Felipe Corazza Barreto
Na capital da França, os últimos detalhes para o lançamento de um relatório elaborado durante seis anos por cerca de 2.500 cientistas estão sendo discutidos. O tema: a aceleração do aquecimento global, causada principalmente pela ação do homem. A emissão dos gases que provocam o efeito-estufa é a grande vilã.
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Enquanto as discussões seguem em Paris, uma avaliação preliminar do relatório mostra um cenário nada positivo. De acordo com dados obtidos pelo jornal britânico The Observer, o Grupo Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), ligado à ONU, vai anunciar na sexta-feira que o ritmo de aumento da temperatura mundial é mais intenso do que se imaginava.
Um dos resultados críticos desse aquecimento é o aumento do nível dos mares em quase meio metro até o fim do século XXI. E a visão é a menos trágica. Segundo o diretor de campanhas do Greenpeace - organização ambientalista que prega uma "revolução energética" contra o aquecimento global -, Marcelo Furtado, há análises que prevêem um aumento de até 1,50 m. Seria o fim de milhares de ilhas e cidades costeiras em todo o mundo. A chamada "janela de oportunidade" para o homem começar a reverter o quadro do aquecimento global deve se fechar em 10 ou, no máximo, 20 anos.
As mudanças no clima compõem outro dos cenários trágicos que devem aparecer no relatório. Em cem anos, a temperatura média na Terra pode subir, em média, até 3°C. Um dos resultados dessa mudança será a transformação da floresta amazônica em um grande cerrado.
A responsabilidade sobre o problema, segundo Furtado, é de todas as nações, não apenas das que se favoreceram de meios poluentes para se desenvolverem com a indústria. "Obviamente, a pressão maior cai sobre os Estados Unidos, que são o emissor número 1. Mas a gente tem que lembrar que o Brasil é o 4° emissor, portanto a gente também tem uma boa parcela de culpa. A China, se continuar no ritmo em que está, vai superar os EUA muito em breve".
O cenário do Brasil, no entanto, envolve uma questão única no mundo: 75% das emissões brasileiras vêm do desmatamento da floresta amazônica. "O desafio que a gente tem para o Brasil é que o país vai precisar, por um lado, parar com o desmatamento da Amazônia e, por outro lado, pensar no crescimento da matriz energética como uma matriz limpa".
Atualmente, 85% da geração energética brasileira estão concentrados na fonte limpa das hidrelétricas. Mas, segundo estudo encomendado pelo próprio Greenpeace, essa participação pode cair para menos de 40% até 2050 (leia aqui).
Furtado considera que outro ponto complicado do debate é a maneira como a indústria nuclear está se aproveitando dessa situação, usando uma "maquiagem verde". Para o diretor do Greenpeace, o lobby desta indústria está vendendo a idéia de que a fonte nuclear é uma alternativa limpa para geração de energia. "É uma mentira, porque você tem em todo o processo emissão de gases estufa".
"Uma boa notícia é que com a maior credibilidade que a gente tem dos modelos e com uma menor incerteza a gente também pode afirmar que existe uma luz no fim do túnel", afirma Furtado.
"Nós temos um papel a cumprir, mesmo que seja um papel com responsabilidades diferenciadas", alerta o diretor do Greenpeace. Ele lembra que duas décadas podem parecer um tempo razoável. Mas o relatório é apenas o começo de um processo de elaboração de políticas para reverter o quadro. E que o protocolo de Kyoto, por exemplo, levou sete anos para entrar em vigor, após sua elaboração. O tempo, realmente, é curto.
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