Terra Magazine

 

Terça, 13 de março de 2007, 08h06

Da tragédia elizabetana ao horror vitoriano

Antonio Luiz M. C. da Costa

No artigo anterior, A longa agonia da nobreza: o início, dissemos que, para o crítico literário Franco Moretti, a tragédia elizabetana foi uma expressão da crise de paradigmas morais e sociais que, no início do declínio da nobreza e da ascensão da burguesia, acompanhou a decomposição do feudalismo e o auge do absolutismo. Os valores de origem feudal eram ainda reconhecidos, já não funcionavam, mas as práticas burguesas que já regiam a sociedade ainda não haviam sido codificadas em valores aceitos. Entre os primeiros e as segundas, abria-se o abismo da tragédia na qual se afogavam os maiores personagens de Shakespeare e se preparavam as grandes revoluções burguesas.

Na decadência final da aristocracia, às vésperas das duas guerras mundiais (leia A longa agonia da nobreza: o desfecho), Moretti, no ensaio "A Dialética do Medo" (em Signos e Estilos da Modernidade) encontra várias outras formas literárias características, de estatura talvez inferior, mas bem interessantes, tanto que deram origem a subgêneros de ficção cada vez mais populares. Nas telas de cinema e nas páginas de novos escritores, alguns dos seus personagens vivem hoje aventuras com as quais seus criadores jamais sonharam.

Um desses subgêneros é o romance vitoriano de terror, cujo protótipo é o Drácula de Bram Stoker. A era vitoriana, é bom lembrar, é a do reinado da rainha Vitória, de 1837 a 1901. Refere-se principalmente a seus súditos do Império Britânico, mas alguns de seus aspectos se manifestaram na maior parte do Ocidente.

À primeira vista, Drácula é um aristocrata decadente - pois é um "conde" e possui um castelo. Seu perseguidor, o médico, filósofo e cientista Abraham van Helsing, parece encarnar a ciência do século XIX, capaz de dissipar e destruir as velhas superstições e de derrotar o vampiro com a ajuda de tecnologias modernas. Enquanto o vampiro, "tradicionalista", viaja de veleiro, seus adversários passam à sua frente com navios a vapor, ferrovias e telégrafos. Van Helsing usa o hipnotismo, que acabara de receber credenciais científicas (estudado por Charcot e Freud, foi aprovado pela Associação Médica Britânica em 1892), e a emergente psicologia científica, apesar de associada a teses hoje desacreditadas, como a frenologia e a criminologia de Lombroso.

Durante a caça ao vampiro, recorre-se até a fonógrafos e máquinas de escrever portáteis que, em 1897, ano da publicação do romance, representavam a última palavra em tecnologia de ponta - o equivalente, em termos de 2007, a microgravadores digitais e notebooks de última geração. A rigor, nem deveriam existir se a nota final, segundo a qual o caso se passara sete anos antes, tivesse de ser levada ao pé da letra (claro que o "agora" do romance, como supõe a versão cinematográfica de Coppola, poderia estar "no futuro", em 1904...).

A análise de Moretti, porém, mostra o subtexto conservador por baixo da superfície "progressista" do romance. O Conde Drácula só é aristocrata no nome. O próprio Jonathan Harker, seu corretor de imóveis, nota no seu diário que lhe faltam os traços essenciais da nobreza: os servos e o consumo conspícuo (ostensivo). O próprio "conde" conduz sua carruagem, faz sua cama e limpa seu castelo. Não se tem notícias de que vá ao teatro, saia para caçar ou use roupas vistosas.

Também é curioso que, ao contrário do "verdadeiro" Drácula - o príncipe romeno Vlad, o Impalador, personagem histórico do qual o personagem de Stoker copiou a pátria e o apelido - o vampiro não gosta de derramar sangue: pelo contrário, suga somente o necessário e jamais desperdiça uma gota. Os vampiros do folclore tradicional da Europa Central trucidavam com fúria ou por capricho, enquanto o de Stoker destrói vidas para usá-las e colocá-las a seu serviço.

Seu comportamento parece o de um prudente burguês que leu Adam Smith e sabe que empregados domésticos são trabalhadores improdutivos que consomem inutilmente uma renda que poderia ser transformada em capital. Um poupador, um asceta, um sustentáculo da ética protestante, diria Max Weber. Quando Harker explora seu castelo, encontra um monte de ouro, acumulado ao longo de séculos, que o vampiro prepara-se para aplicar na conquista do mundo moderno.

A essa altura, talvez venham à mente de alguns algumas das passagens mais vívidas de O Capital. Trinta anos antes de Bram Stoker, escrevia Karl Marx (no capítulo 10): "o capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive somente de sugar o trabalho vivo e, quanto mais vive, mais trabalho suga (...) o prolongamento do dia de trabalho além dos limites do dia natural, pela noite, serve apenas como paliativo. Mal sacia a sede do vampiro por trabalho vivo (...) o contrato pelo qual o trabalhador vendeu ao capitalista sua força de trabalho prova preto no branco, por assim dizer, de que dispôs livremente de si mesmo. Concluído o negócio, descobre-se que ele não era um 'agente livre', que o momento no qual vendeu sua força de trabalho foi o momento no qual foi forçado a vendê-la, que de fato o vampiro não largará a presa 'enquanto houver um músculo, um nervo, uma gota de sangue a ser explorada' (citação de um texto de 1845 de Friedrich Engels)."

Seria Drácula, sob um disfarce de aristocrata decadente, um arrojado empreendedor capitalista? A maldição do vampiro o obriga a fazer cada vez mais vítimas, a lutar para ser ilimitado, para subjugar toda a sociedade, assim como o capitalista é compelido a acumular e subordinar sua vida à acumulação incessante de capital.

É Harker quem exclama:

- Este era o ser que eu estava ajudando a transferir para Londres onde, talvez durante séculos, poderia, entre seus milhões acumulados, saciar sua sede de sangue e criar um círculo novo e cada vez maior de semidemônios para viver dos indefesos!

Em outra passagem, John Seward, psiquiatra aliado de Van Helsing, refere-se ao vampiro como "o pai ou promotor de uma nova ordem das coisas". Não um reacionário a lutar para restaurar uma velha ordem medieval, mas um inovador, talvez mesmo um revolucionário. Mas em que sentido?

Para a Londres de 1897, o capitalismo obviamente não era novidade. Mas depois de ficar "enterrado" pelos vinte longos anos de recessão que começaram em 1870, o poder do capital ressurgia com uma nova forma que, aos olhos da velha Inglaterra do livre-comércio, era inédita e assustadora. Tratava-se do monopólio que, solitário e despótico, não tolera competição e destrói toda independência econômica. Não se restringe a explorar suas vítimas por um período limitado, deixando-lhes a possibilidade de escolher outro patrão ou contratante: açambarca o mercado e não deixa alternativa. Fica-se preso a Drácula por toda a eternidade.

Era uma novidade que, para a mentalidade da Grã-Bretanha do final do século XIX, soava como retrocesso. A Inglaterra, pioneira da Revolução Industrial, criara uma indústria pulverizada, uma burguesia proprietária de pequenas e médias empresas que via a livre concorrência como seu hábitat natural - ainda que isso, ao mesmo tempo, limitasse sua influência e capacidade de articulação, deixando a cultura e a administração pública nas mãos da nobreza latifundiária. Contradição tipicamente vitoriana que, como sugerimos em A longa agonia da nobreza: o desfecho, está na raiz de suas incoerências e hipocrisias.


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
 

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