
Roberto de Sousa Causo
Temos enfim a oportunidade de resenhar um livro "amador" nesta coluna, e um título particularmente adequado aos outros conteúdos desta semana. A premissa da novela de Ana Lúcia Merege O Caçador: Um Conto de Fadas em Mosaico é que o caçador que aparece em "Branca de Neve" e mais tarde em "Chapeuzinho Vermelho" teria tido uma infinidade de aventuras, entre um e outro conto de fadas.
Esse tipo de abordagem recursiva da fantasia é comum no exterior, e a conceituada escritora americana Jane Yolen é quase uma especialista. É claro que o caçador das duas histórias não é necessariamente o mesmo personagem, mas Merege conduz habilmente a uma amarração narrativa que nos faz sorrir diante da idéia.
Depois de entregar o coração do javali como o coração de Branca de Neve, o Caçador é jogado às masmorras pela rainha má. Ele foge, encontra as botas de sete léguas jogadas em um lago, e no seu primeiro passo vai parar na mesma praça em que certo rei estreava a sua nova e escandalosa roupa. Explorado pela família de um alfaiate, o Caçador então se torna segurança de um mercador, testemunha um garoto trocar a vaca da família por um punhado de feijões, tropeça em Cinderela quando ela deixa o baile do Príncipe Encantado, e ajuda um outro a salvar a Bela-Adormecida...
Mais importante do que nos dar um festival de citações à la Shrek, Merege faz da história do Caçador um Bildungsroman, um "romance de formação": Claramente um jovem de caráter e determinação, o Caçador é também emocionalmente imaturo. Sua jornada pelo mundo dos homens, e pelo mundo das feras em que ele parece ser dar melhor, é uma jornada de aprendizado e amadurecimento, culminando com uma terna variação para o final de "Chapeuzinho Vermelho".
Há detalhes deliciosos, como o papel do olfato nos feitos do Caçador. "Quando criança", a autora explica, "meu avô, Jorge Merege, me contava histórias e comprava livros com adaptações de clássicos, livros de aventuras e os indefectíveis Lobato e Malba Tahan". O prazer de narrar está presente em sua novela, que realiza um feito literário substancial ao manter um tom intimista para a jornada do Caçador, e alternando situações com habilidade.
O livro, porém, não está livre de problemas. Uma revisão mais atenta seria necessária, e algumas violações de ponto de vista narrativo (por que será que sou o único que parece se importar com esse elemento técnico?) minam justamente o ponto forte, que é o tom de que falei acima. Falhas no manejo do tempo levam àquela ilogicidade e descuido da composição que parecem tão próprios dos contos de fadas, mas enfraquecem a subcriação, na terminologia de Tolkien.
O subtítulo não parece caber na narrativa linear e escorreita, mesmo que se refira ao encaixe das diversas citações. Com nova revisão e alguma orientação editorial, seria um texto maduro para ser publicado profissionalmente. Por entre o olhar melancólico do Caçador, se entrevê os dolorosos limites da civilização, e as recompensas jubilosas mas exigentes da natureza, até que ele encontre um ponto de equilíbrio. Uma qualidade mítica se faz presente.
Prêmios: O leitor Jacques Barcia nos enviou lista dos romances de ficção científica indicados para o Prêmio Hugo deste ano:
The Thousandfold Thought, R. Scott Bakker
The Road, Cormac McCarthy
The Lies of Locke Lamora, Scott Lynch
Blindsight, Peter Watts
Temeraire or Her Majesty's Dragon, Naomi Novik
Infoquake, David Louis Edelman
Aproveitando, vamos reproduzir a lista dos finalistas do Arthur C. Clarke Award, para melhor romance de ficção científica publicado no Reino Unido. O ganhador receberá 2007 libras esterlinas.
End of the World Blues, Jon Courtenay Grimwood
Nova Swing, M. John Harrison
Oh Pure and Radiant Heart, Lydia Millet
Hav, Jan Morris
Gradisil, Adam Roberts
Streaking, Brian Stableford
Encontro de Fãs: O Clube de Leitores de Ficção Científica anuncia para este sábado, 27 de janeiro a sua primeira reunião social do ano, no lugar habitual, a Presto Pizzas, Rua Esmeralda N.º 39, Aclimação, São Paulo, a partir das 19h30.
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