Rodolfo Rorato Londero
Convidado por Roberto Causo para escrever nesta excelente coluna, sinto-me honrado em dividir com seus leitores a seguinte questão, que abordarei, mais detidamente, na minha dissertação de mestrado em Letras, que realizo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul sob orientação do Prof. Dr. Edgar Nolasco: o que une, por exemplo, Silicone XXI (1985), de Alfredo Sirkis; Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett; Piritas Siderais (1994), de Guilherme Kujawski; os contos "Um diário dos dias da peste" e "Interface com o vampiro", incluídos na coletânea Interface com o Vampiro (2000), de Fábio Fernandes; e a noveleta O anjo da Morte (2002), de Gian Danton? Certamente, a ficção científica conhecida como cyberpunk. Assim, convenço-me cada vez mais de uma recepção da ficção cyberpunk na literatura brasileira. Porém, devemos frisar desde já, tal recepção realizou-se em níveis diferentes.
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Primeiramente, algumas considerações gerais: surgida na década de 1980, no contexto social e tecnológico norte-americano, a ficção científica cyberpunk, cuja obra fundamental é Neuromancer (1984), de William Gibson, retrata, num futuro próximo e distópico, uma sociedade globalizada, altamente tecnológica e midiática, dominada por valores hedonistas e niilistas e por corporações transnacionais.
Agora vamos aos níveis de recepção da ficção cyberpunk na literatura brasileira, que acredito serem três: "direto", "indireto" e "análogo". Por "direto" refiro-me aos escritores brasileiros que certamente beberam da fonte, ou seja, aqueles que tiveram contato com a literatura cyberpunk. Neste nível encaixam-se alguns contos de Fábio Fernandes, onde notamos um imaginário tecnológico semelhante ao da ficção cyberpunk (vírus, gadgets informáticos etc.), mas também elementos fantásticos (vampiros, "tecnoxamã" etc.) - algo peculiar da ficção científica latino-americana em geral. Também se encaixa aqui O anjo da morte, noveleta de Gian Danton que aborda um tema recorrente na ficção cyberpunk, o ciberespaço, porém através de uma perspectiva filosófica, assemelhando-se mais ao filme Matrix (1999), que também demonstra influências da literatura cyberpunk.
Por "indireto" refiro-me aos escritores brasileiros que beberam da mesma fonte que os escritores cyberpunks, ou seja, aqueles que tiveram contato com os precursores da ficção cyberpunk. Neste nível encaixa-se Santa Clara Poltergeist, dada a predileção de Fausto Fawcett pelos filmes Blade Runner (1982) e Videodrome (1982) e, principalmente, pelo livro Laranja Mecânica (1962), homenageado por ele e Laufer na música "Chinesa Videomaker", do álbum Fausto Fawcett e os robôs efêmeros (1987). Tais obras também influenciaram os escritores cyberpunks: a respeito de Laranja Mecânica, o também tradutor Fábio Fernandes afirma que "os escritores cyberpunks devem muito de suas temáticas a Laranja Mecânica - a comparação entre a alta tecnologia das classes mais favorecidas e a dura e suja realidade dos prédios onde a classe operária se amontoa; a opressão do Estado; o uso de drogas, tanto para diversão e fuga da realidade quanto para lavagem cerebral"; já a respeito de Videdrome, Peter Nicholls afirma que "ainda mais central para o ethos cyberpunk, contudo, são os filmes de David Cronenberg, cujo Videodrome em particular é um documento cyberpunk central em sua ênfase nas metaformoses corporais, na sobrecarga midiática e no sexo destrutivo"; e, finalmente, o impacto de Blade Runner é inegável: William Gibson, por exemplo, afirma ter saído no meio de uma sessão do filme, pois o que ele assistia assemelhava-se muito ao romance que escrevia no momento, Neuromancer. Elementos do filme de Ridley Scott também são notados em Silicone XXI, o que nos permite encaixar a obra de Alfredo Sirkis, divulgada como um "romance policial futurista", neste nível.
Por "análogo" refiro-me aos escritores brasileiros que não beberam da fonte, mas que captaram o "espírito do tempo", as transformações sociais, econômicas e tecnológicas da década de 1980, de maneira semelhante aos escritores cyberpunks. Tal fenômeno é mais comum do que imaginamos, sendo que o comparatista russo Victor Zhirmunsky (1891-1971) denominou-o "analogias tipológicas". Para ele, "movimentos literários em geral e fatos literários em particular, considerados como fenômenos internacionais, são parcialmente baseados em desenvolvimentos históricos similares na vida social dos respectivos povos e, parcialmente, em suas relações culturais e literárias recíprocas". Talvez por isso que o cyberpunk seja uma tendência mundial, pois, surgida neste período onde todos os povos compartilham, graças à globalização desenfreada, uma mesma "vida social", conseguimos identificar elementos dele nas mais diversas literaturas nacionais: para citarmos somente nossos vizinhos latino-americanos, temos os romances dos chilenos Diego Muñoz (Flores para un cyborg, 1997), Darío Oses (2010: Chile en Llamas, 1998) e Jorge Baradit (Ygdrasil, 2005); o romance do mexicano Gerardo H. Porcayo (La primera calle de la soledad, 1993); os contos do cubano Vladimir Hernández Pacín (Nova de cuarzo, 2000); e os contos do argentino Eduardo J. Calertti ("Sin Nombre", 1996; "Clips", 1996). Mas enfim, neste nível encaixa-se a obra brasileira Piritas Siderais, cujo autor afirmou recentemente, em entrevista concedida a mim, que, quando o termo "cyberpunk" foi sugerido à sua obra por um editor, ele nem o conhecia.
Após esta rápida imersão no universo cyberpunk brasileiro, gostaria de contar algo que, passados alguns meses, revelou-se extremamente produtivo para minha pesquisa. Quando tentei apresentar algumas obras brasileiras que se aproximam da temática cyberpunk para uma comunidade do Orkut, um membro, após ler um resumo de Santa Clara Poltergeist, afirmou que escrever cyberpunk no Brasil "não é bem como pegar a obra O CORTIÇO e botar uma coisa HIGHTECH e acabou". Nada tão longe da verdade: para Fredric Jameson, autor constantemente citado nos debates sobre pós-modernidade, o cyberpunk é uma continuação do Naturalismo. Quando propôs isto, Jameson pensava na diluição das diferenças entre o espaço privado e o espaço público - algo que, por não ser abordado enfaticamente, não identificamos com facilidade nas obras brasileiras. Mas destaquemos o determinismo, discurso doutrinário do Naturalismo, e pensemos a literatura cyberpunk. O determinismo na literatura naturalista revela-se na influência do meio ambiente sobre as personagens e os elementos da obra. Um exemplo é oferecido pela personagem Pombinha, do romance O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo: uma moça virgem e recatada que se torna uma prostitua por viver num ambiente dado à promiscuidade. Já para entender o determinismo na literatura cyberpunk deve-se conceber um meio ambiente tecnológico e, portanto, um determinismo tecnológico. É a tecnologia que influencia o comportamento das personagens e os elementos da obra: as vítimas dos vírus do conto "Interface com o Vampiro"; a "falha magnética" agindo sobre Mateus em Santa Clara Poltergeist; as hipergazetas de Piritas Siderais.
Enfim, todos "cortiços high-tech".