Terra Magazine

 

Terça, 30 de janeiro de 2007, 08h13

A insistência na busca da origem

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Ainda há quem defenda a origem do proto-indo-europeu na Europa. O lingüista italiano Mario Alinei e os pré-historiadores Alexander Hausler (alemão) e Marcel Otte (belga), por exemplo, não vêem razões para acreditar em migrações vindas do leste, acreditam que as línguas se difundiam e evoluíam muito lentamente no passado remoto. Defendem que essa família lingüística e seus principais ramos já estavam estabelecidos na Europa bem antes do fim da Idade do Gelo (10.000 a.C.). Nesse caso, seria preciso presumir que os povos não indo-europeus da Europa (bascos, etruscos, finlandeses e outros) teriam migrado para lá mais tarde.

A maioria dos lingüistas, porém, acredita que o ritmo das mudanças lingüísticas não pode ter se alterado tão bruscamente. Os diferentes ramos indo-europeus - germânico, celta, itálico e outros -, devem ter se separado em data muito mais recente. Se a difusão e a evolução lingüísticas tivessem de ser tão lentas, seria impossível explicar a difusão das línguas indo-européias pelo Irã e Índia.

Além disso, a arqueologia sugere modificações culturais vindas do leste para o oeste em épocas e rotas que parecem coincidir com a ramificação dessas línguas e identifica, nas culturas que identificou nos Bálcãs e chamou de Europa Antiga ou neolítica (antes de 3.500 a.C.), características culturais que não combinam com as esperadas dos indo-europeus. Por exemplo, não usavam carros ou cavalos, valorizavam o feminino, como sugere a freqüência de imagens de deusas-mães.

Outras culturas européias antigas também tinham famílias matrilineares, como mostra o parentesco materno, geneticamente testado, entre corpos encontrados no mesmo túmulo. Este é o caso, diga-se de passagem, da cultura agrícola e megalítica (construtora de monumentos de grandes rochas - dólmens e menires) da Escandinávia conhecida como Trichterrandbecher (TRB) em alemão ou Funnelbeaker em inglês (literalmente, cultura da taça com boca de funil), que existiu de 4.000 a.C. a 2.700 a.C. Esse povo era claramente do tipo físico hoje conhecido como "nórdico".

Em outras palavras, apesar da concepção popularizada pelo nazismo, na qual muitos ingênuos ainda acreditam, os primeiros nórdicos provavelmente não eram indo-europeus (ou "arianos", na terminologia nazista) e os primeiros indo-europeus com certeza não eram nórdicos.

A arqueóloga lituana-americana Marija Gimbutas, com base nas considerações citadas no texto anterior, reformulou a partir dos anos 50, com mais detalhes e mais provas arqueológicas, uma tese já defendida nos anos 20 pelo filólogo e arqueólogo australiano Vere Gordon Childe: os proto-indo-europeus teriam surgido nessa região e depois se expandiram para a Europa e para a Índia.

Na Ucrânia e sul da Rússia, o período de cerca de 4.000 a.C. a 2.500 a.C. é arqueologicamente marcado pela presença de montes de terra chamados kurgans, onde estão sepultados guerreiros presumivelmente importantes, acompanhados de machados de batalha e adagas de cobre e potes de "cerâmica cordada", ou seja, potes decorados pela pressão de cordas na argila úmida. As diferentes fases dessa cultura são chamadas de Kurgan I a Kurgan IV. As fases II e III, de 3.500 a.C. a 3.000 a.C., correspondem muito bem ao "retrato falado" dos indo-europeus: usavam carros de duas rodas, faziam ídolos de pedra, praticavam pastoreio e agricultura, começavam a usar o bronze. Essas características, pouco a pouco, começam a se espalhar para o Oeste, na direção da Europa ocidental, misturando-se com os traços das culturas mais antigas dessa região.

Não mencionamos "retrato falado" à toa: o cenário descrito por Marija e seguidores é o de um crime. Em uma série de guerras, contando com uma sociedade militarizada e a grande vantagem estratégica proporcionada pelo domínio do cavalo e da roda, os machistas, hierárquicos e belicosos indo-europeus teriam conquistado e escravizado os povos matriarcais da Europa, mais agrícolas, igualitários e pacíficos, para lhes impor seu governo, língua e religião. Essa concepção de tom feminista tornou-se muito popular nos anos 60 e 70.

Os proto-indo-europeus, porém, conseguiram advogados de defesa. Nos anos 80, o arqueólogo estadunidense Colin Renfrew, com apoio do lingüista georgiano Thomas Gamkrelidze e do russo Vyacheslav Ivanov, propôs uma teoria alternativa segundo a qual a difusão das línguas indo-européias teria sido pacífica. Neste cenário, a história começa muito mais cedo: o indo-hitita teria surgido antes de 7.000 a.C. na Anatólia Oriental (incluindo a atual Armênia e Azerbaijão, ao sul do Cáucaso) e a expansão do indo-europeu poderia ser identificada com a expansão pacífica das técnicas agrícolas para a Europa a partir de 6.500 a.C.

Começou pelos Bálcãs e vale do Danúbio, e de lá se espalhando pelo resto da Europa. Chegou no extremo norte por volta de 5.000 a.C. e então a língua se dividiu em três ramos: aquele que permaneceram na Anatólia teria dado origem aos hititas e outros indo-europeus da Anatólia, os europeu se tornaram o indo-europeu propriamente dito, enquanto um grupo que chegara às estepes da Ucrânia criou a a mais antiga cultura dos kurgans e se tornou o ancestral das línguas tocarianas, mais tarde encontradas no leste da Ásia Central.

Uma expansão análoga da Síria para o sul e oeste teria espalhado as línguas afro-asiáticas (ou semito-hamíticas) pela África do Norte e península Arábica e uma terceira, partindo da Mesopotâmia, teria levado as línguas dravídicas para a Índia.

Nesse caso, os proto-indo-europeus não seriam guerreiros invasores a conquistar a Europa em seus carros de combate e sim pacíficos camponeses. Raramente sairiam de suas aldeias, mas, como a invenção da agricultura lhes possibilitariam criar mais filhos do que a terra lhes permitia sustentar, alguns de seus jovens teriam de buscar terras fora da aldeia.

A cada geração, suas técnicas, costumes e línguas iam sendo levadas um pouco mais adiante, cerca de 18 quilômetros a cada 25 anos, talvez. As civilizações agrícolas estudadas por Marija na "Europa Antiga" dos Bálcãs, como suas contemporâneas na maior parte da Europa, seriam já indo-européias, com algumas exceções - povos já existentes que, em vez de se deixar assimilar pelos novos agricultores, adotaram suas técnicas conservando suas línguas e costumes.

Em um período posterior, a partir de 3.000 a.C., os proto-indo-europeus teriam começado a usar a roda, o cavalo e o resto do aparato bélico. Parte do grupo indo-europeu balcânico - ironicamente, a civilização da Europa Antiga segundo Marija - teria se espalhado para o sul, dando origem a gregos, albaneses e armênios e para o nordeste. Outro grupo teria partido para nordeste, ocupado a Ucrânia dos kurgans e a partir de 2.000 a.C., teria migrado para o oriente e se espalhado pelo Irã, Afeganistão e Índia. Só estes últimos seriam os verdadeiros "árias", pois de fato chamavam assim a si mesmos.

Esse roteiro soluciona alguns problemas que a tese de Marija não consegue resolver - por exemplo, na Ucrânia não existem montanhas, nem muitas das árvores esperadas no cenário proto-indo-europeu (faias, pinheiros, carvalhos etc.), mas tudo isso existe (ou existiu, como os leões) na Anatólia.

Do ponto de vista dos arqueólogos, tem a vantagem de poder ser identificado com um movimento demográfica e arqueologicamente importante, associado a grandes mudanças na cultura material e fácil de rastrear. Não com uma conquista hipotética que nem sempre deixa marcas na cultura material. Também satisfaz aqueles que acham difícil admitir uma conquista e aculturação brusca, por julgarem que não havia estratificação social ou capacidade de organização suficientes antes da Idade do Bronze e que a evidência arqueológica não é clara.

Porém, cria outros problemas. Se as línguas indo-européias se difundiram da Anatólia oriental para o oeste, por que as civilizações hática e hurriana que dominaram o início da história da Anatólia (a partir de 2.500 a.C.) não eram indo-européias? Mesmo os hititas, que passam a dominar a região depois de 1.800 a.C., não foram mais que uma elite governante com uma maioria de súditos não indo-europeus. Se a expansão indo-européia está tão ligada à agricultura, porque o vocabulário comum enfatiza tanto o pastoreio e há poucos termos agrícolas comuns? Do ponto de vista genético, há evidências tanto de difusão de genes a partir da Anatólia quanto a partir do sul da Rússia.

A tendência hoje é procurar um meio-termo entre essas duas teorias. Os indo-hititas teriam se originado de algum lugar entre os mares Negro e Cáspio, talvez no Cáucaso Oriental, junto à margem do Cáspio. Ali, requisitos de fauna, flora e geografia podem ser atendidos e também os da tecnologia, principalmente a roda (vinda dos sumérios ao sul, onde era usada em carros puxados por bois ou asnos) e o cavalo (vindo da estepe, ao norte), que ali poderiam ter-se encontrado naturalmente pela primeira vez. A roda é conhecida na região desde 3.000 a.C.

Dali poderiam ter migrado para o noroeste, originando a cultura dos kurgans, para nordeste, tornando-se tocarianos, para o sudeste, passando a ser "árias" indo-iranianos e para o sudoeste, chamando-se hititas. O resto poderia seguir mais ou menos o roteiro de Marija, embora a maioria dos especialistas hoje imagine a expansão indo-européia mais como uma infiltração e assimilação gradual do que como conquista. A dificuldade é que as culturas arqueologicamente estudadas nessa região parecem não ter sido indo-européias e sim caucasianas - embora os indo-europeus possam ter vivido em áreas hoje inundadas pelo Cáspio, cujo nível era mais baixo por volta de 3.000 a.C.

"Caucasianas" significa neste caso, bem entendido, as famílias lingüísticas não indo-européias do norte do Cáucaso, que incluem o checheno e o circassiano ao norte e o georgiano ao sul. Mas vale notar que a palavra também é um sinônimo (ou eufemismo) para o que alguns gostam de chamar de "raça branca", abrangendo as populações nativas da Europa, norte da África e Oriente Médio, pelo menos. Quem inventou a palavra foi o antropólogo Johann Friedrich Blumenbach em 1775, quando classificou a espécie humana em cinco "raças": caucasiana, mongólica, etíope, americana e malaia.

Blumenbach escreveu que escolheu o nome caucasiano porque "a vizinhança (do Cáucaso), principalmente a vertente sul, produz a mais bela raça humana, quero dizer os georgianos; e porque todos os raciocínios fisiológicos convergem para a conclusão, que é nessa região, se é em algum lugar, que aparentemente devemos colocar o provável ponto de origem da humanidade".

Na verdade, as razões de Blumenbach eram bem mais ideológicas do que fisiológicas. O sul do Cáucaso era uma das regiões onde tradicionalmente se acreditou ter existido o jardim do Éden (pois lá nascem o Tigre e o Eufrates, citados no Gênesis como fluindo do Paraíso) e onde teria encalhado a famosa Arca a partir da qual, segundo o mesmo Gênesis, a descendência de Noé teria repovoado o mundo.

Para cristãos do século XVIII, era o lugar mítico de origem da humanidade. De acordo com a mentalidade da época, pensavam que a espécie degenerava ao se afastar da origem e que os mais próximos da fonte deveriam ser os mais perfeitos - que, "por acaso" eram eles, os caucasianos. Alguns dizem também que eram influenciados pelo fascínio erótico das histórias sobre os haréns otomanos, cheio de belíssimas escravas capturadas no Cáucaso (geralmente circassianas).

De qualquer forma, é importante ressaltar que indo-europeus, arianos, nórdicos e caucasianos são quatro conceitos diferentes na origem e no significado - e vale a pena insistir em que os primeiros indo-europeus não eram nórdicos e, no sentido estrito, nem sequer eram caucasianos.

Como teriam sido, fisicamente? Provavelmente, tinham tipo físico bem variável, mas a julgar pelas imagens, esqueletos e múmias deixadas pelos mais antigos indo-europeus - incluindo hititas, tocarianos e o povo dos kurgans - na maioria teriam pele "branca", mas não das mais pálidas, cabelo e olhos de cores variáveis, mas mais freqüentemente escuros e compleição forte e robusta - mais parecidos com os armênios e outros povos do Cáucaso, ou mesmo com os iranianos do que, digamos, com os suecos. O tipo "nórdico" é mais provavelmente resultado da assimilação de línguas indo-européias (talvez acompanhada de mestiçagem) por uma população originalmente não indo-européia do norte da Europa.


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
 

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