gás carbônico, o "vilão" do aquecimento global (a queima de biomassa produz CO2, mas este é reabsorvido no ciclo de produção, quando as plantas crescem antes de virar combustível). As outras fontes são gás natural (4%), óleo combustível (3%),carvão (2%) e nuclear (2%).
Um dos cenários analisados pelo Greenpeace, o mais conservador, leva em conta as projeções do próprio governo até 2015 - os dados são extrapolados até 2050 para permitir comparações. Nesse caso, a participação das energias renováveis cai de 89% para 50,4% em 43 anos. O setor que mais ganha investimentos e participação na matriz energética é o de gás natural, que passa a responder por 34% do consumo, quase empatando com o hidrelétrico, com 37%. Com a já anunciada construção de nova usinas nucleares, o setor passa a responder por 6%.
O cenário de "revolução energética" do Greenpeace prioriza a exploração da biomassa e da energia eólica, setores que passariam a responder, juntos, por quase metade da produção, e prega o fim das usinas nucleares.
O Greenpeace também prevê o aumento da participação do gás natural, um dos combustíveis menos poluentes, mas também de exploração limitada - as reservas vão acabar em algum momento. A entidade considera que o gás ocupará um papel importante na "transição" do atual para um novo modelo, mas que sua participação tende a cair a partir de 2040 - chegaria a 2050 respondendo por 9% da matriz energética.
A novidade maior na "revolução energética" seria o salto na produção de eletricidade a partir de painéis fotovoltaicos (energia solar), de patamares desprezíveis para 4% do total.
Os números do Greenpeace também dão peso considerável aos ganhos com eficiência energética - em outras palavras, a redução do desperdício. Aparelhos mal regulados ou mal utilizados consomem muito mais do que o necessário, e também há perdas na própria geração e transmissão de energia. Com o tempo, novas tecnologias e aumento da conscientização dos consumidores tendem a reduzir os pontos de ineficiência, avalia a entidade. Outra aposta é no avanço da chamada arquitetura bioclimática em construções, que privilegia iluminação e circulação de ar naturais, reduzindo gastos com luz e refrigeração.
Para viabilizar o crescimento, em volume, da energia renovável, a entidade ambientalista alerta que é necessário tomar decisões técnicas e políticas "imediatamente", já que o setor energético trabalha com ciclos longos de investimento.
O governo brasileiro tem um programa de incentivo à exploração de energia renovável, o Proinfa. Para o Greenpeace, porém, a iniciativa é tímida e insuficiente (leia aqui).
Ao fazer as projeções sobre o caso brasileiro, o Greenpeace contou com a assessoria da USP (Universidade de São Paulo), por meio do GEPEA (Grupo de Energia do Departamento de Energia e Automação Elétricas). O GEPEA foi responsável pela execução das modelagens e pela supervisão técnica dos trabalhos.
As simulações levaram em conta um crescimento médio do PIB de 3,2% ao ano até 2050 e um crescimento populacional de 0,5% ao ano entre 2030 e 2040 e de 0,3% ao ano depois disso. Com isso, o Brasil chegaria a 2050 com 260 milhões de habitantes.
Terra Magazine
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