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Sexta, 16 de fevereiro de 2007, 08h06

A volta das Brigadas Vermelhas

Vera Gonçalves de Araújo

O fantasma do terrorismo urbano voltou a assombrar a Itália essa semana, com a prisão de 19 suspeitos militantes das Brigadas Vermelhas, a apreensão de três arsenais com centenas de fuzis Kalashnikov, a certeza de que a organização opera com a cumplicidade da ndrangheta, a máfia calabresa, e a descoberta de uma montanha de documentos sobre os preparativos para assassinatos, seqüestros e atentados de vários tipos.

As Brigadas Vermelhas (BR-Brigate Rosse) foram o grande pesadelo de violência nos anos 70 na Itália. Sua ação mais importante foi o seqüestro e assassinato do líder democrata-cristão Aldo Moro, em 1978. A organização foi desarticulada em meados dos anos 80, graças a um paciente trabalho de repressão da polícia e a solidariedade compacta dos partidos políticos, dos sindicatos e da sociedade civil italiana, num dos raros episódios de unidade nacional na história do país.

Pequenos grupos de brigadistas continuaram operando e cometendo de tanto em tanto assassínios e atentados. Quase todos os seus autores foram descobertos. Mas no início da semana, a polícia italiana destampou um barril de pólvora que - ao que tudo indica - estava pronto para explodir. Os brigadistas presos fazem parte da chamada "Segunda Posição", a ala movimentista, que separou-se do grupo majoritário militarista das BR, preso há um ano atrás, depois de assassinar dois professores progressistas.

Porque o elemento fundamental de continuidade entre esse pequeno grupo de terroristas e os fundadores das BR é o ódio por intelectuais da esquerda, acusados de cumplicidade com o "estado imperialista multinacional", inimigo final das Brigadas Vermelhas. Economistas, professores universitários, jornalistas, juízes, advogados e policiais da esquerda reformista foram o alvo preferido das ações do terrorismo "vermelho".

A Segunda Posição operava principalmente em Milão, Turim e Pádua. Muitos dos terroristas eram sindicalistas da principal organização sindical italiana, a CGIL. Na quarta-feira passada, o ministro do Interior, Giuliano Amato, explicou aos parlamentares que as novas Brigadas Vermelhas planejavam "uma guerra revolucionária prolongada" e que a prisão de seus líderes permidiu "evitar uma onda de terror".

Os terroristas exercitavam sua pontaria em campos clandestinos, e tinham relações estáveis com a máfia calabresa, de quem aprenderam a técnica de roubos e assaltos para auto-financiar-se. Estavam vigiando um dos apartamentos de Silvio Berlusconi em Milão. Mas evidentemente estavam mal informados, porque se tratava de um prédio onde o ex-primeiro ministro e líder da oposição de direita não morava mais há muito tempo. A polícia encontrou planos para um atentado com um carro bomba na Páscoa. Mas a vítima designada pelas "novas" Brigadas Vermelhas para morrer ainda este ano era Pietro Ichino, professor de direito e conselheiro do governo Prodi, da ala reformista dos Democráticos de Esquerda.

A opinião pública não parece preocupada com a volta das Brigadas Vermelhas. Segundo uma pesquisa do jornal da TV LaSette, só 11% dos italianos temem mais o terrorismo caseiro do que o terrorismo islâmico. Já o mundo político está preocupado. Os presos são todos jovens, demonstram uma presença maciça nas universidades e no mundo sindical, e parecem contar com uma certa tolerância do mundo "no global". Tanto que todos temem que a manifestação pacifista contra a ampliação da base militar norte-americana de Vicenza, programada para este sábado, se transforme num ato de solidariedade com os brigadistas, e não seja pacífica como planejam os organizadores.

Num país governado pela esquerda, mas onde a própria esquerda contesta seu governo, pela primeira vez na história as Brigadas Vermelhas poderiam sair de seu isolamento social. Tanto que, nesse inverno que mais parece uma primavera, voltaram a florescer nas paredes e nos graffitti a estrela com cinco pontas, símbolo sombrio das BR.


Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


 

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