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Quarta, 7 de março de 2007, 08h02

Para obstetra, segurança eleva número de cesáreas

Daniel Bramatti

Para o médico Edson Lucena, vice-presidente da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), o fenômeno da disseminação das cesarianas não se limita ao Brasil e está ligado ao aumento da segurança nos procedimentos cirúrgicos.

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Em entrevista por e-mail a Terra Magazine, ele comentou a polêmica em torno da promoção da Fiat, que vai sortear um carro entre mulheres que derem à luz no dia 15 de setembro.

O senhor concorda com as ONGs que vêem o sorteio da Fiat como um estímulo às cesarianas?
Não acredito que a campanha tenha este objetivo, porém pode contribuir com aumento do número de cesáreas neste período. Talvez uma estratégia melhor seria distribuir os prêmios para as mulheres que, neste dia, tivessem o parto vaginal.

Na sua opinião, existe um fenômeno de banalização das cesarianas?
Nas últimas décadas tem havido incremento significativo nas taxas de cesáreas no mundo inteiro. Mesmo países com taxas baixas, como Turquia e Itália, chegaram a 30%, 33% no ano 2000. Nos EUA as taxas subiram de 23% para 27,5% em 2003. Na América Latina, o Chile apresenta a maior taxa, com 45%, seguido pelo Brasil, com 37%. Trata-se, portanto, de um fenômeno mundial.

No caso específico do Brasil, o que explica o fenômeno da explosão de cesarianas?
Seria demasiado simplificar que, para o médico, as cesareanas podem ser agendadas, pois o procedimento leva muito menos tempo do que o acompanhamento a um trabalho de parto e parto, ou que a gestante não quer sentir dor e solicita o agendamento da cesárea. Entretanto, tem sido o aumento da segurança do procedimento o que tem dado à cesariana o grande número de adeptos nos últimos anos. Cada vez mais se avoluma na literatura o número de publicações sobre a segurança do procedimento, levando inclusive o conceituado periódico americano Obstetrics and Gynecology, em agosto de 2003, a questionar no seu editorial se não dever-se-ia oferecer cesariana a todas as mulheres.

Qual o papel dos planos de saúde nesse contexto, já que há mais cesarianas na saúde privada que no SUS?
Os planos de saúde não apresentam nenhuma política dirigida para reduzir o número de cesárias, apesar da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM) orientar que o parto vaginal seja mais bem remunerado, inclusive com pagamento por hora de acompanhamento de trabalho de parto.

Existe um certo "pacto de conveniência" entre gestantes que pedem cesariana e médicos que, com múltiplos pacientes, se sentem impossibilitados de passar horas e horas à espera do parto normal?
Parte deste questionamento foi respondida na pergunta anterior. vale a pena frisar que uma boa medicina pressupõe o entendimento dos processos fisiológicos e, embora possam ocorrer algumas disfunções, a gravidez e a parturição normais são processos fisiológicos. Muitas questões ainda permanecem sem resposta em relação à escolha do modo de parir. Os valores e as preocupações das mulheres mudam com a paridade, com a idade e com as mudanças no estilo de vida? Quais são os riscos das cesarianas sucessivas para as gestantes e seus filhos? Como podemos prevenir as complicações iatrogênicas? Como podemos prevenir os tocotraumatismos no recém-nascido e os danos ao assoalho pélvico? Como compatibilizar o princípio da autonomia da paciente (solicitando ou negando uma cesariana) com as obrigações médicas de beneficência (fazer o melhor) e não maleficência (não causar dano)?

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