Terra Magazine

 

Terça, 13 de fevereiro de 2007, 15h00

Governador do Rio reacende debate da legalização

Felipe Corazza Barreto e Raphael Prado

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), declarou mais uma vez que é favorável a debater a legalização das drogas no país. Em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, na noite de domingo, o governador disse que uma "legalização controlada" pode ser um dos caminhos para diminuir a violência causada pelo tráfico de drogas.

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Em uma entrevista no dia 28 de janeiro ao jornal Correio Braziliense Cabral já havia defendido a legalização da maconha. "Deveríamos avançar na legalização de algumas drogas, discutir a legalização de algumas drogas. De maneira responsável, mas deveríamos. Se feito de maneira controlada, (seria) um mal muito menor do que hoje", declarou à época o governador fluminense.

A assessoria de imprensa do governo do Rio esclarece que as declarações do governador têm como objetivo levantar a discussão sobre o assunto. Cabral não teria a intenção de oferecer um modelo pronto para a legalização. Uma das idéias, ainda segundo a assessoria, é montar um comitê de saúde pública que classificaria as drogas e, num passo seguinte, debateria quais categorias deveriam ser legalizadas.

O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que já teve uma bandeira com folha de Cannabis sativa (a planta da qual se extrai a maconha) desenhada em seu gabinete na Câmara, diz que ainda não conversou com Cabral sobre a proposta e que não consegue avaliar qual o sistema adequado para o Brasil adotar. Ele cita o exemplo da legalização "gradual" existente na Inglaterra. Desde 2001, a polícia britânica faz experiências no bairro de Brixton, zona sul da capital inglesa. Os usuários pegos nesta região com quantidades pequenas de maconha recebem apenas uma advertência.

"Para cada pessoa que eles prendiam ali com um cigarro de maconha eram quatro horas para registrar e abrir um inquérito. Eles achavam que tinham coisa mais importante pra fazer. Esse é o resultado mais importante, liberou a polícia para cuidar de outros casos", afirma Gabeira.

Mas a liberalidade em relação à maconha na Inglaterra ainda está longe. David Cameron, é o líder do Partido Conservador britânico mais cotado para assumir o cargo de primeiro-ministro quando Tony Blair deixar o posto, até o fim deste ano. A oposição descobriu um trunfo para atacá-lo. Em 1982, quando tinha 15 anos, Cameron cometeu um "grave crime": fumou um baseado no colégio.

Acompanhe trechos da entrevista com o deputado:

Terra Magazine - Como tem que ser essa espécie de liberação no Brasil?
Fernando Gabeira - Eu não sei, eu acho que no Brasil a gente teria que examinar ainda, eu não tenho a idéia. O problema central ainda é ver se é possível isso. No caso que o governador está colocando, é sobretudo no Estado do Rio de Janeiro, que é uma questão local. Dentro do Rio de Janeiro poderia se determinar as áreas onde isso seria permitido, ou poderia também fazer o esquema holandês... ter vários coffee shops vendendo o tipo de droga que fosse permitido. Porque a descriminalização de todas as drogas, nesse momento, é problemático. Não tem isso em nenhum lugar do mundo.

Esse sistema holandês, de cafés, poderia ser adotado no Brasil?
Não, eu não sei. É uma das hipóteses que eu estou te passando. Eu não sei o que o governador propôs. Existe essa hipótese e você tem vários modelos para escolher. Eu não sei te dizer qual deve ser adotado no Brasil.

E o sistema londrino?
Tem que ver em que circunstâncias isso vai ser colocado. Ele (governador) apenas levantou a tese. É o avanço da discussão que vai permitir ver qual o modelo adequado para o Brasil.

Mas esse modelo que permitiu aos policiais cuidarem de outros assuntos não seria interessante, sobretudo no Rio de Janeiro, com tantos problemas com violência?
Eu não sei como essa coisa aconteceria. Porque a situação de Londres e de Amsterdã é muito diferente do Rio de Janeiro. Se você por acaso liberar e descriminalizar as drogas numa área e eliminar o comércio clandestino, você vai provocar uma grande tensão sobre outros tipos de crime, porque aquele setor que dependia da venda da droga vai ter que sobreviver de alguma maneira. Então nós vamos ter que pensar muito no caso do Rio de Janeiro. Mas eu não posso te dar uma resposta agora. Eu não tenho essa resposta.

 

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