
Paulo Scott
Embora ninguém comente a respeito, há uma nova síndrome causada pela internet. Por falta de um nome melhor, vou denominá-la "auto-googlear-se".
Acompanhem a hipótese.
Um dia, você, escritor, artista, jornalista, acadêmico, intelectual, dramaturgo, cineasta, disc jockey, modelo, esportista, descobre que seu nome (digitado entre aspas) está no Google.
Sim. As pessoas comentam a seu respeito.
A inusitada satisfação, em breve, se transforma no hábito de digitar inofensivamente seu nome (entre aspas) no dito portal quase que diariamente e, em breve, diariamente.
Você descobre que as pessoas estão comentando seu trabalho, recomendando o seu blog e há matérias sobre você nas revistas e jornais eletrônicos. De repente, você que colecionava "resultados 1-10 de aproximadamente 800 páginas em português sobre 'você'. (0,21 segundos)" passa para "resultados 1-10 de aproximadamente 1.600 páginas em português sobre 'você'. (0,23 segundos)" e, em breve, para "resultados 1-10 de aproximadamente 11. 300 páginas em português sobre 'você'. (0,25 segundos)", chegando, poucos meses adiante, a "resultados 1-10 de aproximadamente 31.900 páginas em português sobre 'você'. (0,17 segundos)".
Um dia, você descobre que as tais "aproximadamente tantas páginas" têm relação com a procura de outras pessoas em relação a 'você'. Em breve, você adquire o hábito de se digitar no Google de três a quatro vezes por dia. Depois passa para uma média de nove, dez, onze, doze vezes por dia. Você está a "resultados 1-10 de aproximadamente 65.500 páginas em português sobre 'você'. (0,10 segundos)".
Mas não é só isso. Um dia, um conhecido lhe dá um tapinha nas costas e diz que você está subindo rápido no Google. Afinal, você é conhecido, é um quase-famoso escritor, artista, jornalista, acadêmico, dramaturgo, cineasta, modelo, disc jockey, intelectual, esportista.
Logo, você percebe que os seus amigos quase-famosos têm o mesmo hábito que você. Quando sentam no cyber-café, a primeira coisa que fazem é abrir o Google e digitar o próprio nome (entre aspas). Mas é pior do que você imaginava, porque logo depois que digitam os seus próprios nomes (entre aspas), reagindo psicoticamente em face do aumento ou diminuição no ranking (vamos chamar de ranking-google-pessoal), eles digitam os nomes (entre aspas) de outros amigos seus (e deles), O que, dependendo do resultado, pode levá-los a uma reação psicótica ainda mais expressiva.
Você acha ridículo, mas em breve estará fazendo igual.
Tempo depois, todas as vezes que você se distrai diante de um computador, sua atitude é sempre a mesma: digitar, involuntariamente, seu nome (entre aspas) no Google. Em breve, você não estará dormindo direito, caso seus "resultados 1-10 de aproximadamente XX.XXX páginas em português sobre 'você' (0,10 segundos)" estejam significativamente inferiores ao da semana passada.
Hoje, você está "resultados 1-10 de aproximadamente 14.200 páginas em português sobre 'você' (0,9 segundos)".
Leve pressão no peito.
Você não é um quase-famoso? Seus amigos também não? Você nunca se auto-googleou? Você fez isso há quinze minutos e essa foi a sua vigésima nona vez do dia?
Terra Magazine