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Sábado, 27 de janeiro de 2007, 09h32

"Sobre Histórias de Fadas"

Roberto de Sousa Causo

Neste curto mas simpático livro, elegantemente composto, estão um longo ensaio baseado em conferência que Tolkien deu em 8 de março 1939, após um longo tempo de reflexão, e a noveleta "Folha por Niggle". Existe uma versão do mesmo livro, que inclui o poema de Tolkien, "Mythopoeia". Teria sido ótimo se a Conrad o tivesse incluído neste volume, mesmo porque O Dom da Amizade: Tolkien e C. S. Lewis, em várias passagens o menciona como presente em Tree and Leaf.

Como o título em inglês sugere, "árvore e folha", o ensaio e a noveleta são complementares dentro de um encadeamento de idéias que formam o que chamaríamos de "programa literário" de Tolkien, tornando o livro outro título obrigatório aos seus fãs e cultores.

O que o ensaio "Sobre Histórias de Fadas" traz ao cultor de Tolkien e ao apreciador ou pesquisador de literatura de fantasia são as suas idéias ou ideais com respeito ao gênero. Se hoje a fantasia é um gênero de grande apelo comercial, atraindo autores que simplesmente mergulham sua pena nas mesmas águas desbravadas por Tolkien, o fato é que por traz da alta fantasia criada por ele havia um programa literário profundamente pessoal e amadurecido.

A expressão "Faery", de "faery tales" ou contos de fadas, se refere mais ao que Kyrmse bem aludiu ao traduzi-la como "o Belo Reino", do que à presença de fadas na imagem tradicional de moças minúsculas com asas de libélula.

O Belo Reino é um espaço mágico, que se cruza com ou se torna acessível ao nosso, em situações especiais. Tolkien analisa as acepções e o alcance do termo dentro do movimento dos séculos 19 e 20 de recuperação desse tipo de narrativa, dando vazão à sua veia filológica.

Menciona os compiladores Andrew Lang e Charles Perrault, e de modo caracteristicamente britânico reclama de que "se pedíssemos a uma pessoa para citar ao acaso um típico 'conto de fadas', suponho que ela muito provavelmente ainda mencionaria uma daquelas coisas francesas, como O Gato de Botas, Cinderela ou Chapeuzinho Vermelho".

Reclama de uma infantilização dos contos de fadas a partir dessas compilações, e observa que "é essencial à história de fadas genuína, que ela seja apresentada como 'verdadeira'. ... Visto que a história de fadas trata de 'maravilhas', ela não pode tolerar qualquer moldura ou maquinaria que dê a entender que toda narrativa em que ocorrem é uma ficção ou ilusão".

Numa penada, exclui tanto a ilogicidade recorrente na literatura infantil, quanto a fabulação pós-modernista. Esse efeito só pode ser obtido, modernamente, pelo gênero da fantasia, que emprega características da narrativa realista, para dar base sólida à percepção do mágico e do sobrenatural pelo leitor.

Tolkien também ataca a visão folclorista que enxerga narrativas sobreviventes de outros tempos - como Beowulf, sob o qual ele se debruçou em outro ensaio - com notações rasas sobre a progressão de lendas ou arquétipos. "A opinião de Max Müller, a visão da mitologia como 'doença da linguagem', pode ser abandonada sem remorso", escreve. E ainda, "Da mesma forma alguém poderia dizer que o pensamento é uma doença da mente. Estaria mais próximo da verdade dizer que as línguas ... são uma doença da mitologia.

Mas ainda assim a Linguagem não pode ser descartada. A mente encarnada, a língua e o conto são contemporâneos em nosso mundo." Tolkien enxerga na natureza narrativa da linguagem a natureza imaginativa da mente - quase como num rascunho das idéias dos teóricos da "fusão conceitual", como Mark Turner no livro The Literary Mind (1996), que afirma que história (story), projeção e parábola precedem à gramática na mente humana (contrariando Chomsky e outros).

Enfim, Tolkien vai se aproximando do emprego da palavra "fantasia" para o tipo de narrativa mítica da qual trata, e começa a dispor o seu programa literário: "Fazer um Mundo Secundário em relação ao nosso, o Mundo Primário dentro do qual o sol verde seja verossímil, impondo a Crença Secundária, provavelmente exigirá trabalho e reflexão, e certamente demandará uma habilidade especial, uma espécie de destreza élfica." Para ele, a arte literária era a mais passível de alcançar essa "crença secundária" (termo que ele favorecia em detrimento ao consagrado "suspensão da descrença").

As características da fantasia seriam, segundo ele e emaranhadas ao efeito da força do mito na literatura, a recuperação, o escape e o consolo. O primeiro se refere a enxergar as coisas com clareza, vendo-as como "nós devemos vê-las". "Escape", para ele, não tem nada do teor pejorativo, associado a "escapismo" - "Usando o escape dessa forma, os críticos escolheram a palavra errada e, ainda mais, estão confundindo, nem sempre por erro sincero, o Escape do Prisioneiro com a Fuga do Desertor".

Ou seja, o escape é dimensão utópica que liberta o leitor dos limites do pensamento e do comportamento cotidiano, introduzindo a ele possibilidades novas e outros sistemas de valor. Enfim o consolo é a "virada" jubilosa na narrativa, a afirmação do valor da luta e do esforço, mesmo que a história não negue o lado terrível da condição humana.

Tolkien aplica esse esboço teórico aos evangelhos, para sublinhar a relação Criador e Subcriador por ele imaginada. O homem, criado a imagem de Deus, recebe dele o poder de expressar pela arte a força mítica da experiência. Para isso o seu Mundo Secundário deve ter "a consistência interna da Realidade", mesmo tratando de elfos e anões, dragões e feiticeiros. "Mas no reino de Deus a presença do maior não deprecia o pequeno. O Homem redimido ainda é homem. A história e a fantasia ainda prosseguem, e devem prosseguir. O Evangelium não ab-rogou as lendas; ele as consagrou..." Então, ao fim, o ensaio torna-se menos acadêmico e mais elegíaco.

O leitor moderno, porventura avesso ao discurso religioso, ainda pode encontrar em "Sobre Histórias de Fadas" um programa literário passível de ser absorvido em termos puramente literários: O empenho na "criação de mundos mágicos", o contato com sagas e épicos dos quais emergem valores humanos profundos, a raiz mitológica de situações e experiências - para alcançar o efeito literário de uma evocação mítica.

No ensaio, Tolkien fala dessa continuidade de história e fantasia, que "devem prosseguir", como a Árvore dos Contos. De fato, o ensaio nos permite vislumbrar esse grande organismo que se ergue para o alto e do passado para o presente. E Tolkien nos oferece uma folha como exemplo, em "Folha por Niggle", que obviamente deveria aparecer impresso no livro como "Folha, por Niggle".

Essa noveleta foi publicada originalmente no Dublin Review, em 1947, embora tenha sido escrita no mesmo período em que Tolkien idealizava O Senhor dos Anéis. Nela, Mr. Niggle é um pintor que vive em uma vila inglesa (como o Warwichshire rural em que Tolkien viveu quando menino) que não dá valor a essa atividade. Descrito como um resmungão descontente, Niggle o pintor se especializa em folhas. "Tinha alguns quadros já começados. A maioria era grande e ambiciosa demais para sua habilidade."

Ele trabalha em seu magnus-opus, uma vasta paisagem dominada por uma árvore: "Seja como for, vou terminar este quadro, meu verdadeiro quadro, antes de precisar partir nessa infeliz viagem", costumava dizer. Tem dificuldades para terminá-lo não só porque ele não pára de crescer, mas porque Niggle se envolve com "os problemas dos outros". Parish, "seu único vizinho de verdade", é um deles.

Um dia Parish aparece, conta que sua mulher está doente e que o vento arrancou parte do seu telhado. Dá a entender que deseja usar a lona do quadro para reparar seu telhado. Niggle se dispõe a ir à cidade buscar um medito e o empreiteiro. No caminho molha-se e se resfria. Ele só consegue sair da cama cerca de uma semana depois.

Nesse ponto, a história adquire ares kafkianos: aparece um "Inspetor de Casas" que, apesar do seu estado de saúde, diz que Niggle é obrigado por lei a ajudar seu vizinho - mesmo usando a lona do quadro. No mesmo instante surge outro homem, "muito parecido com o Inspetor, quase um sósia", que lhe diz que seu transporte está pronto. Tomado de tonturas e tremores, Niggle desiste, chora e parte no trem.

Vai parar em um lugar em que trabalha muito, recebe ordens médicas para repousar, quando então passa por uma espécie de julgamento em que lhe dado uma espécie de "segunda chance". Novamente por trem ele vai a um lugar diferente deste, mas especial, onde reencontra Parish e se reconcilia com ele. Contar mais do que isto seria entregar a história.

Narrada com leveza e alguma espirituosidade, "Folha por Niggle" é um tanto decepcionante por carecer de força narrativa, de qualidade mítica verdadeira. O mundo secundário está lá, não como uma construção de Tolkien diretamente apresentada ao leitor, mas como uma representação de Niggle. Nesse sentido, o conto é menos folha e mais um ramo, uma miniatura do argumento da árvore dos contos. Vêem-se as pegadas da alegoria por toda parte, quando Tolkien a repudiava como parte da subcriação. O próprio Colin Duriez nota essa contradição, ao comentar a noveleta em O Dom da Amizade: Tolkien e C. S. Lewis.

Nesse sentido, O Senhor dos Anéis continua sendo a melhor "folha" com que Tolkien soube contribuir, à eterna Árvore dos Contos.

Sobre Histórias de Fadas (Tree and Leaf), J. R. R. Tolkien. São Paulo: Conrad Editora, 2006, 118 páginas. Tradução de Ronald Kyrmse.

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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