
Daniel Bramatti
Neste exato momento há 849 mulheres grávidas, em 29 países, torcendo para que seus bebês nasçam no dia 15 de setembro. Não se trata de uma data histórica das mais relevantes, nem é um desejo alimentado por superstições astrológicas. O que querem as futuras mães - entre elas dez brasileiras - é ganhar um carro em uma promoção da Fiat. (Atualização: este texto é de 7 de março; em 17 de abril, o número de grávidas havia subido para 1.540 - não foi possível contabilizar as brasileiras)
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A montadora italiana vai sortear um automóvel entre as inscritas na promoção "Baby Boom" cujos filhos venham ao mundo no mesmo dia do "nascimento" do Fiat 500, modelo que será lançado em setembro. No Brasil, um dos campeões mundiais de cesarianas, a estratégia de marketing vem despertando a indignação de ONGs que combatem a cultura do chamado "parto agendado".
"É um estímulo fútil à realização de cesarianas", disse Telia Negrão, secretária-executiva da Rede Feminista de Saúde, organização que congrega cerca de 160 entidades relacionadas à saúde da mulher. "É um reforço a um modismo nefasto", afirmou Fátima Oliveira, médica e antecessora de Telia no cargo. "É um crime", reagiu Ana Cristina Duarte, uma das fundadoras da Parto do Princípio, ONG que tem como principal bandeira a valorização do parto natural.
Terra Magazine localizou em Porto Alegre uma das brasileiras que concorrem ao Fiat. Greice Arismendi foi inscrita na promoção pelo marido. Ela concorda com a tese de que o prêmio pode estimular cesarianas, mas descarta a possibilidade de fazer um parto cirúrgico com o único intuito de ganhar o carro. "Em primeiro lugar, a vida e a saúde do meu filho. Depois, se der para conciliar, maravilha", afirmou.
Para Greice, são os médicos que devem barrar eventuais tentativas de agendamento de partos em razão do sorteio. "Os médicos vão ter de ser muito éticos para mostrar às famílias que a ambição de ter um carro novo, em uma promoção dessas, não é mais importante que a vida e a saúde do bebê. Não dá pra tirar um bebê da barriga antes do tempo só para ganhar um carro."
Já Ana Cristina, militante de uma ONG cujas campanhas pela valorização do parto normal encontram pouco apoio na área médica, é mais cética. "Se a mãe quiser fazer cesariana, o médico vai fazer mesmo. Eles sempre fazem." Para ela, os próprios obstetras são os principais responsáveis pela explosão de cesarianas no país. "Hoje, de cada 20 mulheres que entram em um hospital privado para dar à luz, 19 serão operadas", estimou.
A restrição às cesarianas não é meramente ideológica, mas embasada em estatísticas. "Sabemos que, em um parto cirúrgico, a mulher tem probabilidade duas vezes maior de morrer", disse Fátima Oliveira, uma das raras vozes na área médica a defender a redução das cesarianas.
No ano passado, o então representante no Brasil da Organização Panamericana de Saúde (braço regional da Organização Mundial da Saúde) considerou "absurdas" as taxas de cesáreas praticadas por planos e seguros-saúde no Brasil, de 80% - na rede pública, não chegam a 30%. Em entrevista à "Folha de S. Paulo", Antonio Horacio Toro Ocampo disse que a OMS considera aceitável que de 10% a 15% dos partos sejam cesáreos, em razão de eventuais complicações na gravidez. "Os índices dos hospitais privados no Brasil são absurdos, inaceitáveis, extremamente elevados e fogem totalmente da indicação obstétrica. Quase nenhuma mulher consegue se livrar (das cesarianas)", afirmou.
A promoção da Fiat, aberta a novas inscrições até o dia 14 de setembro, vem recebendo cerca de 15 adesões por dia. O regulamento prevê o uso da imagem da mãe e do bebê contemplados com o prêmio em ações de "marketing de guerrilha". Uma das imagens no site do Fiat 500 mostra uma ecografia em que o carro aparece no lugar do feto. Por essas e por outras razões, a jornalista e cientista política Telia Negrão vê um fenômeno de "mercadorização do corpo da mulher".
"Ao logo da História o corpo da mulher tem sido controlado, de uma forma ou de outra - pelo Estado, pela família, pela Igreja. Agora o corpo se submete aos interesses de mercado. Vem daí a utilização indiscriminada de hormônios e de silicone, a realização de cirurgias desnecessárias para se adequar a um padrão estético, o consumo de medicamentos moderadores de apetite, a própria anorexia", disse ela.
É nesse contexto que Telia vê a disseminação de cesarianas e critica o marketing da Fiat. "Na natureza o parto não tem agenda. Quando o mercado acena com um prêmio em uma data, colabora para a banalização do parto cirúrgico. É uma campanha nefasta", afirmou.
Terra Magazine procurou a Fiat do Brasil na semana passada e a informou sobre a polêmica em torno da promoção. A assessoria de imprensa informou que só a Fiat da Itália poderia se manifestar sobre o assunto e se dispôs a levar o caso até a matriz. Não houve resposta desde então.
Terra Magazine
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