Antonio Prada*
de Havana
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Difícil perceber o noticiário by Miami. Centenas de bandeiras negras com a estrela de Cuba, estrategicamente colocadas à frente do painel, tentam impedir que as informações cheguem aos olhos de quem transita pela área.
O trajeto açoitado pelo vento forte do mar, as águas de um azul tão intenso é vívido que quase cegam. O bólido azul segue a bater lata, o cenário se move: o tradicional Hotel Nacional, outrora um baluarte da Cuba pré-revolucionária, os bairros de Vedado, Novo Vedado. E Miramar.
O motorista, um taxista pirata que serve aos turistas, olha pelo retrovisor e conta: "Esse bairro era dos ricos antes. Agora é dos dirigentes. Não mudou nada", diz, enquanto sorri, irônico. Miramar tem ruas largas, arborizadas, casas grandes, algumas monumentais, que estão em reforma. Um outro mundo se comparado ao centro de Havana, em acelerada deterioração, à exceção de Havana Velha, esta em processo de restauração.
Miramar, repleto de embaixadas e de residências de "estrangeiros ricos", explica o taxista. Um jardim central divide a principal avenida que corta o bairro, a Quinta. Jardim cuidadosamente aparado.
Moradores caminham ou correm, aproveitam o sol ainda fraco da manhã para se exercitar. O táxi reduz a marcha, embalado pelo silêncio de um rádio de isopor, rádio imaginário pregado no painel. O motorista aponta casas e conta histórias, como a do hotel Comodoro, à beira-mar.
"Há uma série de bangalôs com piscina. Um luxo", diz, olhando para o banco do passageiro.
Mais 50 metros e um edifício em meio às grandiosas casas. "Aqui vivem os estrangeiros. Deixa-se um olho e meio para viver aqui. Isto não é para cubanos", desabafa o taxista enquanto põe os óculos de sol, de surfista. "Se seguirmos nesta avenida vamos até Siboney, que é a região onde moram os ministros e os principais dirigentes do governo. Lá está o Cimeq, o melhor centro hospitalar do país, que serve aos membros do governo e onde estão tratando de Fidel", informa.
Fidel surge por acaso durante a conversa, sem que uma pergunta provocasse:
- Nós cubanos já estamos aceitando que Fidel não volte a atuar. Se tivessem tratado o problema antes, teria alguma chance. Descobriram a doença muito tarde. Foram tratar de um aneurisma, mas descobriram um câncer no estômago. Retiraram o tumor, que felizmente não se espalhou. Mas o aneurisma, pelo estado avançado, continuou a provocar danos. Restauram todo o estômago, mas o organismo de Fidel tem rechaçado continuamente. Casos semelhantes como esses em Cuba não tiveram sucesso no tratamento.
O diagnóstico é tão preciso que o taxista parece integrar a equipe de 35 médicos encarregada de cuidar de Fidel. E ele avança nos informes: "com o cuidado que tem com sua saúde, poderia chegar aos 120 anos... em Cuba há pessoas que não se cuidam e chegam aos 100, 110 anos de idade".
O carro chega ao destino. Não há tempo para pergunta. O motorista tira os óculos, cobra a corrida pré-acordada e diz adeus. O velho carro azul, a bater lata, se perde no trânsito de Havana em mais uma manhã de primavera.
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