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Sexta, 9 de março de 2007, 07h49

m.takara "conta"

Rodrigo Silveira

Reza o Tao, de Lao Tsé-Tung, que "procurando sem enxergar, diz-se que é escuro; escutando sem ouvir, diz-se que é fraco; tateando sem tocar, diz-se que é sutil." E sutil é a música de m.takara em seu terceiro álbum, "conta", primeiro lançamento do selo Desmonta.

Maurício Takara é o filho mais novo de uma família de notáveis. Seu irmão mais velho é Daniel Ganjaman, músico e produtor; Fernando, o do meio, trabalha como baixista do CPM 22, entre outras atividades. Takara, apesar de novo, já tocou com uma pá de almas, desde sua banda de adolescência Hurtmold até o projeto com Rob Mazurek, sp underground, passando pela entidade Otto e pelo espectro multi-espiritual coletivo Instituto.

Mas não é isso o que impressiona neste paulistano de Pinheiros: ele, apesar de novo, já tem uma história sólida com o seu projeto m.takara, uma linguagem musical reconhecível, um estilo definido.

E é aqui que começam os meus problemas: como definir o estilo de m.takara? Desafio qualquer leitor que o faça. Muitos já tentaram e não foram felizes. É, de fato, difícil que um punhado de palavras sintetize o seu trabalho musical. Takara aproxima-se dos gêneros - do rock, do jazz, do minimalismo eletrônico - sem, todavia, incorporá-los de todo ao seu som.

O seu estilo parece não sustentar estilo algum. Ou melhor, pela tangente destes estilos, parece aparecer outro, um novo. O autor de uma das resenhas sobre o disco bem que tenta defini-lo, provoca a "crítica especializada", cita referências (que vai da rua até o cinema), mas tampouco logra alguma pista. Procurando sem enxergar, diz-se que é escuro.

Talvez por estar cansado de ouvir sempre a mesma pergunta - "como você define o seu som?" - o artista nos dá uma chance ao dizer que faz "música de livre associação". E o que Takara nos conta, nas entrelinhas, ao afirmar isso? Que a livre associação refere-se mais à maneira de ouvir, do que propriamente ao seu modo de produzir. É o seu jeito elegante de dizer que o rótulo pouco importa, que não percamos tempo em tentar decodificar o que sai de sua experimentação. Que se escute sem se preocupar com as definições. Escutar sem ouvir, afinal, diz-se que é fraco!

"conta", se não é o mais radical de seus discos, é, sem dúvida alguma, o melhor produzido. Se alguém o interpretou como acessível, quis dar um boi ao pop. E não é o caso aqui ser pop ou não: a música é boa, bem produzida e isso transcende qualquer gênero. Há ao longo do disco, por certo, repetições rítmicas e melódicas, uma insinuação de padrões e de ordem. Mas está lá, intacto, o 'processo m.takara': a experimentação, a soma dos sons, as camadas de ruídos, a combinação caótica de timbres e de construções harmônicas (timbres e harmonias que, por vezes, lembram o projeto-primo Prefuse 73). Qualquer nuance de ordem é delicadamente esbarrada pelo caos, o senhor absoluto deste processo.

E, como sabemos, o caos só faz sentido enquanto não parece ordem. O apuro e o detalhamento com que o disco foi tratado só enriquecem a escuta. Ao largo de qualquer definição, m.takara nos apresenta uma música poderosa, caótica, livre, sem tentar encapsulá-la em algum gênero. Tateia os sons sem os tocar. Diz-se, de um sujeito assim, ser sutil.


Rodrigo Silveira é artista gráfico e um dos fundadores do Selo Instituto.
www.rodrigosilveira.org


Fale com Rodrigo Silveira: rodrigosilv@terra.com.br
 

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