
Paulo Scott
O governo gasta milhões com manuais, cartilhas e reedições de clássicos da literatura para suprir as bibliotecas das escolas públicas, quando deveria gastar com histórias em quadrinhos. Não quero parecer leviano, pelo contrário. Proponho isso porque é enorme e crescente a quantidade de jovens e adultos que dizem com despudor não terem a menor preocupação com a leitura.
Nada vai bem se é forçado, e não se trata exatamente de disciplina, trata-se de hábito. Nossa gente é boa com verbo, corpo e musicalidade (e nesses universos detém uma criatividade encantadora), mas há um tipo de caos necessário e uma racionalidade instrumental que só vêm da solidão da leitura. Para entender é preciso estar fascinado e, de certa forma, habituado com essa fascinação, para que a rotina de códigos cada vez mais complexos conduza a mais e mais longe.
Nossa situação é desesperadora, não há programa que priorize boa educação para as massas. Os planos são brilhantes no papel, mas reprováveis na realidade de quem ensina crianças sem perspectiva, desmotivadas.
Como otimizar um processo que desconsidera a realidade social dos que chegam à escola?
Sei que faltam recursos, mas sei que devemos, antes de tudo, ganhar leitores, pessoas interessadas em boas histórias, em bons personagens, porque daí vem o resto. A disciplina história só alcança êxito quando se aproxima da realidade do estudante. O contexto tem necessariamente de estar contemplado na narrativa (mesmo a científica). Por isso, apóio incondicionalmente os que defendem a priorização, em sala de aula, da literatura contemporânea feita por aqueles que estão mais visíveis e palpáveis, os que não podem ser endeusados, mitificados, entronizados.
Mesmo que tal literatura não tenha o selo de qualidade seletiva e a profundidade dos anos, das décadas, dos séculos, tem linguagem atrativa, atualidade que é capaz de inebriar porque condensa todas as outras coisas atuais, caleidoscópicas.
Penso que, nesse contexto, para um número grande de desabituados, as histórias em quadrinhos (de turma da Mônica e Asterix aos personagens de Moebius, Laerte, Enki Bilal, Neil Gaiman) despertariam a paixão que os livros já não conseguem mais despertar.
Sou de uma família de trabalhadores que não tinham tempo para leituras (meu pai cursou a universidade, trabalhando em três empregos para conseguir pagar os estudos e sustentar a família) e a minha entrada no mundo das letras se deu pelos gibis que eram trocados entre a crianças da rua. Só depois é que tive a sorte de conhecer o universo de Monteiro Lobato.
Não são poucos os estudos e estatísticas mostrando os milagres que a história em quadrinhos conseguem com crianças e adolescentes arredios à leitura, seja pela insegurança, déficit de concentração ou lentidão intelectiva, isso mesmo nos níveis escolares mais elevados. Um dos trabalhos mais expressivos, nesse tipo de abordagem, é o "How comic books can change the way our students see literature: One teacher's perspective", do inglês Rocco Versaci.
As imagens atiçam para dentro dos balões, a criança descobre que dentro deles também está o lúdico, não facilmente detectável sob rótulo de maior e melhor, mas capaz de levar a coisas fabulosas, imensuráveis, imediatas, dentro do pensamento.
Terra Magazine