Terra Magazine

 

Quarta, 21 de março de 2007, 08h08

Imprensa não debate seus problemas, diz pesquisa

Daniel Bramatti

Os jornais e revistas brasileiros quase não falam sobre a própria imprensa. Quando o fazem, elegem a televisão como alvo prioritário, e evitam "temas espinhosos", como o controle de jornais por políticos e regulação da propriedade de meios de comunicação, por exemplo. Os dados constam da pesquisa "Mídia e Políticas Públicas de Comunicação", realizada pela Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), com apoio da Fundação Ford.

Os pesquisadores da Andi há anos monitoram a forma como os jornais retratam os problemas da infância no país. Agora, puseram a lupa sobre mais de mil textos publicados entre 2003 e 2005, de 53 diários e 4 revistas semanais, cujo conteúdo se relacionava com o "tema mídia". Na média, cada jornal publicou apenas um texto sobre a imprensa a cada cinco dias.

É como se o chamado quarto poder só se preocupasse com os outros três. "A pergunta que se coloca, depois do resultado da pesquisa, é: por que o jornalismo não cobre a mídia como instituição relevante para a democracia?", disse o cientista político Guilherme Canela, um dos autores do estudo.

Em entrevista a Terra Magazine, o pesquisador defende o debate sobre um novo marco regulatório para a imprensa. Ele considera que há uma "estratégia" dos empresários de mídia de relacionar à censura qualquer iniciativa de discussão sobre políticas públicas de comunicação.

A íntegra da pesquisa pode ser lida em www.andi.org.br/_pdfs/midia_ppc.pdf. Leia a seguir a entrevista de Canela:

Terra Magazine - A imprensa brasileira dá ao "tema mídia" a importância devida? Como a imprensa se comporta quando fala de si própria?
Guilherme Canela - Para responder essa pergunta vale ressaltar a seguinte premissa: nossa pesquisa partiu da convicção de que a mídia é uma instituição central para as democracias contemporâneas. Se isso é verdade, podemos medir se a mídia fala muito ou pouco dessa instituição. O resultado encontrado, na nossa visão, demonstra que a mídia não denota a si o espaço devido. Nos 53 jornais analisados, há um texto a cada cinco dias sobre o assunto. Responder se isso é pouco ou é muito só é possível se você assume ou rejeita a premissa inicial, que é a importância da mídia para as democracias contemporâneas. Entendemos que a mídia é uma instituição essencial, portanto uma matéria a cada cinco dias é muito pouco. Imagine se qualquer outra instituição relevante para a democracia, como o Judiciário, o Legislativo, o Executivo, tivesse uma cobertura tão exígua. A primeira pergunta que se faria é: por que a imprensa não cobre o Legislativo, por que não cobre o Executivo? A pergunta que se coloca, depois do resultado da pesquisa, é: por que o jornalismo não cobre a mídia como instituição relevante para a democracia?

A pesquisa conclui que a imprensa é "seletiva" ao falar de si própria. Que temas são desprezados ou não encarados como prioritários?
A conclusão inicial é que a midia fala muito pouco de si própria e se comporta de forma seletiva quando fala de si própria. São introduzidos temas que são menos espinhosos. Mais de 50% das matérias se concentram nas questões de conteúdo, ou seja, qualidade de programação, baixaria na programação, mas essas questões são a ponta do iceberg. A base da discussão da regulação das comunicações tem a ver com outras questões, que se somam a essas. Discussões relevantes são praticamente ausentes da cobertura, como mídia e democracia, mídia e regulação da propriedade, mídia e relação com politicos eleitos.
Nós verificamos na pesquisa qual é o principal meio de comunicação retratado na matéria. E 60% da cobertura focaliza a televisão. Só 18% focaliza jornais. Ou seja, a imprensa escrita fala pouco das políticas de comunicação; quando fala, se concentra em conteúdo e, sobretudo, na televisão. Os problemas e conteúdos complicados do jornalismo impresso são menos debatidos por eles mesmos do que as questões de um veículo concorrente, que é a TV.
Ainda em relação à temática, nossa pesquisa tenta alinhavar os conceitos da comunicação que aparecem mais nas matérias. Dois conceitos ganham muito destaque na cobertura: censura e liberdade de expressão. A estratégia de levantar o tema da censura e do cerceamento da liberdade de imprensa diante de qualquer iniciativa de debater as políticas de comunicação tem sido uma estratégia muito recorrente dos empresários da comunicação no Brasil, que acaba se refletindo nas matérias. Não há uma discussão sobre o que é censura e liberdade de imprensa, os termos acabam usados como palavras de ordem nas coberturas, que acabam ofertando a voz dos proprietários dos veículos.

Que diferenças a pesquisa detectou nas abordagens feitas pela chamada grande imprensa e pelos jornais regionais?
Quando há cobertura de políticas públicas de comunicação, os jornais do eixo Rio-São Paulo e as revistas são os protagonistas. Isso merece uma análise específica, pois está muito relacionado ao fato de que parte significativa da imprensa regional tem ligações muito perigosas com essas questões que estamos discutindo na pesquisa. Estamos perguntando se a imprensa discute o fato de que muitos políticos detém muitos veiculos de comunicação. Boa parte dos jornais pesquisados se enquadra nesse problema, então seria esperar demais que eles estivessem levando adiante essa discussão. Mesmo dentro da grande imprensa é possível perceber que os jornais inseridos num contexto de propriedade cruzada - ou seja, quando sua holding também detém TV, rádio, internet etc - acabam cobrindo menos essas temáticas. A regulação que existe em outros países sobre a propriedade cruzada tem impacto na própria qualidade do jornalismo praticado. Porque acaba estimulando os jornais a não abdicar da discussão sobre as políticas de comunicação.

A imprensa brasileira é democrática?
É importante dizer que houve, após o período de democratização do país, enormes avanços na cobertura jornalística das mais variadas temáticas. Por exemplo, a infância, que é o que a gente acompanha mais de perto. Quando começamos a analisar como a imprensa brasileira cobria essa questão, a fonte principal, disparada na frente, eram os órgãos governamentais. Hoje a sociedade civil acaba tendo mais presença do que os poderes públicos. Esse exemplo denota que, ao longo da década de 90, a imprensa tem seguido os passos de abrir mais a sua cobertura para outras vozes e colocar outros ângulos nas questões prementes da democracia brasileira.
As mesmas pesquisas que mostram avanços indicam que ainda há muito o que fazer. Em mais de 20 temas, como educação, desenvolvimento nacional, a média de menções a opiniões divergentes é de 10,1%. É muito pouco. Os cânones consagrados do bom jornalismo não estão sendo seguidos à risca. Um dos primeiros elementos que se colocam é o de que é preciso escutar as diferentes opiniões na sociedade. Isso tem impacto na avaliação de se a nossa imprensa é ou não democrática. Ela é democrática, mas pode avançar muito na construção dessa democracia.
A relação da mídia com a democracia está muito conectada ao marco regulatório que cada país decide ou não adotar. Países nos quais existem critérios como regulação da propriedade cruzada, direito de antena, direito de resposta e cotas de programação regional têm uma mídia mais democrática e que colabora mais para a consolidação da democracia.

"Democratização dos meios de comunicação" é um termo vago, muitas vezes confundido com intervenção estatal e com cerceamento da atuação de determinados meios. Como o senhor vê essa questão?
Eu partilho da premissa que está na sua pergunta. Não acho que seja um termo adequado. Prefiro regulação democrática dos meios de comunicação. Regulação sempre há quando o Estado intervém. A grande questão é saber se essa intervenção está fundamentada em parâmetros democráticos. O que está sendo proposto para que os meios de comunicação cumpram seu papel de pilares da democracia? A regulação que existe é suficiente? Foi produzida a partir de parâmetros democráticos? Uma regulação tem de permitir que os meios de comunicação exerçam seu papel central nas democracias contemporâneas, que é: oferecer informação contextualizada, ouvir e dar voz aos diferentes interesses e âmbitos na sociedade, agendar a própria sociedade, colocar o debate público, exercer controle social das políticas públicas, respeitar os direitos humanos. É preciso ter uma estrutura de concessão dos meios de comunicação que garanta a pluralidade de interesses, culturas e regiões que compõem a sociedade brasileira. Independentemente de a expressão ser democratizar os meios de comunicação, o ponto fundamental reside nesta questão: como é que se regula os meios, a fim de que eles cumpram seu papel na democracia, sem que essa regulação redunde em práticas de censura e aviltamento dos princípios constitucionais.

E que tipo de "marco regulatório" é compatível com liberdade de imprensa?
O ministro Hélio Costa disse que vai mandar para o Congresso uma nova lei de comunicação de massa. Nossa lei ainda é da década de 60. Uma das maneiras pragmáticas de evitar qualquer deslize na proteção à liberdade de imprensa é um debate aprofundado sobre essa nova legislação. Os Estados Unidos levaram sete anos de audiências públicas para chegar a uma nova legislação. Ao fazer essa discussão, os nossos parlamentares e o governo devem buscar entender o que está acontecendo no cenário internacional. Essa pesquisa que acabamos de lançar mostra que tudo o que discutimos tem espelho em países democráticos. Essas regulações que estamos propondo não saíram de uma percepção inédita da Andi ou dos especialistas que foram consultados. Elas existem e estão implementadas no cenário internacinal. Deve ser respeitado o medo de que algum cerceamento de liberdade de impresa ocorra a partir de uma regulação. Mas esse medo pode ser contornado ao se olhar como as demais democracias têm trabalhado a questão.

Como o sr. vê o projeto do governo de criação de uma rede pública de TV?
Uma das formas de regulação que tem sido trabalhadas para que a mídia contribua no aprimoramento da democracia tem sido o desenho de sistemas públicos de televisão. Os casos conhecidos são a BBC, o caso austríaco, o sistema PBS dos Estados Unidos, o caso da África do Sul. A discussão é extremamente pertinente para o fortalecimento da democracia de qualquer país. Mas precisamos debater à exaustão como será essa TV pública. Para dar um exemplo extremo, nos países ditatoriais ou totalitários comunistas, a TV era pública, não havia TV privada, mas a liberdade foi constantemente cerceada nesses locais. O projeto do governo ainda não está claro. É preciso fazer um debate amplo com a sociedade para que se encontre um modelo que colabore para o fortalecimento da democracia.

 

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