Terra Magazine

 

Quinta, 15 de fevereiro de 2007, 08h05

Os "comics" norte-americanos e a tragédia brasil

Silvio Tendler

O Rio de Janeiro foi palco esta semana de uma tragédia sem limites morais ou de imaginação quando um menino foi arrastado ao longo de vários quarteirões atado pelo cinto de segurança a um veículo em fuga conduzido por uma quadrilha de bandidos. Da quadrilha que cometeu o crime com requintes de perversidade fazia parte e assistia a tudo um outro menor. Em cena, dois menores envolvidos: um está morto, o outro preso.

O que leva a tanta indiferença pela vida, que superestrutura fornece os elementos para tamanha barbárie cometida por seres de carne e osso, ditos humanos?

Dizem que meus filmes são didáticos, há quem não me considere artista, um chato porque tento falar da realidade, explicá-la, vê-la de um outro ponto de vista.

Didáticos são os "comics" norte-americanos, os Sin City da vida. Os videogames que impregnam mentes e almas de nossos jovens que são capazes de morrer e ressuscitar infinitas vezes a cada jogo, educados pela ética do egoísmo, do triunfo individual, do dar-se bem sempre, acima de tudo e pela estética da violência na qual um soco não passa de um ruído estrambótico: "pow", uma queda acompanhada de um ruído engraçado,"cataplan" ou de um muxoxo irônico "bergh". O personagem que sopra o cano da arma depois de descarregá-la sobre o adversário é lugar comum neste universo "onírico" dos sonhos do capitalismo perverso, do imperialimo midiático. A vida é bem diferente: socos doem, sangram, mutilam e o capitalismo lucra enquanto mata.

Quem educa, nossos jovens, a partir de que princípios éticos? Será o "livre mercado", Hollywood o melhor professor? Você, o cidadão, com a palavra.



Silvio Tendler é cineasta, autor dos filmes Os Anos JK - Uma Trajetória Política (1980); Jango (1984); Castro Alves - Retrato do Poeta (1990) e Glauber, o filme, labirinto do Brasil (2001).

Fale com Silvio Tendler:s.tendler@terra.com.br
 

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