
Maria Falcão
Contabilidade de Carnaval: duas unhas roxas - uma já naturalmente extraída -, gripe, suspeita de sarampo (sim, ocorreram surtos na Bahia e eu estava lá) e quase-diagnóstico de herpes e mononucleose. Tudo isso até hoje, quarta-feira de cinzas, dia em que escrevo esse relato e que declaro o Carnaval de Salvador como dado por visto. Imperdível e involtável. Se voltar, tenho certeza de que não sobrevivo ao próximo.Bom, a arruaça começou cedo. Pedi licença do escritório e na quinta-feira desembarquei com algumas amigas no aeroporto de Salvador. De lá, direto pro hotel onde abadás e camisetas de camarotes já se encontravam devidamente - e às custas de uma pequena fortuna, claro - adaptados a corpos tamanho médio.
O primeiro dia foi uma maravilha. Tudo lindo e estéril. Vacina contra sarampo? Quem precisa disso em pleno trajeto Barra-Ondina? Com tanta avenida nesse mundo de meus Deus, custo a acreditar que esse vírus fosse cair logo ali, debaixo das minhas asas!
Na sexta-feira, já sentia os espaços livres das ruas se tornarem mais escassos. Mas quem pensa que isso começava a me preocupar, se enganou. Na Bahia, até hipocondríaco é capaz de tirar férias. Na verdade, eu não via a hora de chegar o sábado, para a turistada do mundo todo chegar, e o espaço livre entre eu e um gostosão que não me olhava nem por um segundo, desaparecer. "Se te pego não te largo, se te agarro não te deixo..." (se essa musiquinha simpática passou pela minha mente agora, caro leitor, você já tem a prova de que todo ser humano é suscetível à "pagodização", a tornar-se um jeca. E isso É UMA REGRA!)
Bom, assim fui, levada pela multidão, no sábado, domingo, segunda... Na segunda à noite senti que algo já não ia bem. Um calor diferente, uma "malemolência"... Liguei a TV para ver se algo tinha a ver com o aquecimento global, com massas de ar quente no litoral baiano ou qualquer outro fenômeno meteorológico. Constatando que nenhum aspecto geo-nano-quântico ou climático poderia ser atribuído àquele meu mal estar, obviamente, surtei. Voltei ao meu normal e não tive dúvidas de que não teria tempo de rever o corredor de bambus do aeroporto. Ou de comer de novo o acarajé da Regina. Ou de achar o Ministro Gil liiiindo (coisas de Carnaval!). De praticar o ver-e-ser-vista. E muito menos de acordar no próximo dia sem saber se seria Carnaval já ou Carnaval ainda.
Aí lembrei de uma amiga que uma vez foi pro Carnaval do Rio e voltou com a boca "estoporada"de herpes, como diz a Genalva, minha faxineira. E como essa era sua primeira manifestação da doença, os médicos explicaram pra ela que ela podia ter febre e dor maior do que nas manifestações que ela viesse a apresentar depois. Dito e feito: ela teve febre alta por 3 dias e até hoje tem uns gânglios enormes por trás da mandíbula.
Lembrei também de outra que pegou mononucleose de tanto que beijou na boca, indiscriminadamente. Aliás, essa doença tem justamente o apelido de Doença do Beijo por ser transmitida por esse tipo de contato mais íntimo. Na época, eu nunca tinha ouvido falar nessa doença e não me custou muito a confundir mononucleose com brucelose, escabiose, micose, hantavirose... Falava com a coitada ao telefone quase dando pêsames e sem esquecer a minha máscara de guerra, caso esse vírus fosse resistente a fios, cabos, tubos e conexões.
Bem, o hospital mais próximo do meu hotel foi meu paradeiro na terça-feira de Carnaval. Como de costume, já cheguei ao médico com uma lista de suspeitas diagnósticas, sendo as duas acima, herpes e mononucleose, as primeiras, no abre alas, grifadas e em negrito.
Herpes foi descartado imediatamente. Segundo o doutor, não havia nada em mim que pudesse sugerir esse problema. Mas eu insisti na mononucleose. E por isso, não escapei da aula:
"Drica, até que esse seu mal-estar e febre poderiam, de repente, me fazer pensar em mononucleose. Acontece que, ainda que você tivesse beijado todos os soteropolitanos, ainda não teria dado tempo da doença se manifestar em você. Geralmente, após o contato com o vírus, ela leva em média 2 a 3 semanas para se manifestar. Esse é o tempo de incubação. Mas já que você se mostra tão curiosa por essa doença...". Daí ele continuou com a explanação infindável: "É uma síndrome caracterizada por mal-estar, dor-de-cabeça, febre - diariamente e principalmente à tarde -, dor-de-garganta, aumento de gânglios e hepatite leve e transitória. Dores musculares e articulares, calafrios, náuseas e vômitos também são sintomas comuns. Na maior parte das vezes tem como agente causal o vírus Epstein-Barr (EBV), mas pode também ser causada pelo Cytomegalovirus (CMV). Além da saliva, esses vírus podem ser adquiridos, embora que raramente, por transfusão de sangue ou outros órgãos e contato sexual...". Não terminou aqui. Isso foi só o que eu consegui captar e checar na Internet antes de escrever nesse espaço.
Antes que chegássemos ao terceiro problema da lista, o médico colocou lá na minha ficha: gripe. Ponto. Mais especificamente, CID J11. Outro ponto. Nem me deu a chance de dizer que eu não tinha entendido bem o que ele quis dizer com "leve e transitória" ou "tempo de incubação". Inconsolável e descrente da vida, saí do consultório com minha prescrição de antitérmico, repouso, e a recomendação de beber muito líquido. Tipo da prescrição que gente como eu tem vontade de rasgar, molhar e comer, num ataque histérico bem em frente ao médico.
Mas uma enfermeira simpática, me vendo naquele total desamparo, veio me perguntar se eu estava bem. Expliquei o ocorrido e ela, com exemplar simpatia e uma didática impecável, me disse que diante do meu quadro de sintomas, gripe era mesmo o mais provável diagnóstico. No Carnaval, devido ao aglomerado de pessoas, de diferentes tipos e procedências, são vários os tipos de vírus da gripe prontos para atacar. Com o agravante do desgaste físico de 6 dias de farra, e com uma até esperada baixa das defesas do organismo (por causa da desidratação, bebidas alcoólicas, sol, má alimentação, etc.), os foliões são facilmente acometidos.
Ok, fui convencida. Mais confortada e tranqüila, fui pro hotel, tirei a terça-feira pra ficar de bobeira na piscina, curtindo o sol e vendo flashes do Carnaval só pela televisão. À noite deixei a cidade, feliz pelos bons momentos, mas mais feliz ainda por poder olhar o bambuzal da entrada do aeroporto e dizer somente um "até breve" e ter a certeza de que ainda sentiria na pele as delícias da Bahia - quem sabe até o Carnaval!
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