
Paulo Scott
O que seria das grandes obras de poetas como Orides Fontela, Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski, Glauco Mattoso, Waly Salomão, Chacal, se não fosse o mito que criaram em torno de si, a dinâmica em torno de si?Por favor, não confundam tal hipótese com a teimosia de se trancar em casa, afetando-se diante do mundo que passa na tela 29 polegadas ou na janela de um décimo e tantos andar. Mito é prática, é o rumo ameaçador tirado da ponta do próprio nariz.
Poesia boa e perene exige isso, não só da mente (e suas criatividades), mas do corpo inteiro. Um desapego... sei lá; um destemor. Pois, é um jogo inteiro, um buraco fundo e escuro que cobrará coragem quase próxima da loucura, embora arda o pior dos refinamentos estéticos, e quase o colapso pela escassez de par.
Penso em Dylan Thomas e Paul Celan, no peso da morte e nos cuspes ferrenhos sobre a iconoclastia, o tapa do próprio autor. Olho a poesia brasileira e descubro grandes blefadores, porque remediam a aventura, o gasto, a quebra.
Pois bem, repito que existe esta menina que sem estardalhaço se meteu a cavar, cavar, cavar, pelo Brasil, América Latina e pelo mundo, contra o lapso que só procria esse gosto de planta (essa fotografia), esse teatro de esquina - torpor do auto-elogio.
Corruptos e pretensiosos foram as duas palavras que me arrebataram pelos ombros quando terminei de reler o Rilke shake (São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2007), de autoria dessa menina. Progresso de uma procura atordoada (e cálida) que se encampa desta nossa língua frágil neo-latina.
Há quem se acostume.
Na minha opinião, "sereia a sério", p. 23-24, está entre as melhores poesias de 2006/2007, porque a autora é competente, porque aniquilou-me com a tremenda ironia e por que corre festivais e corre o mundo, como nenhum poeta papudo desta nossa geração faz.
Poesia não pode ser mansa, inofensiva; o corpo do poeta não deve menos.
Conheçam a jovem. Desafio alguém a dizer que estou errado.
Terra Magazine