Terra Magazine

 

Terça, 13 de fevereiro de 2007, 08h12

As superfamílias lingüísticas

Antonio Luiz M. C. da Costa

Metodologicamente correta ou não, a tentativa de Joseph Greenberg de agrupar as línguas ameríndias em superfamílias apontou um parentesco distante entre a maioria das famílias lingüísticas faladas nas Américas, com algumas notáveis exceções - as línguas Na-Dené, do noroeste e sudoeste da América do Norte e as línguas esquimós e aleútas, no extremo norte. Como se acredita que a maioria dos indígenas, senão todos, descende de uma mesma população que imigrou da Ásia pelo estreito de Bering e seu parentesco genético também é claro, isso também era de se esperar, mas não se consegue provar pelo método comparativo tradicional.

Também parece haver um parentesco distante entre as línguas austro-asiáticas (cambojano, vietnamita etc., mencionadas no artigo anterior), como as línguas austronésias (malaio, javanês, havaiano etc.), as línguas daicas (principalmente o thai, da Tailândia), certos pequenos grupos de línguas do Sudeste Asiático e também o misterioso ainu dos aborígines do norte do Japão, o que faz sentido (pré)-histórico, antropológico e genético.

Na África, esses métodos também chegam a resultados pouco surpreendentes: a superfamília nilo-saariana, que corresponde aproximadamente ao tipo físico conhecido como "nilótico" - alto e esguio, como os dinka do Sudão do Sul e os tutsi de Ruanda; a níger-kordofaniana, mais freqüentemente associada ao tipo "negróide" mais conhecido. E a superfamília khoisan, associada ao tipo "capóide" dos povos do sudoeste africano conhecidos pelo Ocidente como "bosquímanos" e "hotentotes", pequenos, esbeltos, com olhos estreitos e oblíquos e cabelo extremamente encarapinhado - mas que outrora devem ter vivido em toda a África Oriental e do Sul, como mostram alguns remanescentes lingüísticos e marcadores genéticos.

A superfamília de línguas australianas coincide com os aborígines australianos, o que também é perfeitamente lógico.

Um pouco mais surpreendente é a superfamília indo-pacífica, na qual se incluiriam, as línguas hoje faladas nas ilhas Andaman, na Nova Guiné e nas ilhas Salomão, as línguas dos desaparecidos tasmanianos - e uma língua chamada Kusunda, do Nepal, o que sugere que essa superfamília, outrora, esteve difundida pela Índia e Sudeste Asiático. Os povos que falam essas línguas, vale notar, são os que fisicamente mais se parecem com "Luzia" - o que sugere que, antes dos ameríndios, talvez bem antes, chegaram a se espalhar pelo norte e chegar à América, pelo estreito de Bering.

No caso da Eurásia e dos indo-europeus, porém, os resultados são particularmente curiosos, ao menos em comparação com os conceitos populares (e mesmo eruditos) de "raça" e "etnia".

O proto-indo-europeu, por exemplo, é classificado por Illich-Svitych e seus seguidores em uma superfamília chamada Nostrática (do latim nostrum, nosso), que também inclui línguas de povos jamais classificados como "brancos".

Para começar, as línguas indo-européias estariam relacionadas ao elamita e às línguas dravídicas - cujos falantes atuais têm, quase todos, pele muito escura, mais até que a maioria dos negros africanos. E também às línguas urálicas (finlandês etc.), às kartvelianas ou sul-caucasianas (georgiano etc.) e, o que é mais interessante, às chamadas línguas altaicas, incluindo o turco, o mongol de Genghis Khan - protótipo tradicional dos povos ditos "amarelos" - e, talvez, às línguas tunguses (principalmente o Manchu do nordeste da China), ao coreano e até ao japonês! Também haveria uma relação com as línguas conhecidas como paleo-siberianas (faladas, por exemplo, em Kamchatka) e com o Inuit, ou esquimó. Todas essas línguas poderiam ser agrupadas numa superfamília chamada eurasiática.

Não é tudo: todas essas línguas eurasiáticas compartilhariam a superfamília nostrática, ainda maior, com as línguas chamadas afro-asiáticas - que incluem as línguas semitas (incluindo o árabe, o hebraico, o aramaico e as línguas faladas pelos antigos fenícios, assírios e babilônios), as línguas norte-africanas (incluindo o egípcio antigo e as línguas berberes), a maioria das línguas do nordeste da África (incluindo as principais da Etiópia e o somali), e também algumas importantes línguas da África central, notadamente o haussa ou hauçá, do norte da Nigéria.

Ou seja, os falantes de línguas nostráticas vão do negro mais retinto ao árabe de nariz recurvo ao nórdico pálido ao mongol de traços mais marcadamente "orientais". Entretanto, a nostrática é a mais sólida e bem estudada das superfamílias, a ponto de se ter reconstruído alguns traços da língua-mãe. Entre as cerca de duas mil palavras aparentemente identificadas, há termos para arcos, flechas, anzóis, couro e redes de pesca - mas não para cerâmica, animais domésticos ou agricultura. Por exemplo, não há diferença entre "cão" e "lobo", sugerindo que o proto-nostrático foi falado antes da domesticação do "melhor amigo do homem". Em proto-indo-europeu, "cão" era *kwon e em proto-afro-asiático e *khina em proto-tunguse, *kyn; mas em proto-urálico, küinä é lobo e qani em mongol é "cão selvagem", todos aparentemente derivados de um proto-nostrático *kuyna.

Se o lugar e a época em que viveram os proto-indo-europeus já é motivo de muita polêmica, encontrar a fonte do proto-nostrático é ainda mais difícil. Mas, em geral, se acredita que foi falada pouco antes do fim da Idade do Gelo, no período conhecido como mesolítico - transição entre o paleolítico ("pedra lascada") e o neolítico ("pedra polida"), por volta de 13.000 a.C. - o que corresponde razoavelmente ao contexto tecnológico descrito pela língua reconstruída. Supõe-se que isso se deu em alguma parte da região que vai do vale do Nilo ao Irã, passando pela Síria e Mesopotâmia.

Segundo o modelo proposto pelo lingüista russo Sergei Starostin, a divisão da língua em proto-eurasiático e proto-afro-asiático ainda seria anterior à invenção da agricultura na Síria ou Palestina, cerca de 8.000 a.C., após a qual esses povos "explodiram" em todas as direções: desse núcleo para toda a Península Arábica e o norte da África, dando origem às línguas afro-asiáticas; da Mesopotâmia para o resto do Irã e a Índia, dando origem às línguas elamo-dravídicas e do Cáucaso para o norte, noroeste e nordeste. Primeiro, se separariam as língua proto-altaica e proto-indo-urálica, depois esta última se dividiria em proto-urálico e proto-pôntico, depois este em proto-indo-hitita (ou proto-indo-europeu) e proto-kartveliano.

O leitor deve ter notado, entretanto, que estão fora desta lista da enorme superfamília como também, várias daquelas línguas "isoladas" como o basco, as línguas do norte do Cáucaso e as desaparecidas línguas não indo-européias da antiga Europa - etrusco, récio, picto e outras já citadas. De onde vieram?

De um agrupamento ainda mais surpreendente que o nostrático, se isso é possível. De acordo com Sarostin, todas elas podem ser agrupadas numa superfamília que chamou de Dené-caucasiana junto com... nada menos que a família sino-tibetana (incluindo o chinês, o tibetano e o birmanês, além de outras línguas menos importantes) e a família na-dené de línguas indígenas do oeste da América do Norte que inclui, entre outras, o navajo (chamado dené pelos nativos). Sim, essas línguas estariam vagamente relacionadas com o basco, o circassiano e o checheno (norte-caucasianas), do outro lado do mundo, com o burushaski, uma língua ainda falada na Caxemira e com algumas línguas siberianas faladas às margens do rio Ienisei. E também com o sumério, pelo menos na opinião de Sarostin.

Não que os bascos sejam descendentes de chineses ou tenham cruzado o oceano para invadir o Arizona: o que o quadro sugere é que o povo que deu origem a essa enorme superfamília um dia se estendeu pela Eurásia da Península Ibérica ao norte da China, por volta de 25.000 a.C. (provavelmente a partir da Europa, vindo da África ou da Ásia Central). Um ramo deles, mais tarde, teria migrado da China para a América do Norte, alguns milênios depois do povo que falou proto-ameríndio, mas antes dos esquimós.

Esse povo - possivelmente, "homens das cavernas" clássicos, à caça de mamutes e bisões - teria vivido ao norte das terras onde se falou o proto-nostrático (Oriente Médio) e o proto-áustrico (sul da China e Japão), regiões de clima mais ameno. Ao sul, na Índia e Sudeste Asiático, provavelmente se falou, como vimos, o proto-indo-pacífico.

Mais a leste - Sibéria Oriental e nordeste da China - pode ter sido, originalmente, a região onde viveram os precursores do proto-ameríndio, antes que seus descendentes migrassem para as Américas, seguindo o istmo que existia onde hoje é o estreito de Bering. Podem ter ocupado inicialmente a Ásia Central e se separado dos proto-nostráticos (com o qual têm um distante parentesco lingüístico) e migrado gradualmente para nordeste, passando pelo Baikal, tendo nos calcanhares os proto-dené-caucasianos que, vindos da Europa, se espalharam pela Ásia Central, Mongólia e noroeste da China.

Segundo Starostin, proto-nostrático, proto-ameríndio, proto-dené-caucasiano e proto-áustrico poderiam ser relacionados numa mega-família "boreana", que abrangeria praticamente todos os povos que então viviam fora dos trópicos. Geneticamente, faz sentido: a maioria dos povos que falam essas línguas (inclusive os ameríndios) estão relacionados entre si mais do que, digamos, os povos ditos "amarelos" do norte da Ásia com os também "amarelos" do Sudeste Asiático e Oceania.

Se isso ainda parece estranho é porque é difícil se livrar do preconceito de que as "raças" sempre foram "como são". Na verdade, elas não são necessariamente mais antigas do que agrupamentos lingüísticos assim tão amplos.

Há vários casos em que os tipos antropométricos devem ter sido estabelecidos há dez mil ou quinze mil anos, no máximo. É o caso dos chamados nórdicos: habitam uma região que, antes do final da Idade do Gelo (10.000 a.C.), era coberta por uma espessa camada de geleiras e era tão inabitável quanto a Antártida de hoje. Os povos que então viviam na Europa, conhecidos como Cro-Magnon, tinham outro tipo físico, mais robusto e menos longilíneo (embora de estatura semelhante).

Também é o caso dos indígenas dos Andes, mostram adaptações à altitude que os diferenciam fisicamente dos índios das terras baixas, embora não possam ter se separado deles antes da chegada de seus ancestrais às Américas pelo estreito de Bering, por volta de 15.000 a.C. Mesmo a distinção entre africanos e eurasiáticos (incluindo povos da Oceania e Américas), a mais importante do ponto de vista genético, não deve ser anterior a 50.000 a.C., quando os primeiros Homo sapiens, provavelmente semelhantes aos atuais khoisan ou "capóides", devem ter deixado a África para se aventurar no resto do então novíssimo "Velho Mundo".

Além disso, a difusão de línguas, mesmo na pré-história, nem sempre significou genocídio. Em alguns casos, como foi sugerido para o indo-europeu, grandes famílias podem ter se expandido junto com a agricultura, "convertendo" com essa nova cultura e tecnologia povos que antes falavam outras línguas, com maior ou menor grau de mestiçagem, mas às vezes sem alterar radicalmente seu perfil genético e sua aparência física. Seria o caso, talvez, das famílias afro-asiática, elamo-dravidiana, sino-tibetana e áustrica, cuja expansão parece estar ligada à invenção da agricultura em suas respectivas regiões.


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
 

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