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Terça, 27 de fevereiro de 2007, 15h44

Eu sou a ficção

Paulo Scott

Quarenta graus, e agora meio-dia. Entro na piscina olímpica com meu MP3 à prova d'água, calço as nadadeiras twin jet fin noventa centímetros, ajeito a máscara transparência arroxeada 15%, os fones vedação colméia, a toca de silicone, aperto o play, começo a nadar. Na gravação de 7 horas, a mixagem constante com o som de útero em oitavo mês de gestação e batimentos cardíacos de uma jovem mãe feliz em repouso. Dois metros de profundidade, os aqualungs espalhados nos quatro cantos. A imprensa observa, os futuros clientes observam e os adolescentes de um escola pública observam. Sou o primeiro homem-lúdico e lhes provo como estou contente. Este é o pacote mais caro, batizaram-no: deserto. Os outros pacotes começam com a palavra: gêmeos. Cheguei aqui porque duvidava e por que sei escrever afetuosamente. Os donos ganharão dinheiro, pelo menos por um tempo. Sobre nós um dirigível com os dizeres "LEI DE INCENTIVO AO ESPORTE". No fim desta tarde, não choverá. Há semanas, não havia tanto otimismo. Ainda assim, quando as tevês forem ligadas, de assalto virá uma nostalgia para estragar a todos nós.


Paulo Scott, escritor e professor universitário, criou os projetos PóQUET: ruído & literatura e Na TáBUA , combinando a partir da literatura outras mídias.


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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