Terra Magazine

 

Terça, 27 de março de 2007, 09h51

Onde foi parar o porco do Roger Waters?

Daniel Bramatti

O telão ao fundo do palco mostra imagens dos confins do Universo, talvez feitas pelo Hubble - são os Pilares da Criação, logo ali? A banda de Roger Waters toca a introdução de "Shine On You Crazy Diamond", a quarta música da noite - descrente da pontualidade britânica, perdi "In The Flesh", "Mother" e "Set Your Controls for The Heart of The Sun".

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O silêncio reverente do público é rompido quando um rosto jovem toma a tela gigante. Aqui e ali gritos e aplausos de quem faz questão de mostrar que reconhece o rapaz. Ah, só pode ser o Syd Barret, a música não é uma homenagem a ele? É claro que conheço, um dos fundadores do Pink Floyd, aquele que enlouqueceu, mas nunca tinha visto. Não que eu me lembre.

Waters começa a cantar sobre aquele que brilhou como o Sol e agora tem buracos negros no olhar. O som é límpido e alto. O céu de São Paulo está estrelado. A noite promete. Come on you stranger, you legend, you martyr, and shine!

O gramado do estádio do Morumbi está dividido em vários setores e a platéia está acomodada em cadeiras de plástico. Cartazes por toda parte avisam que não são permitidas câmeras fotográficas e filmadoras. Também é proibido "alterar a ordem pública". Seguranças cordiais, mas incisivos, impedem que alguém fique de pé e atrapalhe a visão de quem está atrás.

Começam os acordes de "Have a Cigar". No gramado e nas arquibancadas, milhares de pontos luminosos - não, nada que ameace a ordem pública, são apenas celulares. Graças a eles, YouTube, Flickr e similares estão tomados de registros do momento histórico. The band is just fantastic, that is really what I think. Oh, by the way, wich one is Pink?

No meio daquele solo de guitarra devastador, um baque, o nível do som desaba. Algo explodiu? Há fumaça no palco. "Cara, olha a resolução disso!", alguém grita, e tudo começa a fazer sentido. Sim, "Have a Cigar" também terminava de um modo brusco no disco... A fumaça está, na verdade, no telão. Sai de um cigarro em uma mão pousada perto de um rádio antigo - depois fico sabendo que músicas desse rádio distraiam o público antes do início do show.

A resolução da tela é mesmo impressionante. A mão se move, gira um botão e pára quando o som de um violão, baixinho, introduz "Wish You Were Here". Tudo soa exatamente como no disco de 1975, menos, é claro, o vocal. David Gilmour faz falta pela primeira vez.

Com "Southampton Dock", de 1983, aflora o Waters politizado e atormentado pela morte do pai. A letra nos leva do pós-grande-guerra ao pós-guerra-das-Malvinas. Oh, Maggie, what have you done? No mesmo espírito chegamos a "Fletcher Memorial Home", que descreve um imaginário asilo onde "tiranos incuráveis" podem brincar de guerra sem destruir vidas alheias.

Did they expect us treat them with any respect? Na época, o recado era para Maggie Thatcher, Ronald Reagan, Leonid Brejnev (alguém lembra dele?) e outros menos cotados. Agora, o telão nos mostra fotos de George W. Bush e de Osama Bin Laden nas paredes do asilo - cujo nome faz referência a Eric Fletcher Waters, pai de Roger, morto na Segunda Guerra.

Chegamos a "Perfect Sense" (partes 1 e 2), do álbum solo "Amused to Death" (1993), um protesto contra a televisão que transforma tudo em entretenimento - inclusive a primeira guerra do Golfo, ocorrida pouco antes. Can't you see? It all makes perfect sense. Expressed in dollars and cents, pounds, shillings and pence. Não é um clássico, não é da época do Pink Floyd, mas levanta a platéia. Agora há fogo e fumaça no palco - de verdade.

Finalmente Waters faz uma pausa para respirar e vem o indefectível "obrigado". Ele passa a descrever uma nova obra, "Leaving Beirut", como resultado das lembranças de uma viagem de carro que fez ao Oriente Médio, quando tinha 17 anos.

Os músicos começam a tocar. O telão agora exibe o jovem Waters como personagem de uma história em quadrinhos, em preto e branco. Seu carro quebra em Beirute e ele perambula, sem nenhum dinheiro, em busca de uma carona. Quando o Waters de carne e osso começa a cantar, no centro do palco, a letra da música é apresentada em "balões" de quadrinhos ao fundo.

A história se desenrola e vemos o garoto, morrendo de medo de ter entrado em uma roubada, acolhido por uma família árabe. Eles são feios, sujos e... bondosos. Quase não têm o que comer, mas insistem para que ele jante e durma na única cama da casa. Confrontado com seus preconceitos, o futuro pop-star-contestador-da-sociedade-de-consumo reflete: "What's wrong with us?"

A letra interminável, quase um conto, é entremeada por petardos contra Bush e Tony Blair. Are these the people that we should bomb? Are we so sure they mean us harm? (...) Oh, George! Oh, George! That Texas education must have fucked you up when you were very small.

O som é "quadrifônico", ou algo do gênero. A música vem do palco; dos lados e de trás saem vários efeitos sonoros, como no cinema. As caixas de som "surround" agora emitem cantos de passarinhos e balidos de ovelhas. É o começo de "Sheep", do disco "Animals". Depois do solo de guitarra, gritos tiram minha atenção do palco e do telão. Um enorme porco gigante flutua por sobre o público.

Procurei não ler nada sobre o show, para preservar eventuais surpresas. Em algum momento, ouvi algo sobre um porco inflável, sem dar maior importância. Não estava preparado para isso. O impacto visual é enorme.

Pichadas por todo o bicho há várias mensagens "customizadas" para o Brasil, em inglês e português. Na lateral está escrito "All we need is education" - ué, mas não era o contrário? No rabo lê-se "Bush, não estamos à venda". Na barriga, "O Brasil está sendo vendido". Ok, não dá para cobrar coerência de um porco que voa.

Puxado por cabos de aço, o balão dá uma volta olímpica pelo Morumbi. Depois de passar pela frente do palco, escapa das amarras que o prendem e sobe aos céus, iluminado por um holofote e dois raios lasers. Comoção. Isso estava previsto? E se bater num avião? E se cair numa avenida movimentada? E a ordem pública?

"Where is my pig?", pergunta Waters, ao final da música. Algo me diz que logo saberemos*. Ele anuncia um intervalo de 15 minutos antes do início da execução completa de "The Dark Side of The Moon".

As luzes se acendem. Amigos vibram e se abraçam. Alguns arriscam-se a perder o lugar e partem rumo a uma cerveja. "Waters, Waters", brada um grupo de representantes da elite branca. "Água, água", grita um vendedor negro, ao abrir uma sacola térmica.

Fim do intervalo. Agora não é preciso mais anotar a ordem das músicas. O caminho é familiar. Alguém aqui ouviu "aquele do prisma" menos de 30 vezes? Quem não sincronizou o disco e o videocassete para inserir a trilha sonora floydiana em "O Mágico de Oz"?

E vêm "Speak to Me", "Breathe". O telão quase nos engole na instrumental "On The Run". A vez de "Time". Sem David Gilmour, o guitarrista e o tecladista se revezam no vocal. Onde está Roger Waters? Onde está o porco?

Em algum momento, a imagem de Bush volta a tomar o telão. Também aparece a polêmica faixa com os dizeres "Mission Accomplished" (missão cumprida), que adornou o porta-aviões onde o presidente norte-americano discursou logo após a derrubada de Saddam Hussein, em 2003.

Agora vamos de "The Great Gig in The Sky". O belíssimo solo vocal feminino fica a cargo de uma das três cantoras de apoio - fico sabendo depois que o nome dela é Carol Kanyon (obrigado, Wikipedia). Ao fundo, o telão mostra um céu de tempestade, raios aqui e ali - bonito, mas nada que se compare às imagens da casa de Dorothy rodopiando pelos céus do Kansas depois de ser arrancada do chão por um tornado.

Tudo termina com "Eclipse". Waters busca as mãos de dois companheiros de banda e dá uma olhadela para o céu - não, nem sinal do porco, Roger.

Todos voltam rápido para o bis. A estrela principal se aproxima do microfone e desdobra um papel. Lá vem português: "Vamos aplaudir o coral infantil do Projeto Guri!" Entram uns 15 meninos e meninas. "O medo constrói muralhas", dizem suas camisetas. É a vez de "Another Brick in the Wall" (parte 2), mais um protesto na noite, desta vez contra os métodos opressivos de educação. Aplaudidos, os garotos ganham beijos de Waters ao sair do palco.

"Vera", "Bring the Boys Back Home" e "Comfortably Numb" encerram o show - e também o momento "The Wall", a ópera pesada na qual o Pink Floyd rompeu as fronteiras entre rock psicodélico e rock psicoterápico.

Alguém da platéia atira a indefectível bandeira brasileira. Com o pano verde e amarelo sobre os ombros, Waters deixa o palco sorridente. Mission accomplished.


* Passados três dias, nem sinal do porco voador. Se você tem informações sobre seu paradeiro, por favor escreva para daniel.bramatti@terra.com.br.

Atualização em 29/03/2007: graças à ajuda de um leitor, descobrimos o que o houve com o bicho. (Leia aqui.).

 

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