
Roberto de Sousa Causo
O sucesso de O Senhor dos Anéis, mesmo antes da trilogia cinematográfica de Peter Jackson, abriu as portas para toda uma gama de publicações de e a respeito de J. R. R. Tolkien. É bom lembrar, porém, que o sucesso internacional desse autor já era uma realidade, com reflexos no Brasil, desde a década de 1960.
Ronald Kyrmse, tradutor de O Dom da Amizade e de Sobre Histórias de Fadas, que resenhamos esta semana, já havia trazido parte do "fandom tolkieniano" ao Brasil, com a fundação do capítulo brasileiro da "Tolkien Society" (http://www.jrrtolkien.com.br/stb/), grupo internacional de fãs e estudiosos do autor, de sua literatura e das línguas fictícias que ele criou. Estabelecido como especialista brasileiro em Tolkien, Kyrmse tem estado muito ativo como consultor editorial e agora como tradutor de obras relacionadas.
No rastro da "tolkienmania" e agora da primeira adaptação cinematográfica de um de seus romances de fantasia para crianças, O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa, C. S. Lewis também tem recebido atenção maior de nosso mercado editorial.
As duas tendências se encontram neste livro de Colin Duriez, autor de outras obras a respeito deles, como Tolkien and The Lord of the Rings e A Field Guide to Narnia. Este último foi publicado aqui pela Novo Século em 2005, como Manual Prático de Nárnia.
A fim de deixar claro que nem Tolkien nem Lewis teriam o impacto que tiveram, sem a amizade que os uniu em 1926 - logo após a chegada de Lewis a Oxford, onde Tolkien já trabalhava desde 1921 -, Duriez na verdade escreve a biografia dos dois fantasistas.
Tolkien nasceu em 3 de janeiro de 1892, em Bloenfontein, África do Sul, filho de um funcionário imperial inglês. Em abril de 1895 ele, a mãe o irmão Hilary partem para a Inglaterra, porque o pequeno Tolkien não suportava o clima africano. Lewis nasceu em 29 de novembro de 1898, em Belfast, Irlanda. Os dois foram crianças imaginativas, e quando jovens - já perseguindo carreiras acadêmicas - serviram na I Guerra Mundial, e no mesmo teatro de combate, com um ano de diferença. Os dois gravitaram até Oxford, onde encontraram os elementos formadores de uma postura intelectual e existencial que os levaria a escrever o tipo de fantasia que escreveram.
Um dos pontos interessantes do livro é o modo como ele caracteriza o isolamento de Oxford em relação à Universidade de Cambridge, à Europa continental ou à América, como um fator na formação de uma filosofia local que influenciaria os dois amigos: "A filosofia de Oxford, como a encontramos nos primeiros anos do século 20, era completamente consangüínea.(...)A doutrina tradicional era o idealismo hegeliano. Em muitas mentes o idealismo estava ligado ao cristianismo ou a opiniões espirituais que se opunham a um naturalismo em rápida expansão...".
Se os idealistas afirmavam que as coisas do mundo não possuíam existência separada de uma mente consciente delas, e que a mente divina e a humana tinham "semelhanças fundamentais", fica clara a relação com a visão de Tolkien de que o escritor é um "subcriador", e que a narrativa por ele criada converge para o mito divino presente na existência humana. A filosofia oxfordiana casava-se perfeitamente com a crença católica que Tolkien nutria desde criança, quando sua família foi acolhida pela Igreja, quando passava necessidades.
Lewis, por sua vez, chegou a Oxford ainda ateu, mas foi sendo paulatinamente convertido por Tolkien e outras influências. Para ele foi importante recuperar o sentimento do numinoso experimentado quando criança, mas sua exploração da religiosidade tinha um alcance mais amplo e mais intelectual que o de Tolkien. O livro de Duriez, como não poderia deixar de ser, dedica muita atenção a seus escritos de teologia popular - um dos aspectos em que ele e Tolkien diferiam. Lewis também escolheu, para o desencanto do amigo, retomar o presbiterianismo de sua infância quando abandonou o ateísmo.
Duriez observa que a "Idade Média proporciona a chave e o arcabouço dos pensamentos e da ficção de Lewis, exatamente como ocorre com Tolkien". Para este, língua e literatura não poderiam andar separadas nos estudos universitários, e ele militou por isso em Oxford. Lewis, como acadêmico, ajudou a recuperar a crítica literária historiográfica, com obras como The Allegory of Love, de 1936, e em English Literature in the Sixteenth Century (1954).
Uma de suas noções mais polêmicas é a de que não teria havido uma Renascença de fato - noção recentemente reafirmada por Edward Harrison em Masks of the Universe (2003). Lewis também advogou pela mudança de enfoque da crítica, saindo da biografia e da subjetividade do autor, e indo para o texto e as formas de leitura, no que, segundo Duriez, ele teria se aproximado das idéias do New Criticism. An Experiment in Criticism (1961), de Lewis, trata desse tema.
Uma de suas idéias mais atraentes para mim é a do "esnobismo cronológico": "A aceitação acrítica do ambiente intelectual comum à nossa época e a suposição de que tudo aquilo que ficou desatualizado é por isso mesmo desprezível. É preciso descobrir por que tal coisa se desatualizou. Será que chegou a ser refutada (e, em caso afirmativo, por quem, onde e até que ponto?), ou meramente morreu, como fazem as modas?
Se esta última alternativa é a verdadeira, então nada temos sobre a sua veracidade ou falsidade. Ao nos darmos conta disso, passamos à percepção de que nossa própria época é "um período", e certamente tem, como todos os períodos, suas próprias ilusões características. Estas provavelmente espreitam naquelas suposições largamente aceitas, que, de tão arraigadas na época, ninguém ousa atacar nem sente necessidade de defender".
Excelente argumento, que nos força a relativizar tanto o passado quanto o presente. Expressa apenas uma face do anti-modernismo de Lewis e Tolkien, bastante explícito e constante, na visão de Duriez.
Tolkien, por sua vez, tratou melhor da força do mito na literatura, em ensaios como "Sobre Histórias de Fadas" e "The Monster and the Critics", textos que freqüentemente assumem uma qualidade poética.
Se Tolkien e Lewis se encontravam em muitos aspectos, como o interesse pela fantasia como gênero adulto (algo que o mercado editorial brasileiro e nosso meio acadêmico aparentemente ainda não absorveram), a religiosidade encontrada na narrativa romanesca e a disposição antimodernista, em outros eles diferiam bastante. Tolkien era discreto e escrevia devagar, Lewis era expansivo e prolífico. Tolkien dirigia sua religiosidade para a subcriação, enquanto Lewis também buscou a tribuna pública (irritando o amigo). Meticuloso, Tolkien se desagradava com a escrita rápida e alegórica das Crônicas de Nárnia.
Duriez lança luz sobre todo o processo criativo dos dois escritores, e de como o seu constante diálogo influenciava a produção literária de ambos. Ao que parece, tanto O Senhor dos Anéis, de Tolkien, quanto a trilogia de ficção científica Ransom, de Lewis, surgiram de um desafio assumido por ambos e decidido no cara-ou-coroa: Tolkien escreveria uma obra romanesca "viajando" no tempo, e Lewis no espaço. O resultado causou impacto nos dois grandes campos da literatura imaginativa do século 20, a fantasia e a ficção científica (Kyrmse desconhece a edição das Edições GRD de Além do Planeta Silencioso, o clássico da FC de Lewis e primeiro volume da trilogia, publicado aqui em 1958).
Como Duriez escreve uma dupla biografia, é impossível não comparar o seu livro ao de Humphrey Carpenter, The Inklings: C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien, Charles Williams and their Friends, resenhado aqui em 29 de julho de 2006. Os dois livros freqüentemente cobrem o mesmo território. O de Carpenter é mais denso e satisfatório em termos acadêmicos, mas Duriez é menos receptivo às posições dos dois autores, e por isso o programa literário deles emerge com maior clareza.
Além de conter, como apêndice, uma cronologia dos dois biografados, Duriez escreve um segundo apêndice em que tenta explicar a popularidade duradoura das duas figuras. O seu livro enfatiza que nem Lewis nem Tolkien teriam tido o impacto que tiveram, não fosse a interação da amizade. Ele distingue o fato de que Tolkien, que sempre soube o que queria, se beneficiou do incentivo dado por Lewis, enquanto este foi diretamente influenciado por Tolkien, embora nem sempre se atendo ao que o amigo vislumbrava.
Faltou a esta edição uma revisão um pouco mais cuidadosa - e um índice remissivo, já que é um livro que deve interessar não apenas aos cultos respectivos em torno dos dois autores. De suas páginas emerge a noção de que fantasia e ficção científica, tantas vezes chamados de gêneros comerciais e escapistas, podem possuir um programa literário complexo e intelectualmente amadurecido.
FC e fantasia herdaram o preconceito atribuído à literatura infanto-juvenil, e durante suas vidas Tolkien e Lewis pelejaram para que o conto de fadas pudesse ser lido por adultos, como forma de conexão com a experiência mítica na vida moderna. Que o seu programa literário se confundia com posturas religiosas não deve ser um embaraço a quem deseje abordar esses gêneros como "literatura séria".
Ecos ou continuidades diretas dessas reflexões são facilmente encontrados em nomes de peso da fantasia atual, como Orson Scott Card (também um homem religioso), Stephen King (que escreveu ficção religiosa em obras como A Dança da Morte e Desespero) e Ursula K. Le Guin (em sua ênfase na força do mito).
O Dom da Amizade: Tolkien e C. S. Lewis pode ser importante também aos estudiosos de literatura. É saudável contrapor às idéias modernistas a visão intelectualmente minuciosa dos dois, quanto às insuficiências do movimento literário mais vitorioso do século 20. Lewis e Tolkien e alguns outros perderam a disputa pela prerrogativa literária no Ocidente, mas lutaram o bom combate, e muitas das suas idéias sobre o mito na literatura sobrevivem na fantasia e ficção científica que são escritas hoje.
Leia também:
» 'O Dom da Amizade: Tolkien e C. S. Lewis'
» Drops
Terra Magazine