Murilo César Ramos
Semana passada ocupei este espaço com a excelente reflexão do meu amigo e colega de docência e pesquisa na Faculdade de Comunicação da UnB, Paulo José Cunha, sobre a mesmice dos conteúdos dos principais jornais brasileiros: Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S.Paulo e, embora não tão 'nacional' quanto aqueles, o Correio Braziliense (leia aqui).
Com a vênia do Paulo, prossigo hoje a reflexão inaugurada por ele.
Escrevo na segunda, dia de ler as principais revistas semanais de informação geral:Veja, IstoÉ, Época.
Mas ler por quê, se ontem assisti ao Fantástico, a vibrante revista semanal eletrônica, televisiva, da Rede Globo?
Fantástico, Veja, IstoÉ, Época nos dão hoje primordialmente histórias de comportamento, com muita ênfase em psicologia e saúde, com ares de ciência e objetivos de auto-ajuda. Nessa linha, Dráuzio Varela tornou-se o principal repórter do Fantástico.
Sua reconhecida autoridade de médico o tornou um eficiente divulgador científico, eventualmente também um mal-disfarçado guru de auto-ajuda. No último domingo, por exemplo, com a profundidade que a televisão permite, Dráuzio nos ensinou sobre paixão e sexo depois dos 60 anos. Como estou prestes a me tornar sexagenário, prestei mais atenção do que normalmente presto no Fantástico, sem ficar só ligado na expectativa da voz do Léo Batista e suas narrações dos gols das rodadas dos campeonatos, neste momento, estaduais.
Ora é bulimia, ora é anorexia, ora é a próstata, ou menopausas e andropausas, acne e câncer, e muita nova técnica de cirurgia plástica. É jornalismo de serviço, me dizem, quando reclamo dessas matérias de capa que escondem, e ainda bem que escondem, as poucas e superficiais matérias de política e economia. Infelizmente nem sequer chegam a esconder, porque jamais a fazem, uma boa, porque custosa e bem pensada, reportagem sobre a economia política da indústria de cosméticos - grandes anunciantes, diga-se de passagem - e sua quase irrelevância diante de nossos graves problemas de prestação de serviço de saúde pública.
Viro a página.
Afinal, o cenário das revistas de informação geral no Brasil, semanais ou mensais, não se resume a Veja, IstoÉ, e Época (deixo de fora a CartaCapital porque, além de ser muito pequenininha de circulação, não é dada ao jornalismo de butique que aquelas outras praticam).
Quero falar hoje da edição brasileira da, lá fora, cultuadíssima, Rolling Stone, que chegou sem alarde, em outubro último, às bancas do país afora. Digo do país afora porque estou com a edição de janeiro em mãos, e a comprei aqui em Lages, Santa Catarina, minha terra natal, de onde escrevo esta coluna.
Na capa da Rolling Stone, o rosto de uma celebridade artística; Rodrigo Santoro. Ele é a matéria principal, de capa: "Os medos, os desafios e as escolhas. A pressão de ser Rodrigo Santoro".
Mas não foi por causa do jovem e excelente ator brasileiro que comprei a revista, apesar de gostar de saber, vez por outra, sobre as vidas atribuladas das celebridades. Não tanto sobre a vida da Ivete Sangalo, admito, mas por que não sobre a vida do casal Jolie/Pitt?
Comprei porque no alto da capa, acima do título, anunciava-se uma entrevista exclusiva: "Sou inocente; não preciso de títulos; sou o Zé Dirceu". Entrevista do Zé Dirceu na Rolling Stone, pensei, deve ser mais animada do que na Folha, Veja, Globo, ou Estadão. A entrevista, reconheço, até que está mais para o convencional; menos por culpa dos entrevistadores, e mais pela habilidade do entrevistado, que é desses que fala de guarda mais fechada que o Mike Tyson dos tempos de campeão mundial dos pesos pesados.
Meio decepcionado com a entrevista do ex(?) peso-pesado da política brasileira, comecei a folhear a revista; dei de cara primeiro com uma longa, densa e interessantíssima reportagem - repito, reportagem - assim anunciada: "Atraídos por 400 toneladas de ouro espalhadas pelo subsolo da Guiana Francesa, garimpeiros brasileiros cruzam o Oiapoque e invadem ilegalmente o território em busca de um sonho que pode estar acabando. Será este o último grande garimpo brasileiro?". Seis páginas de um belo texto, muito bem ilustradas por fotos de razoável força documental.
Não desdenhei também outra excelente reportagem, as mesmas seis páginas, também bem ilustradas, sobre como o "idealismo, paixão e teimosia movimentam as engrenagens da prolífica indústria dos festivais independentes brasileiros". Reportagem em total sintonia com a linha editorial central da revista, que me deu também Justin Timberlake e Sylvester Stallone, além das inúmeras matérias curtas sobre personagens e trabalho do pop rock nacional e estrangeiro. Inclusive um perfil de Rick Bonadio, o polêmico e bem sucedido produtor fonográfico que lançou um dia uma heterodoxa banda pop brasileira, chamada Mamonas Assassinas.
Mas, se a Rolling Stone também estampa matérias de comportamento, como a página que li sobre os programas brasileiros de distribuição de medicamentos sem custo a pacientes com aids, o faz com sobriedade, como sóbria é a matéria, com tudo para ser sensacionalista, sobre um caso de pedofilia envolvendo um padre e uma adolescente ocorrido há 21 anos no Maranhão (à época, a jovem tinha 14), e que só agora teve decisão judicial.
O perfil-homenagem a Elis Regina, que morreu 25 anos atrás, em janeiro, tem respeitosas, porém agudas oito páginas. Rolling Stone também não poupa páginas para escrever sobre Hermila Guedes, revelação do cinema brasileiro; sobre Manuela D'Ávila, revelação potencial da política brasileira; como não poupa páginas para nos falar de um "novo xamanismo", vivenciado, em experiência místico-psicodélica, por um dos repórteres da revista.
Não venham, porém, me dizer que Rolling Stone é assim pródiga em texto e profundidade porque é mensal, porque é nova no mercado, porque é voltada para um público cult, culto, elitista e metido a sofisticado!
Rolling Stone pode até durar pouco por aqui.
Mas que é um sopro de inteligência jornalística, isto é! Uma revista originária de uma época de muita energia contestadora, comportamental e política, uma revista que não nasceu apenas para ser vista, mas para ser lida.
Uma revista que pode não ser fantástica, que pode não ser exatamente um show, mas que pode perfeitamente fazer daqui a pouco um belo perfil do Dr. Dráuzio, pois ele tem credenciais suficientes para nos falar com profundidade, se exigido, sobre os desafios do amor, que, nas palavras imorredouras do poeta, nos é eterno enquanto dura.