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Quarta, 14 de março de 2007, 08h05

Praia da Bahia é a terceira melhor do mundo

Paquito

A praia do Porto da Barra, em Salvador, está no site de turismo do jornal inglês The Guardian, como a terceira melhor praia do mundo, só atrás de uma praia da Espanha e outra da Colômbia. Eu, que sou freqüentador assíduo da praia do Porto da Barra, pensei que fosse a melhor. E meu amigo Roberto Hernandez, que é bem mais viajado, deve pensar o mesmo.

O Porto, como a chamam os habitantes de Salvador, é mesmo uma praia especial. Localizada na parte central da cidade, é uma piscina natural, muito apropriada para o banho e para a prática da natação, pois a gente não precisa ir muito longe pra chegar à parte funda. Só que o Porto também é uma praia pequena, o que gera uma concorrência danada entre os jogadores de vôlei, futebol e frescobol, para ver quem mais atazana o banhista que vai em busca de algum sossego e paz em suas margens plácidas.

Mas o pior mesmo são os sujeitos que estacionam o carro e ligam o som no mais alto volume com o fundo aberto, obrigando todos os freqüentadores a ouvir o que seja do gosto do dono do veículo. E quando alguém se atreve a chamar a polícia, os que se dizem representantes da lei agem como se o errado fosse o reclamante.

Há ainda lanchas a motor que navegam muito perto da margem, causando perigo aos banhistas, além de raros, mas não ausentes, jet-skis pilotados por, sem dúvida, gente irresponsável e, infelizmente, não-rara.

Não esqueçamos também do lixo sempre deixado por freqüentadores, desde turistas até ambulantes, e que não é recolhido suficientemente pelo órgão municipal responsável. O excesso de dejetos causou, inclusive, a criação de uma ONG, a Lixo Zero, liderada por um verdadeiro arauto da limpeza, o jornalista Raimundo Brandão que, há oito anos atrás, criou a organização, responsável até por um concurso de mergulho anual, que premiava o mergulhador que mais lixo conseguisse tirar do fundo das águas.

Só que Brandão, na definição de Paulo César de Souza, um ING (indivíduo não-governamental), cansou da luta e foi morar na Chapada Diamantina, bem distante dos sujões. E os poderes públicos (prefeitura, governo do estado), com o final, faz dois anos, das atividades da Lixo Zero, não têm se pronunciado quanto ao assunto.

Bem, dito assim, parece que o Porto é uma das piores praias do mundo, e que o jornalista que a colocou no ranking é um celerado. Mas há o pôr-do-sol maravilhoso (o sol, aliás, não se põe coisa nenhuma, nós é que estamos ao seu redor sempre, a bordo deste pálido ponto azul, feito mariposas em volta da lâmpada), sempre aplaudido pelos frequentadores, num misto de folclore e embevecimento, às vezes liderados por Lázaro, um rapaz meio louco que volta e meia anda por lá, e que rege as palmas de maneira um tanto ensandecida, o que remete a Bahia ao antigo Egito e a Grécia antiga, onde havia adoradores do sol. E, aqui entre nós, nenhuma adoração é mais justificável que a do sol, nossa fonte de vida.

Há a freqüência democrática e multifacetada. No início da manhã, velhinhos e velhinhas; perto do meio dia, gatinhos e gatinhas; e, lá pelo final da tarde, artistas, gays, desocupados, amantes de um bom papo e de uma boa nadada, uma fauna e tanto! E há a água, um deleite para o corpo de que tem a ventura de navegar nesta enseada sem ondas.

Justo por ser uma enseada, foi no Porto da Barra que, em 1549, aportou nosso primeiro governador e fundador da cidade do Salvador, Tomé de Souza. Antecipando-se aos barcos a motor supracitados, ele aproveitou o fato de poder chegar bem perto da praia sem correr o risco de encalhar, e foi recepcionado por Caramuru e uns cinqüenta colonos, entre portugueses e mamelucos que aqui habitavam, e que talvez se banhassem no mar do Porto.

O tempo passou e, apesar das adversidades geradas pelos maus tratos dos animais humanos, o Porto continua lindo. Caetano Veloso, que há anos curte o local, fez uma canção em parceria com Moacir Albuquerque, Qual é, baiana?, que passa bem o clima de sedução despretensiosa que acontece na praia do Porto da Barra: "Essa menina é só de brincadeira/ só da bandeira(...)/ domingo no porto da barra pesada/ ela sempre agrada ao gosto e ao olhar/ domingo no porto da barra limpa/ todo mundo brinca entre ela e o mar/ domingo no Porto da Barra/ todo mundo agarra mas não pode amar". Precisa dizer mais?


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br
 

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